A «Fábrica do futebol»

24 de Outubro de 2009 12:39
O «Tempo». Uma palavra que divide o futebol, e o jogador, de fenómeno «natural» a fenómeno «fabricado»

 

A fábrica do futebol tem um centro de produção no qual o talento é um elemento de trabalho. No inicio, existe a relação com a bola. Nesse primeiro tempo, a idade da inocência, qualquer jogador parece um predestinado. O tempo, as teias de relações, vida e jogo, que se tecem no túnel do seu processo de crescimento dirão, no fim desse caminho, qual a verdadeira matéria de que esse talento é (era) feito. É o futebol de «fenómeno natural» a «fenómeno fabricado».
Está nesta evolução cruzada, o longo caminho, silencioso e invisível, da chamada “formação”. Leio Luís Castro, ainda treinador de futebol por dentro, mas hoje director-técnico da formação do FC Porto, falar das diferenças destas suas diferentes vidas e a palavra-chave, para explicar tudo, é o factor «tempo»: “como treinador, planeava o jogo durante a semana e via o resultado desse trabalho logo no domingo seguinte. Na formação, planeamos, trabalhamos, e passa-se um ano, dois, três… Vê-se jogadores que chegaram aqui com 10 e agora já têm 14… Ainda vai ser preciso mais quatro ou cinco para eles chegarem lá em cima”. Será, então, o tempo da “recompensa do trabalho invisível”.
A mesma sensação nasce quando se fala das descobertas de Aurélio Pereira, em outra «fábrica», a verde. Fenómenos naturais descobertos, crescendo à espera do dia em que a mercantilização do futebol adulto os absorve. Por fim, calçar as chuteiras para pisar o relvado principal, com a primeira equipa.
Uma «fábrica» incessante. Interminável. Nos puzzles da memória, saltam-me à mente várias imagens. Um golo de Simão, ao Salgueiros, na Maia, poucos minutos depois de estrear-se no onze adulto leonino. 1997. Os primeiros toques na bola de Sérgio Oliveira na relva do Dragão no último domingo. 2009. Dois casos, distantes, o mesmo circuito sanguíneo futebolístico. O talento, «o natural e o fabricado», por fim visíveis.
Tudo isto, porém, no onze principal, cruza-se com outros significados futebolísticos do factor-tempo. Penso no reforço mediatizado, que chega, a cada época, já «fabricado». Para ele, o «tempo» tem uma, duas, três semanas... Para o talento formado, o «tempo» tem seis, sete, oito anos... Até se cruzarem no mesmo espaço. Na mesma equipa, sujeitos aos mesmos desígnios de 90 minutos, à mesma sentença.
É difícil fazer da palavra «tempo» a base de um futebol actual onde só o último resultado parece verdadeiramente importar. A consciência dos diferentes significados dessa palavra (tempo-formação/tempo-contratação) no grande edifício que deve ser a estrutura do futebol de um clube (e sua equipa) é, no entanto, a base dos projectos (e sucessos) mais sólidos.
O futebol, o jogador, é um processo de construção longo. Leva anos. A equipa, o jogo, é um processo rápido. Leva uma semana. O miúdo de 12 anos que chega às escolinhas. O craque estrangeiro que chega com um batalhão de fotógrafos. Uma coisa não vive assim tão distante uma da outra. Entender estes diferentes «tempos» é entender a lógica global da chamada «fábrica do futebol».  
 
 

 

 

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