“Fernando, Fernando!... por favor, que nos estamos jogando a vida….”. Eram os últimos minutos de um dos derradeiros jogos da Liga espanhola. O jogador do Mallorca, Fernando Navarro, passava junto à linha lateral e, na berma do relvado, Mané, treinador do Ath.Bilbao que ia ganhando por 1-0, não receou em enviar-lhe aquele grito de súplica.
Duas jornadas depois, o Mallorca voltaria a ser juiz de outra decisão, o titulo, mas no mundo de emoções dos últimos jogos de qualquer campeonato, ás vezes é mais emotivo salvar-se da descida na ultima jornada do que ganhar a Liga!
Mais do que em Madrid, foi em Santander, onde o Bétis, se salvou perto do fim, e em Valência, onde o Real Sociedad, desceu após 40 anos na I Divisão, que se viram lágrimas em catadupa. Impressionante ver como Lotina, treinador da Real Sociedad, chorava, estendido sobre o banco do autocarro, com os adeptos em redor, também em lágrimas, mas gritando o nome do seu clube.
No pólo oposto, Marcos Assunção soltava lágrimas de alegria na relva de Santander, junto dos adeptos emocionados, enquanto no banco um velho director beijava medalhinhas de santas, e chorava como uma criança após o salvador golo de Edu a nove minutos do fim.
Vejo estas imagens arrepiado e pergunto-me como será a vida daqueles que estão no futebol e não o conseguem viver a partir da emoção.
Na luta pelo título, a quebra do Barcelona coincide com o período emocionalmente mais sólido do Real, um onze fisicamente mais forte. A constatação de como a dimensão física do jogo foi decisiva, acaba por ser mais um exemplo de qual o factor que dita verdadeiramente leis no chamado futebol moderno.
No relvado, o último acto da vingança de Beckham foi traída por uma lesão, mas há muito que ela estava futebolisticamente consumada. Desde que saíra da jaula de cristal que se tornara a tribuna do Bernabéu onde via os jogos após ser proscrito por Capello, voltara a provar como ninguém explica tão bem quanto ele como se faz um cruzamento enroscado para a área, tirando as medidas e a força com régua e esquadro, fazendo depois a bola quase como pairar no ar, à espera do cabeceamento.
A vingança da pop star coexistiu com o renascimento de Roberto Carlos. Disseram que foi o melhor lateral-esquerdo mundo, mas faziam-no pensando sobretudo nele a atacar, quase como um extremo. No pólo oposto, o defensivo, não duvidem que o central que jogou sobre o seu lado sofreu sempre muito mais do que outro defesa em campo.
Mas que importa isso se um das coisas mais empolgantes dos últimos dez anos de futebol foram as arrancadas demolidoras de Roberto Carlos, remates-bomba incluídos, pelo flanco canhoto? Depois de Figo, Zidane e Ronaldo, é o fim da era galáctica.
Real Madrid :
Os três planos de Capello

Viveu entre o inferno e o paraíso, esteve perto de sair, mas, no final, Capello acabou campeão. Um percurso com diferentes fases.
1ª: Fiel à sua filosofia, monta o onze partindo da solidez defensiva. Cannavaro-Ramos centrais e duplo-pivot Emerson-Diarra. Helguera de fora, na equipa B. Salgado, Roberto Carlos, Guti e Cassano titulares. No banco, Reyes era a primeira opção. Robinho quase ignorado e Ronaldo com um plano de emagrecimento. Em campo, futebol mais directo, distância entre-linhas e bolas longas para Van Nistelrooy.
2ª: Em Janeiro a equipa não rende, perde e cai para 3º lugar. Contratam-se Gago, Marcelo e Higuain. Ronaldo sai para Milão e Beckham é afastado após anunciar saída para os EUA.
3ª: Em Março, eliminado da Champions e da Taça, finalmente, a mudança de onze e estilo. Emerson no banco, Gago e Higuain titulares. Torres e Helguera passam da filial para o onze titular. Cassano proscrito e Robinho titular. Regressa, em grande, Beckham. No estilo, a bola passa a circular mais, com jogo apoiado e aberto. Roberto Carlos ressurge. Regressa o espírito lutador, as vitórias e o Barça sente a pressão.
Histórias de uma época. A prova, afinal, de que uma equipa, com acertos e erros, se constrói caminhando…