A “lâmpada de Aladino” com bola

11 de Fevereiro de 2011 13:04
Portugal-Argentina, Messi-Ronaldo, qual a forma do maior génio do actual futebol mundial? 90 minutos, qual o coração que bateu mais forte?

 

Na lenda, tudo acontece numa caverna misteriosa, impenetrável a outros olhares. No futebol, tudo se passa num relvado à vista de milhões de pessoas. Quando, no território da lenda, Aladino fica preso na caverna no qual entrara aliciado por um mago, acaba por se deparar sozinho com uma lâmpada. Ao esfregá-la acidentalmente assusta-se quando dela sai um génio que a habitava. Reconhecido, concede-lhe três desejos. Quando no relvado da realidade futebolística, Messi e Cristiano Ronaldo se encontram, frente a frente, todos anseiam por saber quem será o génio a emergir de dentro da lâmpada invisível que paira sobre o Estádio. A posse de bola é como o momento em que Aladino acidentalmente a esfrega.
Na lenda, o génio tem uma forma corpulenta, é grande e forte, até começa por assustar. Se existisse uma versão futebolística da lenda de Aladino que forma, com calções e chuteiras, teria o génio saído da sua lâmpada? Reencarnação de Adónis exaltação veloz da potência atlética com bola? Ou, ironia de pulga com imaginação em forma de craque a serpentear sem parar por entre montes de adversários? Cristiano Ronaldo e Messi. Mundos diferentes. Ambos, porém, cabem dentro da lâmpada onde vive o génio do actual futebol mundial.   
 
O Portugal-Argentina, num historicamente neutral relvado suíço, foi anunciado quase como um confronto de génios. A realidade dos 90 minutos confirmou a sua importância em levar o futebol para a sua dimensão mais estratosférica, mas uma equipa vive muito para além desses momentos geniais. Nessas casas tácticas semelhantes, Messi e Ronaldo ocuparam de origem posições diferentes. Ronaldo sobre o flanco esquerdo do ataque com liberdade de ir para zonas centrais. Messi no centro, como “nº9 mentiroso”, mas com liberdade de ir para zonas laterais e arrancar desde aí. Foi assim que atravessou o relvado em largura até descobrir o buraco da fechadura cirúrgico para meter a bola para o orelhudo voador da Luz, Di María, a tocar subtilmente para as redes portuguesas. Pouco depois, emergiu Ronaldo no coração da área argentina, quase parecendo escavar um túnel nas costas dos defesas, para numa sub-cave por baixo do guarda-redes gaúcho, disparar a bola para a baliza argentina. No resto, são génios com linguagem corporal muto diferente. Os dialectos com a equipa também. Messi joga mais com e para a equipa, Ronaldo joga mais acima dela e arrastando-a consigo em cada jogada. Mas, quando Messi receava e chegava ao meio-campo tinha uma sensação de vazio. Nele não estavam os amigos de outras paragens, Xavi e Iniesta. Os médios argentinos são mais de pressão e menos toque. Quando Ronaldo procurava meter a bola noutras zonas, ela parecia entrar noutra…equipa, quase sempre com receio de perder posições. As duas equipas viveram dos seus trios atacantes (Lavezzi-Messi-Di María contra Nani-Hugo Almeida-Ronaldo) e esvaziaram-se através do seu trio de médios, onde faltou um criativo em ambos os lados.
 
Por fim, o penálti de Coentrão. Nessa altura, Ronaldo já partira da caverna do relvado há meia-hora. Com toda a calma do mundo, Messi pegou na bola. O seu grande plano na hora de preparar e partir para o remate é sublime. Nem por um segundo levanta o olhar para dar indicações para onde iria chutar. Quando o faz, docilmente, fá-lo como se nem existisse guarda-redes na baliza. Golo.
Ambos falaram no final que o mais importante era a equipa, mas durante um jogo dei por mim a pensar como seria engraçado colocar um medidor de batimentos cardíacos nos dois para saber qual dos corações iria bater mais quando um deles pegasse na bola. Seria o de Ronaldo quando visse Messi com a bola, ou seria Messi quando detectasse Ronaldo a arrancar com ela? Eu tenho uma impressão forte da resposta mais certa. Fica aqui um espaço, porém, para o leitor a preencher com a sua…    
 
 
 
 
 
A tripla troca
 
Paulo Bento montou a selecção no habitual 4x3x3 lusitano, mas sem ninguém capaz de empunhar a batuta da organização a meio-campo. Batista, velho duro defesa quando jogador, hoje treinador gaúcho com voz de tango, montou um sistema semelhante mas com expressão diferente. Ao passar do minuto 60 o jogo transformou-se. Por imperativos de gestão física (e manter boas relações com os clubes gigantes onde jogam) Bento trocou o trio atacante. Saíram Nani-Hugo Almeida-Ronaldo, entram Dany-Postiga-Quaresma. A equipa, na sequência do seu melhor período no jogo (primeiros 15 minutos da segunda parte) sentiu o abalo onde estava a ser mais forte e nunca mais se reergueu tacticamente. Mantendo a pressão a meio-campo, os argentinos passaram a mandar na bola e, mexendo de forma mais cuidadosa no onze, mantiveram o equilíbrio e capacidade de atacar.
Dirão que num jogo “a sério” tal não acontecia. Sem dúvida, mas esta “tripla alteração” simultânea explica bem como, num jogo, quando se mexe numa posição, mexe-se para além da sua dinâmica individual, na relação que se estabelece entra ela e as que lhe são mais próximas. Neste caso, mudaram todas estas coordenadas.

 

 

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