A Holanda representa sempre, em cada Mundial ou Europeu, uma espécie de porta secreta para o bom futebol, mesmo naqueles torneios em que a tendência de jogo dominante é tão fechada e conservadora como o actual. Será, porém, este onze laranja de Van Marwick, dona dessa mesma chave para outra dimensão táctico-qualitaiva do jogo? Sim e não. A resposta positiva está, desde logo, relacionada com a filosofia de jogo dominante quando em posse de bola no meio-campo ofensivo. Nesses momentos a equipa alarga-se a toda largura do terreno, tem jogadores quase encostados às duas linhas e começa a variar de flanco com uma facilidade impressionante até, num instante, encontrar espaço de penetração na defesa adversária, através da mobilidade criativa dos seus três avançados (Kuyt-Van Persie-Robben) e do médio 10 organizador/criativo (Sneijder). Onde esta Holanda foge ao estilo tradicional é no posicionamento e expressão técnica defensiva quando a bola está nos pés dos seus jogadores mais recuados. Penso, desde logo, no quarteto defensivo, tecnicamente menos dotado (sobretudo os centrais Heitinga e Mathijsen) em comparação com gerações de centrais laranjas anteriores. Custa-lhes a sair com a bola em posse e cada laterilazação que fazem parece um passe de risco.
Depois, o dupolo-pivot é demasiado posicional. Isto prova, afinal, que não é posição que é, por natureza, defensiva. Antes o(s) jogador(es) que a interpreta(m). De Jong e Van Bommel, jogadores lentos, têm dificuldades técnicas em sair com a bola dominada. Optam quase sempre por um passe longo ou meio-longo, metendo na ala (sobe o lateral ou baixa um pouco o ala para receber) ou entregam mais curto, na vertical, ao médio de segunda linha. Esta linha caracterizante da organização defensiva (seu protagonistas) holandesa pode, de facto, torná-la mais cinzenta no plano exibicional, mas, no plano da frieza futebolística, talvez a mais candidata. Isto porque raramente se desequilibra a defender (não se expõe tanto em termos de espaços nas costas) e a atacar continua a ter um jogo posicional (existem sempre linhas de passe) tão forte que alguns jogadores parecem ter uma corda invisível a ligá-los entre si.
A transição espanhola
O debate duplo pivot-pivot único também encontra hoje espaço em torno da selecção espanhola. Na fórmula campeã da Europa em 2008, Senna era, claramente, o pivot de um 4x1x4x1 apoiado e com profundidade. Del Bosque, em relação a Aragonês mudou o sistema, mas manteve a filosofia (modelo de jogo). Surgiram dois pivots. Um fixo, Busquets e outro mais subido, iniciando a transição, Xabi Alonso, usando a sua precisão de passe. O único aspecto que teve de lapidar foi o de conter a sua tentação preferencial para o passe longo. Xabi Alonso na selecção joga mais curto. Curiosamente, o passe mais longo que se vê no jogar da selecção espanhola é interpretado, cirurgicamente, por um defesa-central, Piquè, na saída desde trás, em geral com uma bola longa em diagonal da meia-direita para a ala esquerda.
A outra opção, é ver Xavi recuar no terreno e pegar na boa. É quando a transição é feita em posse individual até meio do meio-campo adversário, altura em que começa a circular. São três formas de sair a jogar, mas todas elas subjacentes à mesma filosofia de jogo. Como gestor de todas elas, Xavi. Se está por perto, mais nenhuma existe. Dá a sensação de ter um íman nas chuteiras tal a forma como a bola vai sempre ter com ele e logo lhe fica colada.