A importância da «ovelha negra»

10 de Junho de 2008
Tenho carinho pelas ovelhas negras. Vestem-se e agem de forma diferente. E, no futebol, são os jogadores diferentes que fazem a diferença.

 

Na Ilíada de Homero, uma ovelha negra é sacrificada para selar o pacto entre Paris e Menelau, dando origem à guerra de Tróia. Só que a ovelha não era responsável por nada. Como todas ovelhas negras, estava inocente. Era apenas diferente.
 
O Euro-2008 está a um passo de iniciar-se. O país prepara as emoções. Haverá também que viva fora desde mundo alucinado. Por exemplo, um pastor isolado no interior de Portugal. Nem é preciso afastarmo-nos muito do litoral para entrar nesse “outro mundo”. Sobe-se umas montanhas, vales, e encontram-se aldeias perdidas. E um pastor. Com as suas ovelhas. Como vive um pastor sozinho, na natureza imensa, o Europeu de futebol? Terá pelo menos um pequeno rádio a pilhas a seu lado? Não. Tem o seu rebanho. Uma equipa equipada de lã virgem da cabeça aos pés. Que se move pelos vales e colinas, (pastando, caminhando, pastando, caminhando…) como uma equipa se move em campo em função do local da bola. Basculando também. O pastor vai observando. O rebanho está controlado.
 
Mas, não é assim tão simples. Há quem dentro do rebanho seja diferente. A ovelha negra. No pastoreio, como na vida. Subversivos, sonhadores, perturbadores, rebeldes. Vestem-se de forma diferente. Agem de forma diferente. Pensam de forma diferente. E alteram a paisagem bucólica e tranquila do interior. E alteram a paisagem previsível de uma equipa de futebol.
 
Um drible de Quaresma, a barra a estremecer, o seu olhar cigano despreocupado e insolente. Igual no banco de suplentes mergulhado num hipod como na relva defrontando os defesas mais duros. Ele põe o rebanho, o nosso e do adversário de pernas para o ar. Ronaldo tem mais faces. Arrasta um rebanho atrás de si. Manniche é outra versão da mesma história. Coloca areia no programa que formatou o pensamento do rebanho mesmo antes dele começar a caminhar. 
 
Sempre tive um carinho especial perlas ovelhas negras. Aliás, confesso. Eu próprio sempre quis ser uma ovelha negra. Metaforicamente falando, claro. No futebol, no jogo, elas são os jogadores que fogem ao rebanho. Também fogem do grupo? Não vejo as coisas assim. Tem é personalidade própria, diferente. No cabelo, na tatuagem ou, na mente. E ovelhas a pensar, jogadores de futebol a pensar continua a ser cada vez mais um elemento perturbador. São de trato difícil.
 
Mas, são os jogadores diferentes que marcam a diferença nos jogos. Aqueles que tanto querem a bola só para si, como a sabem que é hora de a dar aos outros. Aqueles que quando vão para o banco não disfarçam a mágoa e colocam o nariz no ar como só as ovelhas negras sabem fazer. Quando entram em campo, mantêm a mesma postura. Quando falham uma finta e todos olham de lado. Adeptos, colegas e treinador. Ou quando acertam a finta, bang!, grande golo e todos o abraçam e aplaudem de pé. Adeptos, colegas e treinador, outra vez. O pastor, e o treinador, sabem a importância da ovelha negra. Sabem o seu poder. O problema é que, antes de o admirar, temem-no. Mas nenhuma equipa é completa sem perceber a sua importância.

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