Zenit e Dinamo Kiev são símbolos do futebol russo e ucraniano. A sua eliminação da Champions faz pensar um pouco no momento do futebol de leste, herdeiro da velha URSS. Vendo os seus jogos (contra Auxerre e Ajax, respectivamente) nota-se, sobretudo, uma indefinição de estilo de jogo.
O Zenit é uma equipa que parece jogar aos esticões. Isto é, tem excelentes jogadores, mas não consegue estabilizar o seu jogo em termos de construção. Procura meter sempre muita velocidade nas transições e no último passe, perto da área, falta, por isso, quase sempre, precisão. Em 4x3x3, os médios interiores (Shirokov-Zyrianov) em vez de fazerem circular a bola, tentam sempre meter logo a bola nas alas, onde, a cada jogada, surge sempre, no mesmo espaço, um jogador diferente. Ou seja, abusa das trocas posicionais e perde o jogo posicional que lhe permita uma construção mais apoiada. Por exemplo, no ataque, Kherzakov move-se no meio, mas Danny, que começa na esquerda, passa o jogar a fazer diagonais em velocidade a procurar o centro, enquanto Bystrov, extremo puro, alterna constantemente entre esquerda e direita. É estranho todo este estilo numa equipa treinada por um italiano, Spaletti, devoto de um futebol mais táctico e de contenção.
O Dinamo de Kiev sabe ter a bola mas tem dificuldade em caminhar com ela para a baliza. Prende muito o jogo entre-linhas à medida que se aproxima da área adversária. O seu 4x2x3x1 mantém sempre o duplo-pivot atrás (Eremenko-Vukojevic), tem grande profundidade nas faixas com Gusev, à direita, e Yarolenko, à esquerda, mas perde lucidez no centro da segunda linha do meio-campo. Na primeira mão, jogou Garmash, repentista mas sem vocação organizativa. Na segunda, surgiu Milevski, um talento a executar e a entrar nos espaços vazios, mas que é mais avançado e coloca a equipa a jogar em 4x4x2, ao lado do eterno ponta-de-lança Schevchenko, hoje uma sombra do craque goleador que foi.
Gazzaev, velho símbolo do CSKA, renunciou aos seus sistemas preferências de três defesas, mas nunca conseguiu dar intensidade alta de jogo a um onze que vive apenas das explosões dos alas. Uma eliminação que causou uma sensação ainda mais estranha quando decidiu meter em campo, só nos últimos cinco minutos, dois brasileiros que tinha no banco: Guilherme e André, um dos meninos da vila ex-Santos. Nenhum deles, porém, tem prática em milagres.
Perdeu em Amesterdão (2-1) onde, cinco épocas depois, o Ajax regressa à elite da Champions. O onze tem traços interessantes, mas há muito tempo que não via uma equipa depender tanto de um jogador para resolver (ganhar) jogos: Luis Suarez, um fenómeno uruguaio que continua escondido na Holanda…
O FC Sheriff da Moldávia
Podia ter sido a entrada mais exótica na Champions, mas no play-off, o FC Sheriff Tiraspol da Moldávia caiu perante a maior experiência do Basileia (0-3). Nascido numa encruzilhada da história, tal como Tiraspol (capital da Transmístria que quer tornar-se independente da própria Moldávia) o seu onze é uma babilónia saído de um plantel com 12 nacionalidades diferentes!
Alterna entre o 4x3x3 e o 4x4x2, quando sobe um médio-centro ofensivo, Erokhin, um nº10 russo de 20 anos, alto e elegante. Na ligação entre o meio-campo e o ataque, é, porém, a nota africana que emerge no onze, com dois jogadores do Burkina: Roumba, um box-to-box, interior esquerdo que come metros com a bola, e o avançado-centro Balima, que recua muitas vezes para pegar na bola. Nas alas, interessante o ala direito do senegalês Diedhiou, fecha no meio a defender e abre em posse para dar largura à equipa a atacar. Tem apenas 20 anos. Na esquerda, o servo Volkov vem buscar a bola atrás e faz todo o corredor. Os brasileiros Fred e Jimmy, ambos fortes, dão mais imaginação a meio-campo e ataque, mas a equipa, embora com boa organização defensiva, perde muitas vezes o equilíbrio táctico quando a bola foge ao seu controlo. Em síntese, para o observatório das estrelas, dois nomes para anotar e ver outra vez: Erokin e Diedhiou. São os melhores ventos futebolísticos que chegam da Moldávia.