Conhecer a especificidade que cada equipa é conhecer a sua verdadeira realidade. Se a análise se faz sempre a partir das formas de pensamento mais habituais a sua compreensão turva-se. Vivemos em busca de certezas. Uma sensação de segurança. Muitas vezes essas certezas são pilares da construção da equipa. Raramente, porém, são os seus factores de desequilíbrio no jogo. Porque a capacidade de organizar a nossa equipa e a capacidade de desorganizar a equipa adversária são coisas muito diferentes. Releiam esta última frase. Ela é a ratio de todo o texto.
O Sporting começa a época construindo uma nova equipa. O princípio passa pela organização. Vê-se a equipa a jogar, a bola a ir e vir atrás e à frente, e detecta-se que ela permanece organizada. Para esse novo Sporting é hoje consensual falar em Rinaudo e Schaars como chaves do futuro. Será mesmo assim? Duvido. Ou, explicando melhor, não duvido que são pilares para um modelo de jogo, mas… é possível uma equipa ser campeã tendo estes jogadores como suas grandes referências?
Vejam bem: Rinaudo é um médio piranha de segundas bolas e circulação simples. Schaars é um médio mais subido que faz a progressão da transição que começou no passe anterior. Entram aqui, portanto, conceitos de recuperação e condução curta. Importantes, sem dúvida. Organização assegurada. A construção tem, no entanto, o tal outro lado: criar desequilíbrios no adversário. Meter maior velocidade no jogo e criatividade para fazer dançar defesas fechadas. Pensem em jogos contra equipas estilo Marítimo, Beira-Mar, Paços, etc, que fecham bem e saem em contra-ataque. Algum desses jogadores tem esse perfil para as desmontar? Não. Porque essa criatividade está antes em jogadores como Izmailov, Matías Fernandez ou até, André Santos, pivot (em fase de crescimento) com superior cultura de jogo em posse construtiva. Por isso, Rinaudo e Schaars são muito importantes na organização do novo Sporting, mas quem o pode fazer verdadeiramente ganhar jogos (frente a adversários fechados), são os desequilibradores do segundo grupo.
Definir um jogador também passa pelo lugar em que o imaginamos em campo. Ouço falar em Matías Fernandez como segundo avançado. Não é novo, basta ver o Chile, mas retira-o do tal espaço de desequilíbrio para o meter essencialmente no de definição, que não é o seu. Essa hipótese de metamorfose posicional, levanta outro caso: Izmailov. Imaginámo-lo sempre num flanco. Falando de Yannik, Domingos referiu mesmo que faz parte de quatro jogadores que podem jogar nas alas, com Carrillo, Capel e…Izmailov. Acho redutor definir Izmailov como um jogador de faixa. Flanqueia bem o jogo, mas vendo o seu enorme talento desequilibrador, ele faz (também) muito sentido no centro. Quer como posição na estrutura, quer em trocas posicionais, imagino melhor Izmailov a 10 do que Matías a segundo avançado.
Tudo isto são pontos para debater a construção do novo Sporting. Jogadores e necessidade da equipa. Organização e criação de desequilíbrios.