A NOVA MACEDÓNIA

31 de Março de 2003
ANÁLISE Á SELECÇÃO DA MACEDÓNIA

Erguida na sofrida região das Balcãs, território onde historicamente sempre se jogou um estilo de futebol virtuoso e tecnicista, a Macedónia construiu o seu padrão de jogo sob os mesmos ditames criativos. Órfã da velha Jugoslávia desde 199x, ano em que readquiriu a sua independência nacional, busca agora construir uma identidade própria. Uma ambição que, no passado, se inspira em Pancev e que, no presente, se baseia no talento do jovem Popov. Dois símbolos, dois tempos no futebol macedónio.
Sob a bandeira da velha pátria unida de Tito, a Jugoslávia deu ao mundo, ao longo dos tempos, grandes equipas e fascinantes jogadores. Quando, no inicio dos anos 90, no seu último fôlego político e futebolístico, formou, baseada na inesquecível equipa do Estrela Vermelha campeã europeia em 1991, um sedutor onze que se preparava assaltar o Europeu-92, nele morava, com o nº9 nas costas, um terrível ponta-de-lança. No seu jogo, ele combinava a técnica, o remate e o golo. Seu nome: Darko Pancev, o maior símbolo futebolístico da história do futebol macedónio. Após a desintegração da velha Jugoslávia, ele foi o primeiro a reerguer nos relvados de futebol a esplendorosa bandeira vermelha com um sol dourado, símbolo da nova Republica da Macedónia, uma nação com apenas 2 milhões de habitantes. Desde essa data, sem a secular tutela jugoslava, o futebol macedónio tentou construir a sua identidade própria. Uma década depois, a sua realidade continua muito distante da velha e gloriosa escola da unida selecção eslava. Tecnicamente, os seus jogadores sabem tratar a bola, consegue-se nos seus movimentos e toques, vislumbrar ainda algum perfume do virtuoso estilo balcãnico, mas, estruturalmente carenciado e sem grandes clubes no seu território, o nível competitivo e exibicional da sua jovem selecção permanece longe da elite do futebol europeu. Neste contexto, o seu futebol vive, no presente, uma fase de transição, procurando formar uma nova geração de talentos, já criados sem as velhas referências tutelares, capazes de construir, em campo, essa nova identidade futebolística.

Ilievski, o treinador da reconstrução

No banco, Nikola Ilieski, é o treinador encarregue da dura missão de recolocar a Macedónia no mapa do futebol europeu. Quando assumiu o cargo, no inicio de 2002, Ilievski teve como primeiro objectivo resgatar o espirito de equipa dentro da selecção pois na base da saída do anterior seleccionador Gjore Sovanovski, estivera a recusa de 23 jogadores, entre 30 chamados, á convocatória para um torneio no Bahrein. Apesar de na última época, ter sido despedido por duas vezes de clubes diferentes, o Pobeda e o Belasica, Ilivevski soube reunir o país em volta da selecção, tendo para isso muito contribuído as excelentes exibições realizadas nos dois primeiros jogos, nos quais, já com todos os jogadores que antes se tinham recusado a jogar na selecção, empatou com a Bósnia (4-4) e venceu a Finlândia (1-0). O seu grande momento surgiria, porém, já na fase de apuramento para o Euro-2004, onde espantou o mundo ao empatar com a Inglaterra, em Old Trafford (2-2), com uma exibição destemida, de atitude ofensiva que chegou a enervar os ingleses, convencidos de uma vitória fácil antes do jogo. Um resultado que reacendeu o entusiasmo pelo futebol no território macedónio e que levou, de imediato, Ilievski a renovar o seu contrato até 2005.

A EQUIPA: Popov, o símbolo da nova geração

No relvado, a principal figura desta nova macedónia de Ilievski é o jovem médio do FK Belasica, Popov, 21 anos, Elegante e virtuoso no trato da bola, inteligente na sua condução desde a frente da área, e com excelente visão de jogo, é um jogador de grande futuro, já cobiçado por grandes clubes europeus. O seu estilo solto marca claramente a clivagem preconizada por Ilievski no inicio da campanha de apuramento para o Euro-2004, decidindo apostar em jogadores jovens em detrimento de outro, já veteranos e de créditos firmados, entre eles o perigoso e muito experiente avançado Sasa Ciric, 35 anos, actualmente a jogar na Bundesliga, no Nurenberga, onde já fez 11 golos esta época, mas deixado de fora da selecção no inicio deste novo ciclo, no qual quase todas as principais figuras da selecção jogam no estrangeiro. Tacticamente, Ilievski tem tendência a esquematizar a equipa num sólido 4x5x1, que, em fase ofensiva se transforma em 4x4x2, visando assim ganhar o maior número de duelos possíveis a meio campo, onde claramente se concentra o sector mais forte do onze. Para o jogo com Portugal, sem Popov, lesionado, Ilievski deverá apostar num quarteto de combate composto por Sumulikoski, do Mesto Synot, da Republica Checa, e pelos talentosos irmãos Krstevc: Mile, o maestro da equipa, do Groningen, e Saso, médio ofensivo, do Pobeda, que joga atrás dos avançados Sakiri e Pandev, sempre apoiados, sob o flanco direito, pelas investidas do brasileiro naturalizado macedónio, Aguinaldo Braga, actualmente a alinhar no Aris Salónica grego. Outras soluções, poderão ser a inclusão de Jancevski, jogador do Varteks croata ou da dupla Petrov-Trajanov, médios do Lokomotiv Plovdiv, da Búlgária, ambos titulares no histórico jogo contra Inglaterra. Na defesa, a grande referencia é o alto central Mitreski, do Spartak Moscovo, enquanto, no ataque, sem Sasa Ciric e o experiente Hristov, também preterido por Ilievski devido ao facto de não ser neste momento titular no seu clube, o NEC, da Holanda, os maiores destaques vão para Artim Sakiri, jogador de origem albanesa, do CSKA Sofia e para uma atraente dupla de avançados composta por Stojkov e Pandev, ambos actualmente a jogar em Itália, no Spezia, clube da Série C1. O futuro, para a maioria dos adeptos está, no entanto, nos pés de duas jovens promessas: Grozadnovski, 20 anos, que marcou á Turquia e á Inglaterra e Naumoski, 19 anos, já a jogar na Áustria, no AK Grazeer.

Braga: Um brasileiro na selecção da Macedónia

Por todo o mundo existem brasileiros a jogar futebol. Embora muitos deles, mesmo quando se destaquem em campeonatos de segunda linha internacional, continuem desconhecidos no Brasil, a simples presença da sua magia sul americana aumenta o nível futebolístico de quase todas as equipas que os acolhem. Para eles, por sua vez, é o sonho de jogar na Europa. Foi o que sucedeu, há quatro anos, com o ala-direito Aguinaldo Braga, hoje com 27 anos, e que, nessa altura, resolveu deixar o Corinthians para partir á aventura, ingressando no futebol macedónio, onde se tornou uma estrela do campeão Vardar Skopje. Para trás ficara o seu Brasil, onde chegara a jogar, no Grémio, sob as ordens do actual seleccionador luso, Filipe Scolari. Na Macedónia, o seu futebol veloz e técnico sob a faixa direita cedo deu nas vistas, ao ponto de após três épocas de grandes exibições, o seleccionador Ilievski, que o define como um jogador rápido, forte e muito potente no jogo aéreo, ter proposto a sua naturalização com o objectivo de poder jogar na selecção da Macedónia, pois não existia no país nenhum jogador com as mesmas características dele. Assim foi. A estreia deu-se em Maio de 2002, em Helsínquia, num jogo particular contra a Finlândia (vitória por 1-0), no qual Braga –nome pelo qual é conhecido na Macedónia e na Grécia- realizou uma excelente exibição, tendo estado várias vezes perto do golo. Esta época, encontra-se a jogar no campeonato grego, emprestado pelo Vardar ao Aris de Salónica. Após ter ficado de fora no jogo contra a Inglaterra, devido a então ainda não ter conquistado a titularidade no Aris, Ilievski decidiu voltar agora a convocá-lo para os jogos contra a Eslováquia e Portugal. A sua simples inclusão no onze, fazendo todo o flanco direito, incute maior qualidade e imaginação ao meio campo macedónio, onde ao lado do elegante Popov brilha agora um canarinho convertido ao futebol das balcãs: Braga, o Deco da Macedónia.

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