A definição de “cultura táctica”

5 de Novembro de 2010 22:20
Mais do que fazer diferentes posições em…jogos diferentes, interpretar diferentes funções no...mesmo jogo.

 

A sucessão de jogos, com tempo curto entre eles, tem levantado a questão das equipas bem ou mal fisicamente. Penso que é um debate que já não faz sentido no futebol actual. Quanto muito, poderia falar-se em questões de recuperação, não de estado físico. As equipas técnicas são hoje todas bem preparadas nesse aspecto. Já não é por aí que se irá marcar a diferença. A questão deve ser colocada de outra forma: a equipa está ou não adaptada à forma de jogar do seu treinador? Ou seja, está a equipa táctico/fisicamente adaptada ao esforço que essa forma de jogar exige? 
Cada vez mais, os jogadores têm de ser multifuncionais. Têm de ter capacidade de atacar e depois defender. Isto é, cada um, na sua posição, tem uma função ofensiva e defensiva a cumprir. Isso é cultura táctica, a capacidade de entender a mudança do jogo e integrar-se em distintas funções, sistemas e modelos. Fabio Coentrão é hoje um protótipo desse tipo de jogador. Não porque joga tanto a lateral como a extremo (a polivalência é um conceito tacticamente vazio) mas sim pela igual capacidade como ataca e defende quer jogando numa posição com noutra (as chamadas multifunções tácticas). O jogo com o Lyon é exemplar.  
 
Aplicando esta ideia ao cruzamento entre o jogador e a equipa surgem vários factores: as questões posicionais, as compensações, a adaptação em função do adversário. Ou, mesmo que não exista uma adaptação global, detectar, a cada caso específico, por onde se pode ganhar aquele jogo. É esse o trabalho mais importante de uma equipa no futebol actual.
Muitas vezes as equipas ditas maiores jogam, no mesmo jogo, com dois cenários completamente diferentes: o adversário recua, aglomera muitos jogadores em pressão no seu meio-campo, enquanto, ao mesmo tempo, deixa os outros 50 metros de espaço no relvado (o mais subido) sem pressionar. Ou seja, primeiro a equipa tem todo o tempo para sair a jogar, depois, avança e vai tendo o relvado cada vez mais reduzido (espaço e tempo). As equipas de top têm de saber lidar com as duas situações sem estranhar tacticamente. É uma diferença competitiva que as nossas equipas grandes sentem na passagem dos jogos do Campeonato (onde há o tal duplo cenário descrito) e os europeus (onde a pressão, qualidade e intensidade, é mais uniforme). A segunda versão reparte melhor os espaços, abrindo mais relva no processo ofensivo.
 
Qualquer equipa grande em Portugal deve ser programada para jogar em espaços reduzidos. O actual Benfica tem equilíbrio posicional a atacar, mas os jogadores não comunicam entre si da mesma forma na transição defensiva. A capacidade de recuperação em função da posição da bola choca muitas vezes com as características pouco multifuncionais dos médios mais ofensivos. A intenção de jogar um futebol de qualidade é clara. Os mecanismos de construção e recuperação têm de começar o mais recuado e o mais adiantado possível. Seria o auge da cultura táctica, do individual para o colectivo. Em suma, ler o jogo pela visão multifunções de Coentrão.
 

 

 

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