Ao longo da carreira, um jogador vai ganhando umas coisas e perdendo outras. Uma transformação que, por um lado, faz parte do seu crescimento natural (explorar qualidades, disfarçar defeitos) e, por outro, da sua mutação atlética (diminuem alguns factores, como a velocidade, apuram-se outros, como a experiência). Há casos, porém, em que essa transformação surge noutra fase. Por imperativos tácticos, por mudar de habitat, pelo treinador, por descobrir outros horizontes. Não é, um processo pacífico. Sobretudo pelo que, nesse trajecto, se pode perder da sua génese.
Sempre que Anderson pegava na bola no relvado do Dragão, comendo o meio-campo a partir da posição de médio de transição esse pensamento era inevitável. O avançado vagabundo das fintas tornou-se num médio táctico que apoia o trinco e trabalha na recuperação e transporte da bola. Perderam-se as fintas e magias. Anderson está “outro jogador”. Tacticamente adulto, mas sem aquilo que o fazia uma verdadeira estrela. Ou seja, aquilo que raramente outro jogador em campo poderia fazer. Hoje faz o mesmo que Scholes ou Carrick. Antes ameaçava fazer o mesmo que Ronaldinho. Não é a mesma coisa.
Este lado táctico do Manchester personificado na forma como recebeu, analisou, mudou e agora utiliza Anderson, é um bom espelho da forma como evoluiu a filosofia de Ferguson para dar à equipa maior dimensão táctica internacional, algo que, em mais de duas décadas, nem sempre soube entender. A outra transformação que se detecta no onze, tem outra origem evolutiva: Giggs. Entre o velho extremo-esquerdo que saltava adversários e o actual avançado pausado que se relaciona com total rigor táctico entre os flancos e as zonas interiores, está um jogador que sabe não poder fazer aos 35 anos o mesmo que fazia aos 25. Ao entender (com as indicações do treinador) esta mutação, personifica hoje em campo a sabedoria do velho ancião da aldeia futebolística de Manchester.
Oscar Wilde dizia que “sou um igualitário. Para mim todas as classes são vulgares”. Claro que não o disse pensando em futebol, mas há neste pensamento uma lógica semelhante desta visão e construção do jogador. Por isso, na frieza do resultado e no jogo de Anderson e Giggs, o que vivemos no Dragão foi, para além da repetida demonstração de potência do futebol multinacional, também uma prova desta ordem futebolística que despoja o jogador do seu ego e o dilui na equipa para, depois, só crescer a partir daí. O único factor perturbante desta história é que Anderson não pertencia a uma classe “vulgar”, futebolisticamente falando. Estivesse o jogo em qualquer lado.
