Diz-se que existe uma segunda oportunidade para tudo menos para causar uma primeira impressão. É verdade. Mas, no fim, o que fica, são as últimas imagens. É um duelo que marca a vida: a primeira impressão e a última imagem. O que vale mais? Acredito que a essência da realidade está no meio, quando tudo se cruza. Nas pessoas e nas equipas de futebol.
Terá sido da vontade, não sei, mas, sinceramente, a impressão que tive naquele último ataque bósnio, foi que a nossa baliza se mexeu e, ágil, impediu, duas vezes, barra e poste, que a bola entrasse. Duas defesas impossíveis. Foi a última imagem de um jogo emocionalmente confuso. E, talvez por isso, tacticamente instável.
Segundos antes, o 1-0 parecia curto. Segundos depois, parecia excelente. Não faz sentido. É necessário entrar na essência do jogo. Penso que jogar ou viver com o coração não turva as acções, mas turva as…reacções. São coisas diferentes. A selecção não soube festejar o seu golo. Um golo quase acidental. Deco hesita, permite o desarme, mas o corte mete a bola em Nani que centra para na área surgir Bruno Alves (que em circunstâncias tacticamente normais nunca estaria ali) a cabecear para as redes. Podia (devia) ter sido um golo libertador. Mas não. A equipa descomprimiu e ficou…ansiosa. Recuou. Não existiu lógica táctica, nem ordens, para o fazer. No fundo, Portugal soubera agir bem no início do jogo, mas, depois, raramente soube reagir ao seu desenrolar. Descontrolou-se tacticamente quando se descontrolou emocionalmente. E vice-versa.
Durante muito tempo, pensei que, na vida, o equilíbrio estaria em conseguir ser 50% razão e 50% emoção. Percebi, depois, que não era bem assim. Tentando humanizar uma equipa de futebol, essa relação razão-emoção também parecia perfeita, mas, no jogo, esse 50-50 mais do que um equilíbrio, torna-se um conflito. Porque cada um indica-nos um caminho diferente. Então surge a hesitação, a personalidade indefinida, os erros. Foi o que sucedeu com a nossa selecção.
A solução está na chamada inteligência emocional. O cruzamento das primeiras impressões com a última imagem, da razão com a emoção. No jogo, evita que a equipa se parta. O local ideal para o fazer é no meio-campo, o centro da vida no relvado. Ao ocupar mal esse espaço em termos colectivos (número de jogadores e capacidade de segurar e circular a bola) e individuais (Deco parecia jogar com um peso amarrado aos pés) o onze perdeu o equilíbrio táctico e viveu permanentemente em conflito consigo próprio. É uma questão para além do 4x3x3 ou do 4x4x2, embora um sistema que coloque, em momentos-chave, quatro homens nessa zona, seja o que melhor controle o jogo e garanta uma organização (construção) de jogadas mais inteligente. É o tal domínio da essência, evitando extremos, tácticos e mentais.
Para que não fique duvida sobre o meu próprio estado mental, sei bem que a baliza não se mexeu naquele último lance. Simplesmente porque, apesar da tentação, nunca cedo à força da última imagem. Prefiro a essência.