O tempo passa depressa e reserva-nos caminhos insondáveis. No futebol, como na vida. Já passaram 22 anos. Era o ano de 1983 e um jovem técnico basco de 33 anos que começara a trinar com apenas 25 após uma grave lesão num joelho ter arruinado a sua carreira de jogador, tornava-se levando sensacionalmente o Ath.Bilbao à conquista de duas Ligas espanholas consecutivos. Seu nome, Javier Clemente. O feito, ligado então a uma imagem simpática e quase romântica, fez dele no grande exemplo de coragem e renovação dentro do futebol espanhol. O tempo voltaria, no entanto, a reservar-lhe outros destinos. Quando chegou à selecção, em 92, já arrastava com a competência, um perfil mais polémico. Tornou-se irascível perante quem o criticava e, num ápice, passou para o pólo oposto. Contestado pelo jogo e pela postura arrogante. Saiu vociferando contra o mundo em 98 e desde aí, salta de clube em clube, sempre envolto em polémicas. No fundo, fora ultrapassado pelo tempo e não conseguiu, ou não soube, capitalizar a admiração inicial, ficando refém do seu orgulho. Aos poucos, minguou-se o seu espanco no futebol espanhol. A saída para o comando da Sérvia surpreendeu, porém, meio mundo. O outrora jovem profeta de Bilbao rumava às distantes Balcãs. Estreou-se esta semana, num particular na Republica Checa. Vendo-o no banco, vêm-me à mente todas aquelas memórias. Conserva o mesmo estilo. Quase sempre de pé, olhos bem abertos, ora preocupado, ora dando indicações, fumando e sorrindo. A nova Sérvia já tem a sua imagem. A garra basca mesclada com a técnica e picardia eslava. Montou um onze jovem, deixou de fora monstros como Kovacevic, Kezman ou Milosevic, e apostou em cinco titulares com 23 anos. Reformulou a defesa a «4», solidificou o meio campo com quatro sábios médios (Duljaj, trinco, Koroman, ala, Stankovic e Ilic enganches) e relançou uma nova dupla atacante, virtuosa e inventiva: Pantelic e Lazovic, um rebelde do futebol sérvio a que anteriores seleccionadores viraram as costas temendo o seu difícil carácter. A vitória por 3-1 foi o guião perfeito. Com uma equipa com média de idades inferior aos 25 anos, Clemente começou a sua terceira vida como treinador. De costas voltadas para o futebol espanhol que, depois de o idolatrar, renegou-o sem apelo. É a lei do futebol.
Brasil e Itália: As estreias Dunga e Donadoni

Está no banco, de pé, com os mesmos gestos e gritos com que pisava o relvado. Apesar disso, Dunga deve sofrer muito por não poder saltar lá para dentro, fazer um carrinho e empurrar o ataque. No seu jogo de estreia na selecção brasileira, esquematizou nesse seu lugar à frente da defesa, uma dupla de volantes (Edmilson-Gilberto Silva), procurando dar consistência a um inicial 4x2x3x1 (com Daniel Carvalho, na esquerda, e Elano, na direita) que se transformava rapidamente em 4x4x2 quando Robinho se soltava desde trás e surgia ao lado do ponta de lança Fred. Nas faixas, os laterais Cicinho e Gilberto subiam sempre a apoiar. Nessa dinâmica, sem as estrelas do Mundial, teve bons momentos, mas faltou consistência exibicional, quer a nível táctico como até físico, frente à tradicional Noruega das bolas dividas que, ao conseguir fazer crescer a dimensão física do jogo, levou o onze brasileiro para terrenos onde ele se sente menos confortável. O empate (1-1) é o espelho desse choque e o Brasil continua, na sua história moderna, sem ganhar à Noruega. Em Itália, Donadoni, estreou-se à frente da «squadra azzurra», contra a Croácia, onde já fora feliz como técnico, em Livorno Com um onze, digamos, experimental, sem os campeões mundo, montou um 4x3x3, só com pivot defensivo, Liverani (a quem chamou o vice-Pirlo) e alas bem abertos a toda a largura do campo, com grande capacidade de inserimento, como dizem os italianos. Esposito à direita, Rocchi, à esquerda, apoiando o nº9 Lucarelli, um ponta de lança possante, na senda da tradição do futebol italiano nessa posição. Como núcleo central da equipa, cinco jogadores da Sampdoria: quase toda a defesa Zenoni, Terlizzi e Falcone (a excepção foi o lateral esquerdo Chiellini, da Juventus) Palombo e Delvecchio. Uma homenagem ao excelente trabalho de Novelino em Génova. Os princípios de jogo estiveram presentes, mas, melhor a temporizar o ritmo, com Modric a gerir o meio-campo, transição e passe, a Croácia, em 4x3x2x1, foi controlando e venceu cinicamente (0-2).
BRASL - ITÁLIA: AS SELECÇÕES EXPERIMENTAIS DE DUNGA E DONADONI