A «mecânica» continua

August 6, 2010 5:11 PM
Selecções rumo ao Mundial. França: Malouda como interior-esquerdo. Os EUA de Dempsey; Holanda, Gana e Camarões

 

As selecções preparam-se para o Mundial e dos particulares vão ficando muitas sensações. Os casos mais enigmáticos, entre os candidatos históricos, são a França e a Argentina.
Maradona já desenhou o seu onze. Aproxima-se do 4x4x2 com um pivot único, o clássico «5» gaúcho, Mascherano, conduzindo a bola desde trás. Perto dele, quase como segundo pivot de transição, surgiu Pastore (contra o Canadá). Fino na condução da bola, não é, porém, muito agressivo em posse. É, de origem, jogador para terrenos mais adiantados. Neste jogo, Tevez-Higuaín foi a dupla atacante, com Di Maria-Maxi Rodriguez nas alas. No ataque, podem entrar Aguero ou Milito, já colocar nesse espaço Messi é mais duvidoso. Poderá funcionar melhor partindo desde a ala direita (com maior espaço de movimentação) ou ser um segundo avançado mais recuado entre-linhas. A passagem para um 4x1x3x2 pode, porém, desequilibrar a equipa defensivamente, num processo onde Jonas Gutierrez se assume como dono da faixa direita partindo da posição de lateral. 
 
A França (4x3x3) tem processos tácticos mais definidos. Toulalan é, sem grande brilho mas operário, o pivot do triângulo de meio-campo com dois interiores que são, claramente, o coração do jogo da equipa (a conduzir a bola, organizar e passar): Gorcuff e Malouda. Enquanto Gourcuff é o tipo de jogador que tem classe mesmo só parado com a bola, mas não faz na selecção nem metade do que no clube, o Bordeaux (razões? enquadramento táctico, gosta mais do losango e de jogar sozinho na segunda linha, questão mental, etc). A nota mais positiva é de Malouda, desviado por Domenech desde a ala esquerda (onde fica Ribéry, com Govou na direita) para zonas interiores. Tacticamente muito culto, Malouda assume-se como o cérebro da equipa na condução da bola, organizando jogo à medida que avança no terreno. Dá serenidade ao jogo colectivo. Se afinar as combinações com Gourcuff, podem ambos fazer uma bela zona de organização/criação capaz de redimensionar a selecção francesa que mantém Anelka a nº9 (vendo os jogos, é inevitável não pensar porque não foi convocado Benzema).
 
Na Alemanha, confirma-se que sem Ballack, será Khedira a assumir o jogo desde trás num 4x2x3x1 onde, com Kroos também no corredor central, Ozil surgiu (frente à Hungria) atrás do ponta de lança (Klose) dando uma verticalidade criativa enorme ao onze. É o tipo de jogador que, por si só, muda o estilo da equipa. Pode ser a revelação do Mundial num onze onde Marin sempre que joga, sobre a faixa, mostra cada vez mais que deve ser titular. A equipa continua agressiva e, claro, a jogar sem mexer um nervo da face. Em qualquer caso, a mecânica no poder.
 
 
 
Holanda, Camarões, Gana 
 
Sempre vista como um refúgio de bom futebol, a Holanda reaparece com os mesmos princípios de distribuição posicional (em 4x2x3x1) e circulação de bola. Contra o Gana (4-1) viu-se a dupla De Jong-Van Bommel a mandar à frente da defesa, libertando Sneijder para ser o 10 criativo. Nas alas, Robben será o dono da esquerda (neste jogo, actuou Afellay) e Kuyt, seguindo aos hábitos de Liverpool, vai encostar à direita. Mais adiantado, Van Persie regressa para inventar na hora do remate. Primeira alternativa para mexer com o meio-campo: Van der Vaart. E pode coexistir com Sjneider, devido à sua facilidade de jogar sobre um flanco, embora sem dar profundidade, puxando mais para dentro, mas com Sneijder a entender muito bem a necessidade de trocas posicionais nessa situação.
Das selecções africanas, os Camarões (com Song-Makoun-Eyong-Emana) são os que revelam melhor posse de bola, mas agora dependem totalmente de Eto`o para ganhar profundidade ofensiva.
Vendo o Gana, ficou uma sensação de vazio. Falta Essien (lesionado) e não existem criativos. Appiah a 10 é muito curto em termos criativos e Abeyie na ala direita é um jogador apenas para… boas jogadas. Falta muito no colectivo. Muntari está (em 4x2x3x1) descaído na esquerda. Penso que seria mais indicado puxá-lo para dentro e, assim, ganhar maior consistência de ligação recuperação-posse nas transições.
 
 
 
Os EUA de Dempsey
 
Sem ser uma grande equipa, os EUA é um onze que cativa pela atitude que põe em todos os momentos do jogo. Pressente-se que acham sempre que podem ganhar qualquer jogo. Sinceramente, parece-me que o treinador Bob Bradley é «demasiado» americano. Ou seja, falta à equipa alguma visão táctica europeia mais versátil para perceber as mudanças pelas quais um jogo passa. O esquema base (contra Turquia) é um 4x2x3x1 com Donovan encostado à direita, puxando para dentro e servindo o forte ponta-de-lança Altidore. Mas também pode jogar em 4x4x2, lançando um segundo avançado (nesse espaço, Findley e Buddle, ainda a jogarem na MSL, são dois jogadores para descobrir neste Mundial!).
O homem que muda o jogo quando pega na bola é, indiscutivelmente, Dempsey, o médio centro, 10 moderno. Atitude arrogante com o jogo, por vezes algo desligado, mas com grande qualidade. Coloca-se à frente do duplo-pivot, gerido pelo labor de Bradley. Sem deslumbrar, é uma equipa descomplexada que pode, sem dramas, discutir o jogo com qualquer adversário.

 

 

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