A criatividade organizada

26 de Março de 2009
As lições de Barcelona. A diferença entre jogar em 4x3x3 ou começar a jogar em 4x3x3.

 

O quadro que invade o ecrã no final da primeira parte causa alucinações. Resultado: 4-0. Posse de bola: 76%! No final, os dados são mais suaves. 6-0 e “apenas”…68% de posse! De que planeta veio esta equipa do Barcelona? Os jogadores do adversário, o Málaga, quase se confundiam com o público que estava nas bancadas.
 
É um projecto que nasce de uma estrutura que contraria a tendência internacional dominante, o táctico 4x4x2. Guardiola não joga, porém, em 4x3x3. Guardiola começa a jogar em 4x3x3. É diferente. E muito. As acelerações e travagens de Xavi e Iniesta, traçando linhas de passe ou temporizando jogo, são a bússola que faz a bola percorrer o campo ora em largura, ora em profundidade. O movimento torna-se harmonioso, (campo grande a atacar - campo pequeno a defender) mas o principio para este jogar bem não está no mito da dinâmica. É, antes de tudo, o espaço de jogo ocupado com racionalidade posicional. Uma disciplina rebelde expressa na anarquia organizada do meio-campo até às movimentações sincronizadas do trio atacante: Messi-Eto`o-Henry. Os jogadores respeitam os espaços uns de outros. É esta a base da boa posse de bola.
 
O segredo está em perceber que a origem da criatividade está na organização. Os dribles de Messi têm uma lógica no jogo. Não são aventuras anárquicas. É isso que faz dele um jogador fabuloso. Mas só pode ter essa liberdade criativa porque atrás dele alguém lhe criou essa condições para ele levar o jogo para outra dimensão sem correr-se o risco de quando tudo voltar à normalidade a equipa não esteja desequilibrada. É o pilar da organização, terra firme sobre a qual caminha a criatividade. Aguentar a distância entre as linhas é o segredo para manter esse equilíbrio, a raiz da organização. Xavi e Iniesta são, nesse sentido, outra forma de jogadores criativos. Porque eles criam…organização.
 
A forma como, nesta forma de jogar, a equipa assume o risco tem a ver com a posse de bola ser levada quase até dá-la a cheirar mesmo no nariz do adversário. A estratégia passa em atrai-lo para o grande objecto de desejo do jogo. A bola, claro. Dominado por essa atracção, tenta-se que ele saia das suas posições. E quando ele chega perto da bola, deve sair o passe, porque atrás dele ficou o espaço livre. E assim sucessivamente.
 
É um estilo que pode estar tão perto de ganhar de goleada como de…perder o jogo. Porque brinca com o fogo. Coloca a organização no limite. Coloca a criatividade numa quinta dimensão onde a equipa entra só depois de ela ganhar contornos concretos. Ou seja, nada disto, é abstracto. É de carne e osso. E, no fim, a bola diz: obrigado! 

 

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