É das perguntas mais intrigantes do futebol: o que leva uma equipa a transformar-se tanto de um jogo para o outro? A inquietação aplica-se para o bem ou para o mal. Os dois jogos de Portugal tinham deixado essa questão no ar. Após o empate deprimente (fazendo só um remate) com a Costa do Marfim, receando perder, surgiu uma goleada fantástica (com chuva de golos) frente à Coreia do Norte, jogando sempre ao ataque. A resposta estará em perceber que as realidades, de um jogo e outro, foram muito diferentes. O adversário, claro, mas sobretudo o processo de crescimento da selecção que após perceber a alta sensibilidade do primeiro jogo (uma derrota deixar-lha-ia praticamente fora do Mundial) conseguiu pegar no segundo com outra intensidade e sentido do risco ofensivo.
O jogo com a Coreia libertou também a equipa (e também adeptos e analistas e o próprio Queiroz) de uma terrível preocupação existencial: o que fazer se faltar Deco. Pois bem, Deco não jogou (por lesão) e em vez dele, no seu espaço, surgiram… dois jogadores: Tiago e Meireles. Vendo-os nesse jogo, parecia que jogavam juntos já há muitos anos. Combinaram na perfeição as subidas, alternadas, e, depois, na frente, o timing certo de passe e desmarcação (e até remate). Manteve-se o 4x3x3 mas libertou-se o meio-campo das amarras do primeiro jogo.
Para além disso, chegou o golo de Ronaldo. Da forma mais incrível. Depois de tanto tentar, de duas bolas na barra com remates fulminantes, e a sua face já denotar quase descrença, ela transformou-se, num ápice, quando a bola quase parecendo ter vida própria resolveu ir falar pessoalmente com ele ao ouvido, trepou-lhe pelas costas e caiu aos seus pés solicita: “anda, ok, faz lá o golo”. O sorriso de Ronaldo revelou a cumplicidade. E o golo apareceu. Quando a bola quis! Como é justo acontecer no futebol.
Antes do jogo com o Brasil, apuramento adquirido, a preocupação principal só podia ser uma: evitar que algo aconteça capaz de impedir a equipa de surgir na máxima força nos oitavos-de-final. Nessa perspectiva três factores: a questão motivacional (só uma derrota clara poderia delapidar o capital de confiança conquistado com os 7-0 à Coreia); a questão física (proteger do desgaste alguns jogadores fundamentais mais sensíveis, como Pedro Mendes); e a questão disciplinar (o risco de, vendo um amarelo, Ronaldo não jogar os oitavos). Ou seja, damage control (controle de danos) por antecipação.
Queiroz apenas ignorou a última. Correu bem. No resto, mudou três lugares. Ricardo Costa a defesa-direito ou Duda a medio-ala revelara que são apostas curtas quando se quer pensar numa grande equipa. Pepe regressou, mas longe da boa forma, beneficiou da baixa intensidade do jogo. Durou 60 minutos. Na frente, jogar sem ponta-de-lança (Liedson ou Hugo Almeida) em 4x3x3 é quase como pensar em jogar num campo sem balizas. Ronaldo é fantástico a aparecer no centro. É limitado a começar no centro. Sem Kaká (suspenso) e Robinho (por opção), o Brasil entrava sem os seus maiores elementos criativos. E o seu jogo sentiu isso dando protagonismo excessivo a dois “pica-pedra”, Gilberto Silva e Felipe Melo. Nessas bases, o jogo tinha tudo para não ter uma “grande história”. E não teve. 0-0.
No fundo, cada jogo “contaminou” o seguinte. Sua abordagem e estilo. Os oitavos-de-final são outra história. Em jogos de eliminação directa, o espaço para pensar é mínimo. Cada jogada pode ser decisiva. O primeiro desafio é impedir que a pressão sufoque a criatividade. Depois do receio, da coragem e do calculismo, resta manter a identidade e aumentar a imaginação.