Começaram, por fim, as grandes noites europeias. Esquecem-se os pontos e surgem os jogos de eliminação directa. No arranque, a Taça UEFA. Percorrendo diferentes atmosferas, fixo-me na estreia de Zico no CSKA Moscovo. São difíceis as aventuras dos treinadores brasileiros no futebol europeu, sobretudo de clubes. Há um claro choque de culturas. Na comunicação, no treino, no jogo táctico. Luxemburgo e Scolari, no Real Madrid e Chelsea, sentiram isso. Poderá Zico marcar alguma diferença? É difícil responder, mas existe nele, para lá da questão comunicacional, uma maior capacidade de perceber o jogo para lá do contexto sul-americano. Na forma como estrutura as equipas ou mexe nelas. Sentiu-se isso no seu Fenerbahce. Em Birmingham, contra o Aston Villa, só facto de ter mudado o rosto táctico da equipa, do 3x5x2 que jogou durante anos (com Gazzaev) para um 4x4x2 com preocupações mais posicionais, foi quase irónico, pois, no geral, são os brasileiros, e não os europeus, que preferem sistemas de três centrais. Neste novo esquema, Zhirkov, antes lateral-esquerdo ofensivo que fazia todo o corredor, surgiu como médio-ala na mesma faixa, abrindo com Krasic na direita, num 4x4x2 clássico, com duplo-pivot, mas fixando mais Rahimi? a trinco, soltando Aldonin para o jogo. No ataque, o miúdo Dzagoev e, claro, Wagner Love. Sempre que o vejo jogar, pergunto porque não joga ainda num verdadeiro grande europeu (fez um golo fantástico, construído e concluído por ele). Notou-se, porém, que este CSKA ainda está em inicio de época. A diferença de ritmo entre as duas equipas foi sempre evidente, mas, mesmo perante o assalto de Agbonlahor, Carew e Young, foi devido ao seu rigor táctico que o onze de Zico aguentou o 1-1.
Seguindo a pista russa, na neve de St Petersburg, o Zenit, detentor do troféu, ressurgiu, contra o Stuttgart. Continua rápido, mesclando o aroma holandês de circulação de bola, profetizado por Advocaat, com remniscências do colectivismo de leste, na forma simples como faz transições rápidas. Joga em 4x1x4x1, estendendo o meio-campo num 2x2 entre um trinco fixo (Tymoshchuk) e um nº9 clássico (Pogrebnyak). No meio, quatro homens, em duas linhas. No centro, Semshov e Zyryanov comem a zona de pressão central. Recuperam e sobem com a bola. Nas faixas, duas setas, Danny na esquerda, e Huszti, na direita, ambos puxando muito jogo para dentro.
O grande desafio russo é, porém, de Zico. Ultrapassa o seu mero caso pessoal. De cada vez que monta ou mexe na equipa é quase como lutar contra a história e seus supremos choques de culturas futebolísticos.