A importância de uma (boa) ideia

29 de Dezembro de 2009 17:34
Sedutor ou perturbante. Aquilo que nos faz ganhar pode ser exactamente o mesmo que nos faz perder.

 

Cada equipa tem as suas características e dimensão competitiva. A grande dificuldade, entre outras, de um treinador, reside, muitas vezes, em dar-lhe, em campo, a linguagem mais adequada. Porque, no jogo, cabem todas as ideias do mundo. Apenas se assemelham na sua autenticidade. Talvez sejam, porém, aquelas que têm como base a confiança no próprio talento as mais sedutoras.   
Uma equipa que, esta época, tem ganho elogios a partir da forma como fala em campo é o Olhanense de Jorge Costa. Não sonha com mais do que a sua essência lhe permite: a permanência. A diferença está em pretender lá chegar através de uma boa ideia de jogo. Vemos os arranques truculentos de Ukra, as fintas de Toy, os centros de Rui Duarte, as desmarcações de Rabiola, a garra e os remates de Castro e vemos essa tal ideia, ou, pelo menos, essa tentativa de sedução. Existem equipas com os mesmos objectivos (legítimos) que correm atrás deles de forma diferente (legitimamente, também). É difícil, porém, detectar nessa ideia de jogo traços como os exemplos retirados do onze de Olhão. Uma ideia que se desenhou num 4x3x3 puro. Dirão que é, por vezes, demasiado romântico. Talvez. E aqui por esta página já passou, diga-se, essa impressão.
É tão sedutor como perturbante ver como aquilo que nos faz ganhar pode ser exactamente o mesmo que nos faz perder. Aquele jogo com o Sporting foi o exemplo perfeito. Foi a derrota mais linda do campeonato. Jogando de forma diferente se calhar teria segurado pelo menos o empate. Mas a origem da ideia está no princípio. Jogando de forma diferente também nunca teria chegado a estar a ganhar por 0-2. Nesse romantismo excessivo não estava, no entanto, uma crítica à «boa ideia». Estava a constatação da necessidade de, em certos momentos, adequar tacticamente (qualidade da defesa e peso no meio-campo) essa linguagem às exigências do jogo, sem subverter, porém, o estilo de vida no campeonato escolhido desde a primeira jornada.
Só que ganhar ou perder não é uma questão tão platónica. A boa ideia sente-se, então, confusa. Muitas notícias colocam-nos ainda mais perante essa confusão. A equipa caiu na classificação e o Presidente sente necessidade de dizer que o treinador não está em causa. No plano humano, Jorge Costa será, claro, um treinador como os outros. Sujeito às frias e inclementes bolas no poste. Está na natureza dos adeptos (e das direcções) serem impacientes, mas o importante é perceber que quando se contrata um treinador, não se contrata apenas um homem, contra-se uma ideia. Quando, depois, se despede um treinador, não se despede um homem, despede-se uma ideia. E é isto que este Olhanense (e o seu treinador) transporta em cada jogo. Uma ideia.
Há futuro, ainda, para defender esse estilo. Perceber se a linguagem (jogo táctico) para aquela (boa) ideia é a correcta a cada momento do jogo, pode ser feito através de uma simples análise: as razões para ganhar têm de ser diferentes daquelas porque se perde. Os jogadores e as ideias vivem uns para os outros.

 

 

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