É das coisas mais difíceis de entender na vida: os processos de transformação nas pessoas e… nos jogadores de futebol. Como é possível mudar-se tanto de um dia para o outro? Como é possível mudar-se tanto de uma…equipa para a outra? No centro desta reflexão, só futebolística, Podolski. No início, prometera muito como avançado-centro, mas entretanto, cresceu numa direcção diferente. O enigma, porém, surge porque só na selecção essa evolução se nota. Nos clubes, escureceu o seu futebol. A diferença estará na posição onde joga (ou melhor, onde começa a jogar). Abrandou a paixão pela baliza, passou a ter paixão pelo jogo. Por isso, como ala-esquerdo da selecção alemã (em 4x2x3x1) rende mais do que como avançado puro. É, no entanto, um falso ala, pois mesmo sendo esquerdino, procura sobretudo movimentos interiores, diagonais longas que buscam surgir na área a rematar, ou arranques verticais para cruzar. Tornou-se um jogador eminentemente «táctico». Recua a fechar na transição defensiva. Recupera a bola e vai embora para o ataque. Tudo com uma alegria táctica cativante.
A Holanda estreou-se sem o extremo voador Robben, mas, entrando com a cabeça táctica à frente da velocidade do instinto ofensivo, controlou o jogo frente à Dinamarca. Mais do que pela posse e circulação, esse controlo laranja começou na forma como pressionava a equipa dinamarquesa logo no seu meio-campo quando esta queria sair a jogar. A diferença é que esta Holanda não joga para pressionar. Antes pressiona para jogar.
Com a bola, o sistema (4x2x3x1) relançou o debate do conceito e eficácia das trocas posicionais. São importantes para confundir o adversário desde que, ao mesmo tempo, não confundam a própria equipa que os faz. Foi o que senti em muitos lances entre Van Der Vaart (que começou no meio) e Sjneider (mais aberto na esquerda). A combinação posicional sobrepôs-se muitas vezes. Até que surgiu um ala puro na esquerda (Elia), Sjneider foi para a sua casa táctica natural (meio) e, de repente uma combinação (passe+desmarcação) ente os dois abriu uma clareira na defesa adversária e foi golo. Simples, portanto.
Para além da essência
Kuyt é um caso parecido com o de Podolski na forma de jogar. De origem nº9 também se converteu a uma ala (também em 4x2x3x1), mas tem a aculturação táctica facilitada por também no clube (Liverpool) jogar nessa posição. É interessante, porém, verificar que, talvez por treinar mais vezes assim do que Podolski, como essa mudança o tornou, talvez, tacticamente «demasiado responsável» no jogo. Ou seja, Kuyt deixou praticamente de pensar na baliza. Pensa só na equipa e como colocá-la a jogar. Dirão que é outro tipo de evolução. Pode ser. Mas esta, sinceramente, foi para além da essência do jogador. E mudou-o demais.
Noutro ponto de evolução das espécies tácticas, olhares abertos para Ozil na Alemanha. Cresceu como o miúdo que jogava solto (quando errava batia-se palmas porque antes fizera algo mágico e estava na idade para arriscar) mas agora deram-lhe uma posição mais responsável: médio-centro ofensivo da selecção alemã. O lugar do 10 moderno. Sem pestanejar, Ozil abriu a porta da posição e começou a desenhar tudo na perfeição. Movimentos, recepção, pausa, aceleração, passe. Parece que nasceu ensinado. Não acreditem nisso. Tudo aquilo é a sua natureza a mover-se pela inteligência adquirida no treino.