Não há drama nenhum das grandes equipas dependerem dos grandes jogadores, mas quanto maior for menos isso faz sentido de forma tão evidente. É uma questão de qualidade colectiva. O palco da Champions é um bom sitio para perceber essa espécie de terceira dimensão do craque na eficácia do sistema táctico. Gerrard e o Liverpool. Eis um bom exemplo para este tema, vendo como a equipa oscila tanto em função da sua presença. A forma como jogou frente ao Marselha disse como ele, por si só, faz nascer… outra equipa. Um contraste evidente porque no jogo anterior, com o Fulham, não jogou e o tudo foi diferente. E empatou. Ontem, ressurgiu. E ganhou.
No 4x2x3x1 de Benitez, entra como médio subido à frente do duplo-pivot recuado. Não controla, portanto, a saída de bola, momento decisivo para dar personalidade à equipas. Por isso, sendo Mascherano um recuperador, o jogador chave para o bom jogo colectivo do Liverpool até nem é Gerrard, mas sim Xabi Alonso. Porque é o único com qualidade de passe nesse sector. O problema é que enquanto Gerrard muda o jogo sempre que pega na bola, Xabi tem jogos onde não aparece tanto. É então que se percebe como as equipas, sobretudo quando em depressão, dependem tanto desse craque da terceira dimensão. Só quando evitam isso é que podem dizer “a equipa é mais importante que o jogador”. No actual Liverpool não. Há jogadores que continuam a ser muito mais importantes do que a equipa.
Fala-se destes jogadores, da influência que têm e, no fundo, fala-se da qualidade de ler o jogo e passar a bola. Jogar bem resume-se a estes dois simples conceitos. Vejo o Bordeaux fazer um jogo tacticamente perfeito frente ao Chelsea e penso nisso. Blanc pensou a estratégia e abdicou do seu 4x4x2 losango para jogar num 4x2x3x1 (estilo 4x5x1), com os alas recuados, um extremo móvel (Chamakh) adaptado a ponta-de-lança e atrás dele um enganche que arrepia de cada vez que toca na bola pela classe com que o faz: Gourcuff. Tem pormenores com perfume de Zidane (o rodar sobre a bola, fintando, ganhando espaço e rematando) e outros já só dele, como o arranque e travagem em espaços curtos, seguidos de um passe a rasgar
Mas se o plano de jogo funciona pelo passe, também pode cair pela ineficácia dele. E assim Bordeaux ficou sem respiração quando viu o seu lateral esquerdo, Jurietti, puxar a bola para dentro e fazer um passe vertical de risco com o pé que não domina, o direito. Saiu mal, claro, Lampard interceptou a bola, meteu-a logo em Anelka (lá está outra vez a diferença do passe bem feito) e golo.
Entre a classe e o heroísmo, a impressão é que basta um passe bem feito para uma equipa toda dar um salto qualitativo para outra dimensão. O contrário, também.