O futebol português mudou muito. Clubes outrora grandes referências caíram no abismo ou agonizam em divisões secundárias. Esta semana, o Vitória fez 100 anos. É um tempo cada vez mais remoto, mas sempre que revejo o Bonfim e ouço o nome do Vitória, vem-me logo à cabeça o primeiro jogador que, ainda miúdo, despertou o meu imaginário futebolístico: Jacinto João, o Jota-Jota e seus dribles-macumba. É uma sensação boa. Faz-nos regressar às raízes da emoção futebolística, quando tudo era tão mais bonito. Senti uma coisa parecida ao ler a reportagem de A Bola com o Presidente Fernando Oliveira. Entrar numa sede (velho palacete) em escombros e num monte de papéis encontrar o contrato com o Meszaros é quase surrealista. Essa imagem diz tudo. Para muitos destes clubes (desde o histórico Belenenses até referências de outras eras, como Atlético ou Lusitano Évora) parece que o tempo parou. Um mundo de fantasmas.
A origem do problema está em não entender que a passagem do tempo, no futebol como na vida, muda as…perguntas. E, por isso, pede, aos homens de cada época, que sejam capazes de dar respostas…diferentes. O país de hoje não tem nada a ver com o dos anos 70 (para não ir mais longe). Mudou muito. A sociedade, o tecido empresarial, os hábitos, as gentes, tudo. Por isso, o entorno (social e financeiro) que rodeia os clubes de futebol também mudou. Poucos entendem isso.
Leio muitas reflexões sobre a crise do Belenenses e fico perplexo com a forma pacífica como se aceita a fatalidade azul em relação ao seu futebol profissional. Neste caso, a sensação não nasce por razões históricas. Nasce do facto do clube que agora vive essa grave crise financeira ser o mesmo que há apenas três épocas gastava cerca de 7 milhões de euros e jogava a Taça UEFA. Repare-se: não estou a comparar os anos 60 com o Sec.XXI. Estou a comparar 2007 com 2010! Como é possível? Só com uma gestão dantesca na irresponsabilidade (incompreensão dos tempos). É impensável entender hoje a grandeza do Belenenses a partir de Matateu e dos anos 50. Isso, porém, não implica que o seu futebol deva fechar. Tem é de perceber a nova realidade social/desportiva/financeira que o rodeia. E reinventar-se.
O Vitória, neste contexto, será o clube que melhor luta contra o destino. A crise do Beira-Mar, por exemplo, nasce muito das forças-vivas de Aveiro não perceberem a cidade e região. Neste ponto, é impossível dissociar o caso aveirense de uma frase de Fernando Oliveira quando diz que “sair do Bonfim seria dramático. Retirar o clube da cidade é fatal”.
No fundo, os clubes tem de se reinventar mas sem nunca perder de vista a sua identidade. Da mesma forma que hoje somos diferentes do que há 20 ou 30 anos. A idade, as circunstâncias, os tempos, mudam-nos. Um clube de futebol é também como um ser vivo, Tempos diferentes, formas de vida diferentes. Os maiores são aqueles que têm essa noção e, na passagem dos anos, conseguem reinventar-se, dando as tais respostas diferentes. É isso que falta a estes históricos.
“Casas assombradas”
Todas as semanas procuro os resultados dos tais clubes históricos hoje afundados em divisões secundárias. Uma viagem que é uma reflexão social pelas profundezas do futebol português perdido. Todos esses clubes, no fundo, não resistiram à mutação social e financeira do país. No futebol, mudaram sobretudo as fontes de financiamento. É toda uma nova idiossincrasia. Fico estático a ler os nomes do U.Tomar, Ac.Viseu, e, entre outros, os emblemas de Évora, sobretudo o lendário Lusitano (na Distrital). Estive lá há pouco tempo e, numa tarde, fiquei a olhar para o seu velho Estádio, deserto. Pensei então: será possível algum dia todo este cenário inverter-se e estas cidades/regiões voltarem a ter grande futebol? A resposta estaria na tal capacidade de reinvenção. Mas já se perdeu demasiado tempo. Os esqueletos (passivos gigantescos) acumulam-se. A identidade turvou-se. Desapareceram as pessoas do passado. Os novos não entendem este cruzar dos tempos. Mas o clube continua lá.
O país do futebol interior transformou-se numa autêntica casa assombrada.