A nota “táctico-artística”

28 de Fevereiro de 2010 18:27
Di Maria: Antes falava-se em “pare, escute e olhe”. No futebol, o conceito é outro: Não parar, olhar e…decidir em andamento.

 

Para os mais puristas, no futebol, não existe espaço para grandes discussões. Tudo tem uma explicação clara e nela a ciência, tácticas e sistemas, não têm lugar. Todas as situações do jogo encontram uma resposta simples: o génio do jogador é quem resolve tudo. A equação, no relvado, é simples: um jogador, uma bola. Resolve quem tiver mais qualidade. Não sei se esta é uma tese racional ou emocional, mas a verdade é que, de tempo a tempo, surgem jogadores que, quase como “fenómenos estranhos”, parecem dar razão a esses puristas.
Di Maria recebe a bola, a jogada desenha-se, da cabeça para as chuteiras, sobretudo a esquerda, tecnicamente perfeita, e, pouco depois, está na baliza. Varela vê o espaço ainda a bola vem a caminho, deixa-a entrar nele e vai buscá-la primeiro, porque percebeu primeiro as suas intenções, procura o centro e, pouco depois, está na baliza. Ambos, Di Maria e Varela vivem, em campo, a partir de um flanco, onde o futebol sempre pareceu mais liberto, menos científico ou táctico do que no centro, onde se pensa mais o jogo. Os dois, simbolizam hoje as notas mais artísticas de duas equipas que correm pelo mesmo objectivo, o título.
 
Mas, apesar da ilusão dos puristas, o jogo (e equipas) têm raízes mais profundas. Como Jorge Jesus o reconhece ao falar na “nota artística da exibição” só depois de garantido o resultado. Neste momento, o seu Benfica vale mesmo mais 6 pontos do que o FC Porto. A construção dessa diferença nasceu, porém, mais do que os rasgos individuais, de uma ideia táctica colectiva de jogo que mudou a face do futebol benfiquista. Por isso, a importância de Javi Garcia. Por isso, o ponto de interrogação de saber como irá o onze reagir tacticamente sem ele (castigado 2 jogos). Porque só depois do seu “relógio” garantir, no centro, o equilíbrio do início de cada jogada, pode surgir a “nota artística” dos avançados.  
Ruben Micael deu ao FC Porto a coerência de jogo (organização/criação) que lhe faltava no triângulo do meio-campo. O onze joga melhor, porque pensa melhor. E relança o campeonato. Pelo meio, em 90 minutos europeus, ressurgiu Hulk, um protótipo da tese dos puristas. Porque em cada bola que pega em campo, pensa em resolver o jogo. O contraste entre o jogo “de equipa” com ele, frente ao Arsenal, e, sem ele, frente ao Braga (respeitando a diferença dos adversários) diz que, no plano colectivo (passe, recepção, novo passe, desmarcação, centro, remate…) a equipa joga melhor sem essa permanente tentação de individualismo. Isto é, a nota artística mais importante, é aquela que o colectivo (entenda-se aqui jogadas colectivas) consegue dar em campo. A ausência de Hulk motivou a equipa fora do campo, mas, dentro dele, foi a noção colectiva que o relançou. São os tais “segredos táctico-cientificos” para além da equação jogador/bola mais puristas… 
 
Se o jogo tivesse som (para lá dos gritos dos jogadores e treinadores) a melhor forma de detectar se uma equipa está a jogar bem, seria encostar o ouvido às zonas centrais do meio-campo e tentar ouvir o bater de um “tic-tac, tic-tac” permanente. Através da sua cadência, iria perceber-se o estado do seu relógio táctico (ritmo e equilíbrio). Nesse contexto, há jogadores que, em campo, são, tacticamente quase como os “cardiologistas” da equipa. Como, em posições diferentes, Javi Garcia e Ruben Micael.
Faltam dez jogos. 30 pontos. Há muito tempo (talvez desde 92, o ano de César Brito) que o campeonato não conhecia um duelo Benfica-FC Porto em moldes competitivos de tanta qualidade. Pelo meio ainda vive o Braga, claro, mas esse é outro campeonato. Antes falava-se muito na importância do “pare, escute e olhe”. Mas os tempos mudam. E, no futebol, o conceito que hoje faz a diferença é outro. Passa por não parar e conseguir olhar e decidir em andamento. Quem o fizer em maior velocidade, ganha! Será essa a equipa com melhor nota “táctico-artística”. 
 
 
 
 
 
Thwilight
zone verde”
 
A Europa é quase como uma porta para uma espécie de ThwilightZone do futebol. Uma terceira dimensão na qual, misteriosamente, entra, raras vezes, a equipa do Sporting. Depois da Fiorentina (ainda pré-eliminatória da Champions) outra viagem sobrenatural, frente ao Everton, com uma exibição fantástica que foge à “lógica negra” do resto da época. É quase necessário pensar em explicações sobrenaturais para estes momentos em que os jogadores leoninos se transformam em…”outros jogadores”. Não é a táctica (embora fosse decisivo passar, primeiro, do 4x4x2 para o 4x2x3x1 e colocar dois médios recuados, Pedro Mendes-Veloso, para pressionar a zona central e ganhar o meio-campo e, depois, de novo para o 4x4x2, com Saleiro e Veloso a lateral-esquerdo) nem será distracção dos adversários. É encontrar um estímulo competitivo que não existe noutros jogos.
A pergunta será porque ele não surge mais vezes. Não será pelo treinador. Ele, Carvalhal, que, solitário, mudou o que tudo indicava ser o quadradinho final da história de ontem (sair sozinho rumo ao horizonte…) e inventou uma nova vida para a sua própria imagem. As vitórias têm, de facto, muitos rostos e origens, mas esta é claramente resultado do instinto de sobrevivência: treinador e jogadores. O resto das personagens pertence à outra parte da história da época leonina, aquela onde dominam “sombras e fantasmas”. 
Veloso a estourar com fúria pela esquerda, a defesa corajosa de Rui Patrício com Saha isolado, o remate de Pedro Mendes que bate no defesa e vai imparável para as redes, e até o tropeção de Matías Fernadez correu bem para fechar o jogo com um terceiro golo. Parecem todos lances fora da normalidade cinzenta da época leonina. Foram lances, porém, que a equipa (e os adeptos boquiabertos) encontrou na última viagem europeia. E agora o regresso à normalidade? Não perguntem isso aos jogadores.

 

 

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