Cada equipa tem a sua personalidade. Cada jogo tem a sua história. Um dos maiores desafios para decifrar esta relação reside, muitas vezes, em detectar que influência tem o lado emocional no aspecto táctico do jogo (sua abordagem inicial e desenvolvimento durante os 90 minutos). Villas-Boas e Jesus viveram a meia-final da taça nesse limbo quase sobrenatural do jogo. Ou seja, qualquer das equipas, antes da táctica, era um estado de espírito que alternava o receio com a coragem, o medo com a esperança. Era esse subconsciente que condicionava todas as suas acções na relva.
Nessa dimensão, a ideia que fica é que o Benfica entrou no jogo lutando contra a sua própria personalidade. Isto é, montou uma estratégia contra a sua própria natureza. Jogando emocionalmente com a vantagem de dois golos, procurou em vez da sua habitual vertigem ofensiva, fazer um jogo mais calculista, tentando controlar o meio-campo, mantendo a defesa completa. Enquanto o seu lado emocional esteve controlado, até o conseguiu fazer. Nessa inversão de personalidade, os médios-ala defenderam mais do que os próprios defesas-laterais. Tudo passava, sobretudo, por impedir o meio-campo do FC Porto de fazer o seu terrível jogo de posse.
Antes do jogo, a maior ambição de um treinador será prever o maior número de situações possíveis de acontecer durante os 90 minutos e ter um plano preparado para reagir a cada uma delas. Nesta meia-final, existia um momento em que, antes do jogo, ambos os treinadores sabiam que ia ser decisivo: o primeiro golo. Era algo que podia provocar um terramoto no tal lado emocional (e, consequentemente, abanar o táctico, estratégia e sua estabilidade). Ou seja, o FC Porto marcar primeiro mudaria todas aquelas coordenadas iniciais do jogo. E foi o que aconteceu. Minuto 63.
Nessa altura, todo o jogo (na mente e na relva) mudou. A visão táctica de Villas-Boas (tirando um médio ofensivo, Rúben Micael, para meter um falso-ala que surge em zonas centrais, James, ocupando melhor o meio-campo e soltando a dupla Falcao-Hulk na frente) fez estremecer a estratégia contranatura de contenção montada por Jesus. Quando ela abanou emocionalmente (da confiança para o receio) perdeu rigor de posicionamento. E ficou assim longos minutos. Até o FC Porto chegar ao 0-3! Neste contexto, a ideia que fica é que, nessa tal tentativa de prever os diferentes momentos por onde o jogo poderia passar, Jesus não concebeu, em antecipação, um plano de reacção táctica para a possibilidade do FC Porto marcar primeiro e ficar a ganhar. O remate de Moutinho surgiu imparável e toda a casa táctica benfiquista ruiu. A possível entrada de Aimar, pensando num jogador capaz de voltar a dar à equipa posse de bola, conduzindo-a até ganhar faltas, forçando paragens no jogo, quebrando o então ritmo superior do FC Porto, seria uma espécie de sub-estratégia que poderia resgatar o lado emocional do onze então descontrolado. Aimar só entraria, porém, depois do terceiro golo portista, momento da aparição de Falcao.
É verdade que a força da mente conta muito em tudo na vida, mas no futebol, um jogo que parte em bases puramente emocionais como esta meia-final da Luz, acaba sempre na realidade fria da relva durante 90 minutos, por ser decidido pela força da táctica. Nesse território, Villas-Boas e a máquina táctica-emocional azul-e-branca foram mais forte do que a encarnada, presa desde o início a uma estratégia que foi contra a sua própria personalidade. No fundo, um jogo que espelhou futebolisticamente a natureza das coisas.