A invasão do melhor futebol

29 de Junho de 2010 18:58
Argentina-Alemanha, os “bombardeiros” do golo e os laterais ofensivos
Choque de Mundos
 
O bom futebol pode ter as mais variadas expressões. Essas diferentes formas de falar em campo estão sobretudo relacionadas com o jeito técnico de tratar a bola na relação com os espaços. Mais velocidade ou arte. Mais improviso ou criatividade. Argentina e Alemanha, vivem, nesse plano, em galáxias completamente diferentes. A imaginação mecanizada dos alemães contra a rebeldia com causa dos argentinos. Principais protagonistas: Ozil, Muller e Klose, no lado germânico. Messi, Tevez e Higuaín, no lado gaúcho. Depois, claro, surge a táctica. A Alemanha é, nesse campo, uma equipa mais “completa”. Joga de botas cardadas” e ataca e defende com a mesma intensidade. É um bloco de aço. A Argentina joga por instinto, ataca com a imaginação mas defensivamente nem sempre mantém tanto rigor, embora Maradona tenha colocado, nos últimos jogos, uma defesa de…quatro “centrais” (os laterais, Otamendi e Heinze têm rotinas de central). É um bloco de instinto.
Neste choque mundos futebolísticos, é difícil dizer qual o factor mais importante. Nunca acreditei em equipas ofensivas ou defensivas, por natureza. Acredito em equipas equilibradas. O chamado “futebol táctico de harmónio” que se estende ou encolhe conforme a pose (ataque) e a perda (defesa) da bola. A Alemanha, nesse sentido, é a equipa que, mantendo o controlo das diferentes velocidades do jogo, tem uma visão mais consistente de todos os seus momentos. Na Argentina, acho que lhe falta mais um médio. Jogar com Veron mais vezes perto de Mascherano e, assim, defender bem para…atacar melhor.
 
 
 
“Bombardeiro” do golo
 
Mesmo num futebol cada vez mais “fechado”, onde as melhores equipas (ou com mais possibilidades de ganhar) são aquelas que têm melhor organização defensiva, os grandes avançados continuam a ser os donos dos melhores momentos do jogo. Este Mundial tem revelado um must de caçadores de golos (já detectados antes no radar de craques) que ficarão na história do melhor futebol.
Klose não para de fazer golos na Alemanha. Tem uma velocidade de desmarcação impressionante, não é muito possante, mas possui um instinto mortífero capaz de perceber onde vai cair a bola. Luís Fabiano não parece, à primeira vista, um super-avançado, mas é o tipo de jogador que à medida que a bola se aproxima dele e, depois, descobre sempre o espaço e timing certo para o remate. Higuaín parecerá pouco estético na corrida, mas tem uma amplitude de movimentos de tal forma intencional que mesmo quando cai mais na faixa, vê-se que continua a pensar na baliza e no golo. Por isso, pouco depois aparece mesmo a concretizar. Ao lado de Tevez, é uma dupla terrível. Por entre este mundo de remates e golos, porém, aquele que hoje mais me cativa é o “bombardeiro” espanhol Villa. Cada bola que lhe aparece à frente até parece meio assustado com a iminência do potente pontapé que vão levar a qualquer instante. A facilidade de remate de Villa, após ganhar num ápice o espaço mais curto para o fazer, é impressionante. Baixote mas robusto, prova que no futebol, a força atlética estão cruzamento técnica/musculo. Para jogar como para rematar. Um gigante espanhol do golo.
 
 
 
O lateral ofensivo  
 
É um dos factores que, no futebol actual, melhor define as equipas: o triunfo dos laterais ofensivos. Uma marca que surge nos melhores “onzes” deste Mundial. Portugal é um bom exemplo e, por isso, uma das suas grandes revelações para o mundo foi o seu lateral-esquerdo: Fabio Coentrão. É, indiscutivelmente, a maior (e melhor) invenção futebolística da época. Com a agressividade táctica (forma como entra nas bolas divididas ou nem a antecipação, com intensidade em cada jogada) afinou a sua leitura de posicionamento defensivo e, inteligente, passou a decidir o timing certo para subir ao ataque e entra nos seus terrenos de origem, resgatando assim o seu perfil de ala/extremo.
Olhando a mesma posição, noutras equipas, eis outro nome que seduz: Michel bastos, no Brasil. Fez um percurso idêntico, desde ala para lateral, mas este, em tempo mais curto, apenas na selecção (no clube, Lyon, joga a ala, enquanto Coentrão, no Benfica, é lateral). Bastos foi o sétimo lateral-esquerdo que Dunga experimentou. Com ele, encontrou um craque, mesmo que, do outro lado esteja outro lateral ofensivo, em forma de “locomotiva”, Maicon uma força da natureza que coloca a meio-campo o outro lateral-direito, Daniel Alves) .
 
Na Alemanha, ironia morfológica da história, está o lateral ofensivo mais baixinho do mundial: o eléctrico Lahm. 90 minutos em alta voltagem. Todos estes nomes, Coentrão, Michel Bastos, Maicon, Lahm são apenas defesas no papel. Em campo, eles têm duas balizas na mente e tanto dizem à bola para sair de perto de uma delas como logo a seguir estão a leva-la, com segurança, até à outra.

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