A geometria do futebol

March 10, 2003 12:00 AM
O melhor local para ver um jogo de futebol, sob o ponto de vista da análise táctica, é atrás da baliza. Desse local, pode-se observar, na perfeição, o bailado das três linhas e as respectivas figuras geométricas que, em cada equipa, a movimentação dos jogadores desenha. Nos idos anos 50, tempo do WM, impôs-se o lendário quadrado do meio campo. Hoje, a geometria mudou. Ao lado do idolatrado losango com rombo, destaca-se, o jogo de triângulos que faz a alma de muitas grandes equipas da actualidade.
Pode ser feito pela movimentação de dois jogadores, a chamada triangulação, numa jogada de um-dois, a tabelinha, ou pelo jogo táctico de três elementos –por exemplo, o ala, o interior e o avançado centro- cada qual podendo contar com outros dois companheiros para traçar, através simultaneamente da movimentação com e sem bola (mas sempre com esta em movimento), o tal triângulo que, se feito com a dinâmica e a precisão adequada, causa desiquilibrios nas defesas adversárias e abre espaços de penetração. São várias as equipas da actualidade onde se podem estes movimentos. É o caso, por exemplo, do Ath.Bilbao, através das correspondentes jogadas geométricas de envolvimento traçadas pelo trio composto por Etxeberria, ala direito, Urzaiz, ponta de lança, e Tiko, médio interior. É o ideal colectivo do futebol a régua e compasso, baseado num jogo de triângulos que, como ensinam os tacticistas, terá de ser basculante, para, assim, se adaptar ás diversas circunstâncias do jogo e da posição da bola. Neste contexto, destaque-se o triângulo desenhado, em contra-ataque, pelo mórbido Inter de Cuper, em Londres, frente ao Arsenal. Essencialmente, esse surpreendente triângulo basculante, baseou-se no mentiroso recuo de Julio Cruz quando o Inter saia para o ataque pelo lado direito através do ala Van der Meyde que, depois, nos últimos 20 metros, com uma simulação de corpo, flectia ligeiramente no terreno, executava um passe curto diagonal para Cruz e este, de primeira, tocava verticalmente para o espaço vazio, lançando em profundidade, já nas imediações da área, a velocidade de Martins. Noutra perspectiva, o triângulo neroazzurro de Highbury Park, desenhou-se a toda a largura do terreno, com Kily na esquerda, Van der Meyde na direita, e Cruz no centro, envolvendo por completo o espaço entre linhas (defesa-meio campo) do Arsenal. Um esquema triangular só possível, diga-se, devido a um sacrifício de marcação talvez só apreciado no estilo italiano, no qual, na intenção de dominar todos os tempos e espaços, o primeiro jogador a defender é o ponta de lança. Uma lição dada por Júlio Cruz, o primeiro homem a fazer a zona, caindo em cima de Vieira quando o Arsenal procurava iniciar a manobra atacante.

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