A história está construída em cima dos ídolos que marcam cada geração. É humano. Tal como é, através dos tempos, o chamado conflito de gerações. Um choque que se traduz numa injusta sucessão de comparações entre figuras de épocas diferentes. Não faz sentido. Em nenhum desporto. Comparar Jesse Owens com Usain Bolt, Sptiz com Phelps, ou, claro, Maradona com Messi. Cada época, tem o seu génio. Ou melhor, as suas condições para expressar o génio. Também nos treinadores se tentam esses paralelos. No Inter, comparar Mourinho com Herrera. No estilo, arte do conflito e astúcia táctica, até serão parecidos, mas as épocas, tão diferentes, não permite jogo de espelho tão claro.
Pensei nisso vendo Mourinho preparar um novo desafio da Champions. Confessa que não é feliz em Itália. Acredito. O futebol italiano caiu num fosso de ideias. Perdeu o bom rigor defensivo que tinha e não descobriu novas ideias para o seu jogo. Para combater o domínio de Mourinho, ainda é o reciclado Ranieri que tem mais força. É um duelo pouco estimulante, apesar da bela Roma que se tem visto nos últimos tempos.
Mourinho não sente muita necessidade que o seu Inter jogue melhor. Acredito, porém, que, em campo, os seus jogadores sintam necessidade de mais qualquer coisa. Foi evidente contra o CSKA, uma boa equipa, mas lenta nas transições. O início de construção de jogo do Inter tem uma sinceridade táctica perturbante: ou sai a jogar numa cavalgada do lateral-direito Maicon que leva a bola de uma área à outra, ou opta por um passe longo para os três avançados (Eto`o-Milito-Pandev). No meio, um jogador tenta fugir a esta visão tão directa do jogo. Sneijder. Quando pegava na bola parecia outra equipa (tenta controlar, pensar, jogar apoiado e construir). Ou seja, a ideia que dava durante a maior parte do tempo era que o Inter jogava contra… si próprio. O modelo do treinador (a equipa) e o modelo de Sneijder (o jogador). Até que, com o 0-0 como uma pedra imóvel, o jogo de Sneijder tomou conta da equipa. Stankovic surgiu mais na segunda linha, Eto´o passou a baixar para servir de apoio, Milito e Pandev sentiram-se mais acompanhados e Maicon continuou a furar pela direita. Outro jogo, oportunidades, golo.
No final, volta a falar-se de resgatar a glória europeia que ficou com Herrera nos idos anos 60. Mas isto agora é 2010. Outro mundo, outra geração. Iguais mesmo, só os conceitos do bom futebol. Porquê insistir que o futebol directo chega mais rapidamente à baliza como se este jogo fosse mera geometria? Não é. No futebol a velocidade faz-se de outra forma (recepção-passe-espaço-mobilidade). Vejam Sjneider jogar e percebem o conceito. Hoje como há 50 anos.