Quando um jogador chega a uma equipa já em andamento, o primeiro impacto que provoca foge por princípio, à lógica do colectivo. Isto é, aquilo que ele (ainda sem conhecer bem o funcionamento da equipa, forças e fraquezas) mete no jogo, são, sobretudo as suas características individuais. Depois, com o passar dos jogos, percebendo a equipa, ele tende a sentir as suas virtudes e, acima de tudo, problemas. Ou seja, o jogador sente o mesmo que sente a… equipa. E o mais natural, então, é o seu problema passar a ser resultado dos problemas da equipa. Chega a hora da verdade. Ou ele é a solução ou, se não, é absorvido pelos problemas globais e continua só a brilhar (tendencialmente cada vez menos) através das iniciativas individuais. O mercado de Janeiro chegou ao fim. Todas as equipas buscaram os seus reforços. Segue-se, agora, ver se esses novos jogadores mudam as equipas. É então que entram os pressupostos no inicio do texto.
Primeiro impacto: a equipa sente as características do novo jogador (por exemplo, se é mais rápido dá-lhe maior velocidade…);
Segundo impacto: o novo jogador sente os problemas da equipa (faz o movimento ou o passe mas ninguém acompanha…);
Terceiro impacto: o novo jogador percebe a situação e descobre como a resolver (se era do seu jogo particular que ela precisava) ou, mesmo percebendo, não a consegue resolver (porque o problema é muito mais profundo…).
Ruben Micael no FC Porto. João Pereira no Sporting. Os dois únicos reforços claramente para entrar no onze e…resolver problemas. Todas as outras aquisições, de Benfica e Braga, visaram, sobretudo, reforçar o plantel.
João Pereira causou um primeiro impacto forte no jogo do Sporting. Rápido, com garra infinita, pegou de estaca no flanco direito. Passam alguns jogos, chegam outros de maior grau competitivo (Braga e Porto) e os problemas da equipa começam a “crescer” para ele. Embora tente meter o mesmo jogo, falta-lhe o apoio (consistência táctica colectiva) para o fazer. Quando a jogada acaba, sem grande efeito, olha e vê a equipa em campo sufocada nos seus problemas que fogem muito à simples acção vertiginosa do lateral-direito. Ou seja, em pouco tempo, passa a ser ele a sentir mais os problemas do jogo da equipa do que a equipa a sentir as qualidades do jogo dele.
Ruben Micael chega ao FC Porto e com o seu futebol geométrico e carácter (entenda-se qualidade de passe e intensidade de jogo) entra, sem pestanejar, no meio-campo da equipa. Passam três jogos, chega um mais exigente (Sporting) e, pegando nos problemas da equipa, diz, em campo, a cada bola que recebe e passa, como os resolver. Ainda lhe faltam testes mais difíceis, mas na entrada para o terceiro impacto parece claro: em pouco tempo, passou a ser a equipa a sentir mais a influência positiva do seu futebol (que tocou na ferida táctica que estava aberta) do que ele a deixar-se engolir pelos problemas do onze.
Trata-se de duas analises particulares que, no fundo, explicam as questões colectivas que, esta época, turvam o jogo de FC Porto e Sporting. Faltam, agora, os quadradinhos seguintes desta história. Ou seja, a crescente influência na equipa. No caso leonino, Liga e Taça perdidas, trata-se, sobretudo, de uma fuga ao abismo, onde os impulsos individuais, em momentos concretos do jogo, mascarem problemas colectivos. No caso azul-e-branco existe um atraente desafio: conciliar o novo maestro com Beluschi. Em 4x3x3, só com três médios puros, apostar em que dois deles sejam estruturalmente mais criativos, seria o maior upgrade táctico-criativo da era Jesualdo no Dragão. A luta pelo título continua com três equipas bem vivas. Para combater o ascendente do jogo científico do Braga e do jogo vertiginoso do Benfica, o FC Porto busca um plano alternativo. Três estilos para marcar o campeonato até ao fim.