Há quem diga que o principal aspecto que destingue os homens das crianças é o preço dos seus brinquedos, mas, mesmo assim, há casos que ultrapassam o nosso imaginário. É o caso de Khaled Hamed al-Thani, Emir do Qatar desde que aproveitando uma visita de seu pai, Khalifa Hamed bin al-Thani, á Europa, em 1995, resolveu realizar um golpe de estado que o derrubou do poder impedindo-o de voltar a entrar no país. Conhecido por ser um grande amante dos prazeres da vida, dono de vários iates de luxo, cavalos de corrida e palácios sumptuosos, onde moram as suas 200 mulheres, decidiu, este ano, inventar um novo divertimento: um grande campeonato de futebol para o seu Emirato. Para tal, fazendo uso de ser um dos homens mais ricos de planeta, partiu mundo em busca de grandes jogadores para, depois, quase como um miúdo num jogo de computador, distribuir pelos dez clubes da sua capital Doha. Quase todos perto de pendurar as chuteiras, muitos velhos craques convidados viram subitamente nesse paraíso árabe, o habitat perfeito para um milionário e tranquilo final de carreira: Batistuta, Hierro, Guardiola, Effenberg, Lebouef, entre outros, todos irresistivelmente seduzidos pelo novo El Dorado do futebol mundial, um cemitério de elefantes só comparável, nos anos 70, aos EUA, para onde rumaram então velhas estrelas como Péle, Eusébio, Muller, Beckenbauer, Cruyff, Best, Cubillas, Muller, etc, e, nos anos 90, ao Japão, refúgio então de craques veteranos como Zico, Careca, Lineker, Littbarski, entre muitos outros, enquanto que as velhas figuras espanholas, como Butragueño e Michel, terminavam as carreiras, noutra meca milionária, embora de menor dimensão, mas feita á imagem dos seus estilos hispânicos, como foi o futebol mexicano de final dos anos 90.
Pelé, Beckenbauer e o epitáfio de Platini

Nem todas as estrelas sentem, porém, este irresistível desejo de desafiar o tempo. Em 1987, o mago gaulês Michel Platini resolveu retirar-se porque, disse, já não se sentia com força para voltar a lutar por ser o número um, o único lugar que, face ao nível atingido, fazia sentido estar em condições de chegar. Por isso, escreveu no seu livro A minha vida como um jogo, que “Morri no dia 17 de Maio de 1987, com 32 anos..., dia em que me retirei do futebol!”. O seu caso é, porém, único, sendo só comparável com outro ícone francês, Cantona, que, em 1997, disse abandonar por já não se sentir feliz dentro de um relvado de futebol, no facto de também ele se ter retirado com apenas 31 anos. Platini porém esteve sempre entre a elite. Cantona foi um enfant terrible que alternou o inferno com o paraíso. Pelé fez centenas de festas de despedida, mas o seu verdadeiro último jogo foi em Outubro de 1974, em Vila Belmiro, pelo seu Santos, contra o Ponte Preta. Pelé já havia decidido: “Vou parar. Preciso parar antes que me comecem a criticar...”. A meio do jogo, agarrou a bola com as mãos, entregou-a ao árbitro, ajoelhou-se na relva e abriu os braços em cruz. Tinha 34 anos. A seguir o Rei ainda foi jogar para os EUA, até 1977, altura em que virou uma máquina de fazer dinheiro. Semelhante sorte e astúcia, justificando a aura de Kaiser, também teve Beckenbauer, que terminou, em 1982, sagrando-se campeão alemão, com 36 anos, pelo Hamburgo, onde jogou duas épocas após regressar da milionária passagem pelo Cosmos de Nova Yorke.
De Matthews a Mathaus: os imortais

Mas qual é, afinal, o segredo da longevidade? Antigamente, os heróis duravam até muito tarde e resistiam tempos infinitos. Na memória de todos estará, eternamente, o mítico Stanley Matthews, o Feiticeiro do Drible, que, após ter sido o primeiro jogador, em 1956, a ganhar a primeira Bola de Ouro de melhor jogador europeu do ano, tinha então já 41 anos, só pendurou as chuteiras quando corria o ano de 1963 e ainda jogava no clube da sua vida, o Stoke. Tinha completado 50 anos há apenas cinco dias! Nenhum outro ser futebolístico adquiriu semelhante aura de imortalidade. Semelhante, no chamado futebol moderno, salvo as devidas proporções (tirando o caso de Zoff, campeão do mundo em 1982 com 41 anos, mas que por ser guarda redes, sujeito a menor desgaste físico durante a carreira, merece análise especial), só o alemão Lotthar Mathaus, que resistiu até perto dos 39 anos como titular do Bayern Munique e da selecção germânica, para depois se retirar, findo o Euro-2000, após uma curta passagem pelo futebol americano, no Metros Stars.
Estrelas que atravessaram o tempo

Platini, Pelé e Beckenbauer. Três sábios exemplos que não encontram paralelo, no entanto, em muitas outras estrelas. Aquelas que, apesar dessa derradeira oportunidade dourada, não resistiram e procuraram, penosamente, o último fôlego nos palcos onde antes foram grandes ídolos. Ao longo dos tempos, sucederam-se os casos de grandes jogadores que não souberam, ou tiveram a coragem, para encarar com naturalidade e sabedoria a hora da retirada, e realizá-la no momento certo, sem se arrastarem, quando a promessa de um El Dourado não existia, em derradeiras e intrigantes épocas, por relvados, ou pelados, de clubes de segundo plano. A história regista vários casos, a começar pelo grande Di Stefano que, em 1967, com 36 anos, após a derrota na final da Taça dos Campeões Europeus, frente ao Inter, recusou a sentença do treinador Miguel Munõz, seu colega de equipa nos idos anos 50, e mesmo face ao avançar da idade negou-se a pendurar as botas, ingressando no Espanhol de Barcelona, onde alinharia, recuando a sua posição em campo, por duas épocas, nas quais, apesar do esforço da Saeta Rúbia, se provou, como quase sempre acontece, que o treinador tinha razão e era utópico querer reproduzir, com 3x anos, a mesma velocidade e categoria exibida anos atrás. Em Inglatera, Bobby Charlton terminou a carreira no seu Manchester United em Abril de 1973. Tinha 36 anos e o seu jogo de homenagem, contra o Celtic, atraiu mais de 60 mil pessoas a Old Trafford. Um mês depois, porém, tornava-se jogador-treinador do vizinho Preston, da II Divisão, onde ao principio ingressara apenas como manager, fazendo 38 jogos na época de 74/75, mas incapaz de virar jogos sozinhos como nos seus velhos tempos, o clube desceu á III Divisão e Charlton demitiu-se do cargo. Depois, ainda passaria fugazmente pelo Waterford na Republica da Irlanda, em 1976, até que se tornou director do Wigan Athltic e, por fim, com 37 anos, pendurou as chuteiras.
Rummenigue, Blokhine, Best...

Entre outros casos de grandes estrelas com sombrios finais de carreira em clubes de segundo plano, pode-se citar, também, Rummenigue, que após ter sido um símbolo do Bayer Munique, realizou as suas duas últimas época, 88/89, no modesto futebol suíço, no Servette, onde se retiraria com 3x anos; Kevin Keegan, após brilhar no Liverpool e no Hamburgo, quando regressou á Velha Albion, foi jogar para o Southampton e terminou a carreira, em 1984, com a camisola do Newcastle, então na II Divisão. Blokhine, símbolo do Dinamo Kiev e do outrora temível futebol soviético, acabou, em 88, no Chipre, jogando no anónimo Aris Limassol, um ano depois de ter ainda passado, na Áustria, pelo Vorwarts Steyer. Tinha 37 anos. Kempes, goleador argentino no Mundial-78, tornou-se nos últimos anos de carreira, quase num trotamundos por pequenos clubes, passando, entre outros, por exóticos emblemas como o Fernando Vial, do Chile e o Pellita Jaya, da Indonésia, onde terminou a carreira, como jogador treinador, aos 42 anos, em 1996. Como casos especiais, pelo facto de as suas carreiras terem sido condicionadas por tumultos extra-futebol, alcoólicos confessos, recorde-se Best e Garrincha, na Inglaterra e no Brasil. Ambos terminaram a carreira arrastando-se por pequenos clubes quase desconhecidos, que viram nas suas imagens a oportunidade de conseguirem belas receitas. Best fez o último jogo pelo Manchester United em 1974. Tinha apenas 27 anos. Depois de cinco anos nos EUA, entre 76 e 81, vagueou por pequenos clubes britânicos como Cork Celtic, Jewish Guild, Stockport, Hibernian e, por fim, Bournemouth, onde acabou, em 1983. Em tempos mais remotos, Garrincha, símbolo do Botafogo e da selecção brasileira entre os anos 50 e 60, percorre, após o seu último jogo como profissional, em 1972, pelo Olaria, um penoso final de careira, com o joelho inchado como uma bola, passando, quase como uma atracção circense, por clubes anónimos como até aos amadores do Tor Vajanica, de Itália. Morreu em 1972, com apenas 50 anos.
A revolta de Cruyff e os ensinamentos de Hugo Sanchez

Em tempos mais recentes, na época de 80/81, foi possível ver Cruyff, regressar a Barcelona após dois anos nos EUA, no Los Angeles Aztecas, mas para jogar no Levante, da II Divisão, onde, talvez pouco motivado pela pobreza das canchas, apenas fez oito jogos. Passaria depois de novo pelos EUA, até que, regressado á Holanda, o Ajax recebeu-o de braços abertos. Com o De Mer quase sempre cheio, Cruyff correspondeu. Ganhou o Campeonato, a Taça, e foi eleito jogador do ano. Na época seguinte, porém, quando pediu uma melhoria no contrato, o Ajax disse não ser possível Revoltado, Cruyff sentiu-se magoado e assinou pelo grande rival: o Feyenoord, que já não era campeão há nove anos. Assim, em 83/84, o mago holandês jogou em Roterdão e, claro, ganhou tudo. Campeonato, Taça e, mais uma vez, foi eleito o jogador do ano. No final da época, com o ego do tamanho do mundo, abandonou Roterdão e encerrou a carreira mais de acordo como o seu do prestígio. Como conservar, então, a classe e o nível futebolístico quando a idade avança e as pernas começam a pesar? Hugo Sanchez, o acrobático ponta de lança mexicano que brilhou no Real Madrid, entre 1985 e 1992, até aos 34 anos, sempre com semelhante nível exibicional e goleador dizia que o segredo estava no facto de um jogador, á medida que vai adquirindo ao, longos dos anos, certa perfeição nos movimentos e uma percepção certa entre o que quer fazer e as capacidades do seu organismo á altura, vê-se, com o decorrer do tempo, beneficiado para executar certos gestos com cada vez maior naturalidade e capacitado para faze-los com um maior grau de dificuldade. É, salvo as devidas proporções, um pouco como na ginástica olímpica onde há certos exercícios que, dada a sua dificuldade, conquistam maior pontuação. No entanto, apesar dessa sabia teoria, também ele quis prolongar o seu tempo para além dos limites físicos e um ano depois de sair do Real Madrid rumo ao seu México, decidiu, nostálgico, regressar a Espanha com o expresso desejo de se tornar no melhor marcador de todos os tempos no futebol espanhol. Como os merengues recusaram o seu retorno, jogou, durante uma época, como uma sombra errante, no Rayo Vallecano. Não conseguiu bater o record e, finda a temporada, voltou á pátria dos sombreros, acabando depois por jogar, em 95/96, com 37 anos, no anónimo Linz da Áustria, mas sempre totalmente irreconhecível.
Eusébio no União de Tomar...

Todos estes grandes jogadores, de Di Stefano a Charlton, de Cruyff a Hugo Sanchez, cada qual com as suas circunstâncias, tiveram dificuldade em lidar com o final da carreira e acabaram por passar, perturbantemente, por palcos menos brilhantes. Um destino a que não escapou, em Portugal, o grande Eusébio que após jogar nos EUA e no México, quis regressar para acabar a carreira no Benfica. A direcção encarnada de então, no entanto, não lhe reconheceu o mesmo génio de antes. Amargurado, a pantera negra acabou jogando pelo Beira Mar, com o qual, conta-se, se recusou, nos últimos minutos de um jogo (estava o marcador empatado a dois golos), a marcar um livre, sua grande especialidade, por não ser capaz de o fazer contra o seu Benfica, e, finalmente, aos 35 anos, junto com Simões, em 77/78 pelo União de Tomar, o seu último clube como futebolista. Anos passados, é estranho recordar, nos registos ou nas reminiscências da memória, estes velhos tempos vividos por grandes figuras do futebol mundial. Hoje, quase todos evitam falar desses últimos anos passados longe da elite, quando, claramente, o coração foi mais forte do que a razão. Afinal, talvez só a prova de que apesar de endeusados pelos fiéis da bola eles nunca passaram de meros seres terrenos, pelo que, no final, todos eles deveriam fazer como Di Stefano, que após se retirar colocou uma bola no jardim de sua casa com um singela placa onde se lê: Gracias, Vieja!
Alfredo Di Stefano
Data de nascimento: 4/06/1926 Carreira profissional: de 194 a 1966 De 1943 a 1945: River Plate; 1946: Huracan; 1947 a 1949: River Plate; 1950 a 1952: Milionários (Colômbia); 1953 a 1964: Real Madrid. 1964/65 Espanhol 1965/66 Espanhol
Bobby Charlton
Data de nascimento: 11/10/1937 Carreira profissional: de 1956 a 1974 De 1956 a 1973: Manchester United 1973/74 Preston North End (II Divisão) 1974/75 Preston North End (Treinador-jogador) 1975 Waterford (Republica da Irlanda)
Karl-Heinz Rummenigge
Data de nascimento: 25/9/55 Carreira profissional: de 1974 a 1989 De 1974 a 1984: Bayern Munique; 1984 a 1987: Inter. 1987/88 Servette FC (I Divisão/ Suíça) 1988/89 Servette FC (I Divisão/ Suíça)
Franz Beckenbauer
Data de nascimento: 11/9/1945 Carreira profissional: de 1965 a 1982 De 1964 a 1977: Bayern Munique 1977 New York Cosmos 1978 New York Cosmos (EUA) 1979 New York Cosmos (EUA) 1980/81 Hamburger SV 1981/82 Hamburger SV 1982 York Cosmos (EUA)
Johan Cruyff
Data de nascimento: 25/4/1947 Carreira profissional: de 1964 a 1984 De 1964 a 1974: Ajax; 1974 a 1978: Barcelona 1979: Los Angeles Aztecs (EUA) 1978 Washington Diplomats (EUA) 1979 Washington Diplomats (EUA) 1980/81 Levante (II Divisão / Espanha) 1982/83 Ajax 1982/83 Ajax 1983/84 Feyenoord
Hugo Sánchez
Data de nascimento: 11/07/1958 Carreira profissional: de 1976 a 1997 De 1976 a 1981: Pumas; 1981 a 1985: Atletico Madrid; de 1985 a 1992: Real Madrid 1992/93 América (México) 1993/94 Rayo Vallecano (I Divisão /Espanha) 1994/95 Atlante (México) 1995/96 Linz (Áustria) 1996 Dallas Burns (EUA) 1996/97 Aletico Celaya (México)
Oleg Blokhine
Data de nascimento: 5/11/1952 Carreira profissional: de 1969 a 1990 De 1969 a 1988: Dinamo Kiev 1988/89 Vorwaerts Steyer (I Divisão /Áustria) 1989/90 Aris Limassol (I Divisão / Chipre)
Mário Kempes
Data de nascimento: 15/07/1954 Carreira profissional: de 1973 a 1996 De 1974 a 1976: Rosário Central; 1976 a 1980: Valência: 1981: River Plate; 1982 a 1984: Valência. 1984/86 Hércules (I Divisão /Espanha) 1986/87 First Wienner (Áustria) 1987/90 Saint Polten (Áustria) 1990/92 Kremser (Áustria) 1995 Fernandez Vial (Chile) 1996 Pelita Jaya (Indonésia( Treinador-jogador)
Eusébio
Data de nascimento: 25/1/1942 Carreira profissional: de 1960 a 1978 De 1960 a 1975: Benfica 1975: Rhode Island Oceaners (Canadá) 1976: Boston Minutemen (EUA) 1976: Monterrey (México) 1976: Toronto Metros Croatia (Canadá) 1976/77: Beira Mar (I Divisão) 1977: Las Vegas Quicksilver (EUA) 1977/78: União de Tomar (II Divisão) 1978: New Jersey Americans (EUA)
George Best
Data de nascimento: 22/5/1946 Carreira profissional: de 1963 a 1981 De 1963 a 1974: Manchester United. 1974 Jewish Guild 1975 Stockport County 1976 Cork Celtic 1976: Los Angeles Aztecs (EUA) 1977 Fulham 1977: Los Angeles Aztecs (EUA) 1978: Los Angeles Aztecs (EUA) 1978/79: Fort Lauderdale Strikers (EUA) 1979/80 Hibernian 1980/81: San Jose Eartquakes (EUA) 1983: Brisbane Lions (EUA)
Kevin Keegan
Data de nascimento: 14/2/1951 Carreira profissional: de 1967 a 1984 De 1967 A 1971: Scunthorpe; 1971 a 1977: Liverpol; 1977 a 1980: Hamburger SV 1980/81 Southampton (I Divisão/ Inglaterra) 1981/82 Southampton (I Divisão / Inglaterra) 1982/83 Newcastle (II Divisão/ Inglaterra) 1983/84 Newcastle (II Divisão /Inglaterra) 1984/85 Tigers Luala Lumpur (Malásia)
Para um jogador, mais difícil do que entender que chegou a hora de terminar, é escolher o momento certo para o fazer. Em regra, o treinador é o primeiro a descobrir e o jogador é o último a aceitar esse facto, como, no passado, sucedeu com o grande Di Stefano, a quem, nos anos 60, Miguel Muñoz, então técnico do Real Madrid, tentou explicar como um jogador pode ter um lugar na história mas já não o ter na primeira equipa. É o desejo utópico de querer fazer parar o tempo que, muitas vezes, leva grandes estrelas a passar as últimas épocas por clubes de segundo plano, longe da elite. Um drama vivido ao longo dos tempos, de Bobby Charlton a Eusébio, de Cruyff a Rummenigue, só atenuado pelo cíclico nascer de El Dourados futebolísticos para veteranos em fim de carreira. Verdadeiros cemitérios de elefantes como os EUA, nos anos 70, o Japão, nos 90, e o exótico Qatar, no presente.