As imagens do futebol mudam através dos tempos. O mitíco you never walk alone continua a arrepiar quando entoado em coro nas bancadas de Anfield pela devota legião do Liverpool, mas ver, ao mesmo tempo, na primeira fila da tribuna presidencial, a modelo italo/americana Linda Pizzutti a entoar os mesmos acordes, provoca quase um efeito de twillight zone. Apesar da estética woman in red da nova primeira dama de Anfield, esposa de Jonh W. Henry, proprietário americano do clube, existe algo de mais profundo nesta hipnotizante nova imagem do futebol inglês. Linda Pizutti está numa dimensão superior a Vitoria Beckham. Não se trata do moderno futebol pop-star, trata-se da metáfora feminina de uma realidade insofismável: a Velha Inglaterra é uma causa perdida. Metade da Premier League (10 clubes) é hoje controlada por proprietários estrangeiros. A velha albion do futebol de pé atrás da baliza, os directores de sobretudo pele de camelo e o pub cheio pelo fim da tarde que decidia contratações, perdem-se no horizonte. Iguais só os adeptos nos estádios. Gordos, magros, crianças, velhinhas, olhos esbugalhados e aos pulos. Parecem personagens vindas do passado numa máquina do tempo.
A maior ironia do Liverpool, cidade que em cada canto rude contrasta com o glamour de Pizzutti, está porém dentro do campo. No estilo de futebol que joga, em passes preferencialmente longos para um ponta-de-lança alto e corpulento na procura do contacto físico, e no treinador que o dirige, o lendário Dalglish, nº7 do super-onze dos anos 70/80, regressado ao banco após 10 anos de inactividade. O nº9 possante é Andy Carrol. Recorda aqueles velhos nºs 9 que tinham mais lesões nos dentes do que nas pernas. A equipa perdeu as bases que tivera com Benitez e, depois do legado indefinido de Hoghdson, caminha agora quase numa encruzilhada do tempo. Nessa lógica, até entra um médio escocês, descoberto para o futebol inglês de top aos 26 anos, no Blackpool, daqueles que joga muito mas até deixa crescer uma barriguita no decorrer da época: Charlie Adam. Excelente momento para recordar que o futebol é, essencialmente, homens a tratar bem uma bola. Só Gerrard, quando regressar, pode dar coerência a tudo isto.
Entre os novos donos dos clubes ingleses estão árabes (Manchester City), americanos (Manchester Utd., Arsenal, Liverpool, Aston Villa e Sunderland), russos (Chelsea), Malásia (QPR), egípcios (Fulham) e indianos (Blackburn). Na II Liga, existem chineses (Birmingham) e tailandeses (Leicester), entre outros. Não tenho ilusões de contrariar os novos tempos ou querer o dinheiro fora do futebol. Tenho, porém, dificuldade enorme em ver em tudo isto algum sinal de progresso. Pelo contrário. Acho mesmo que é definitiva prova à força do futebol. Se ele resistir a este assalto do presente, será mesmo indestrutível para sempre como supremo mundo de emoções. Mas, ok, mesmo assim…a Linda Pizzutti pode ficar!
Manchester, a flecha e o arco
Para melhorar o seu jogo, ou, sobretudo, a forma de atacar, a maior contratação do Manchester Utd esta época foi um extremo veloz, destro que gosta de jogar na esquerda, que acelera com passada larga que, na condução se transforma curta para melhor controlar a bola, e, no fim, gosta mais de acabar a jogada a rematar do que a passar ou centrar. O exemplar futebolístico em forma de gazela é Ashley Young, jogador feito (perto dos 26 anos), mas que joga com a rebeldia do boy que saiu dos juniores. Não duvido que será muito útil para perfurar defesas fechadas (o primeiro jogo contra o West Bromwich já o confirmou), mas no conjunto da equipa, pensando na construção de jogo e capacidade de o controlar, a grande questão está no centro do meio-campo. Faltam médios para ter bola e ocupar esse espaço em posse, presença táctica e circulação (pressão/organização).
Anderson tenta fazer vários lugares num esquema de jogo que, na prática, acaba a jogar só com dois médios e irá sentir muito a falta de um veterano cenoura, Scholes. Não se trata de correr mais ou dar maior velocidade ao jogo. Falo, simplesmente, em dar maior coerência a tudo que rodeia quem tem a posse da bola. No contexto inglês, esta questão do meio-campo até pode ser iludida com a tal vertigem ofensiva, mas, no cenário internacional, é fatal.
«Ganha» o Arsenal
A questão (o ser ou não ser futebolisticamente shakesperiano) resume-se, no fim, a ganhar ou perder. Mas, até que ponto é mesmo esta a resposta certa para dizer o que é jogar bem? O Arsenal definiu, há várias épocas, um estilo de jogo que primeiro chocou com os cânones ingleses e, depois, cativou toda a Europa. Esteticamente, continua muito elogiado, mas agora tudo é questionado porque não ganha nada há 6 épocas. Pois bem, o mais provável esta época é mesmo continuar sem ganhar.
O que não duvido é que ver jogar o Arsenal é o exercício máximo de prazer futebolístico (e continuará mesmo sem Fabrègas). Porque o estilo de todos quererem a bola, não apenas para ter a posse pela posse, mas no sentido de jogar colectivo, continua no seu código genético estilístico. Agora, com Gervinho na frente pode ganhar mais verticalidade rumo à baliza nos últimos metros. Ele personifica a finta criativa objectiva. O que mais me perturba? Ver que até parece estarem proibidos golos de cabeça, tal a forma como Chamakh, excelente a jogar de cabeça, raramente é chamado pelo ar, e tem sempre de procurar (e mover-se) a bola rente à relva.