A pátria de “El Chicharito”

15 de Abril de 2010 22:37
Descobrir o futebol mexicano, dos clubes à selecção, é entrar num mundo único de futebol como estado de alma.

 

O aparecimento de um jovem jogador mexicano, Javier Hernandez, El Chicharito, como novo jogador do Manchester, causou admiração. O fútbol asteca ainda vive longe dos olhares europeus. Convêm, no entanto, começar a descobri-lo. Boas equipas, estádios cheios e bons jogos num campeonato emocionante. Futebol com alma, tecnicamente evoluído, agressivo sem ser duro, tacticamente coeso e, claro, com muitos jogadores para descobrir.
Mas que tipo de avançado é, afinal, El Chicharito? Sem ser muito alto (1.73m.) para ponta-de-lança típico, não se importa de estar entre os centrais pois é rápido a desmarcar-se em espaços curtos, surgindo móvel nas costas dos defesas. Não será o Hugo Sanchez do Sec.XXI, mas tem um remate potente e uma excelente técnica de cabeceamento. Apesar de só rumar a Manchester na próxima época, a sua equipa, o Chivas, já perdeu, porém, o seu talento. A razão é a selecção que esta semana (a dois meses do Mundial!) já reuniu em estágio os 17 jogadores pré-convocados a actuar na Liga mexicana.
 
Chivas e Monterrey são hoje as duas equipas mais fortes do futebol mexicano. A seguir, vêm o Morélia, Toluca, Santos Laguna e Pumas. Para além do Chicharito, o Chivas também perdeu veloz extremo Medina e o experiente El Bofo Bautista, agora a jogar como médio ofensivo, quase sem correr, só a medir passes. A equipa vai ter que disputar o resto do campeonato sem eles mas poucos protestam. A selecção é sagrada. Oportunidade para Omar Bravo voltar à titularidade, e aparecer mais a revelação Arellano, ala esquerdo, enquanto, no centro, manda o eficaz trinco El pato Araujo.
O Morelia é a equipa com o estilo de jogo mais apoiado. Tem dois alas endiabrados: Elias Fernadez, serpente a desmarcar-se sobre a direita, e o chileno Drouguet, canhoto puro, no outro flanco, com precisão de passe. No corredor central, um médio que pega no jogo todo, Jorge Hernandez. Para a selecção, perdeu o ponta-de-lança Sabah que sem ser muito explosivo, é o tipo de nº9 que se coloca muito bem na área para encostar e fazer golos.
Sem jogadores na selecção, o Monterey ganha, assim, mais espaço na luta pelo título. Tem nas faixas os seus dois maiores criativos organizadores: o canhoto equatoriano Ayovi e o argentino Nery Cardozo. Na frente, Carreño ou De Nigris são um perigo, apoiados pelo dinâmico Osvaldito Martínez e pelas subidas do lateral-direito Meza, enquanto o esguio Zavala equilibra, em passada larga, todo o jogo desde trás.
 
A selecção pode viver sobretudo da fama das estrelas a jogar na Europa, mas a verdadeira alma do futbol mexicano ainda está nas suas canchas. É o jogo com o espírito zapatista, como se em cada lance se jogasse a vida.
 
 
Aguirre e a “rã” Blanco     
 
Mergulhada em profunda depressão com Eriksson, o México voltou a reencontrar-se com Javier Aguirre. Nenhum treinador conhece tão bem a alma do futebolista mexicano, tendo, ao mesmo tempo, experiência europeia. Aos pré-convocados da liga asteca, vai agora juntar-se a legião de estrangeiros: Os centrais Rafa Marquez, Osório e Salcido (também lateral-esquerdo), Vela, Giovani Dos Santos e, entre outros, Guardado, talvez o jogador mexicano mais completo da actualidade, mescla de médio com segundo avançado, encostado à ala ou puxando para o centro (joga no Corunha).
Aguirre joga preferencialmente num 4x3x2x1, que na dinâmica de jogo, pode passar a um 3x4x2x1. A base está no meio-campo, onde Torrado, Castro e Juarez (também lateral-direito) são fundamentais para agarrar o jogo.
 
No ataque, o eterno regresso do inventor da finta da rã (um salto por ente os defesas com a bola presa aos pés). É, claro, Cuauthémoc Blanco, agora com 37 anos. Sabendo do seu carisma, Aguirre recebe-o sempre de braços abertos, apesar do seu jogo ser hoje uma sombra do que foi. A maior lacuna estará na falta de um bom médio-criativo, um 10 moderno, para jogar atrás dos avançados. Por isso a opção pelo 4x3x2x1, com dois enganches vindos das alas de fora para dentro para surgirem, alternadamente, no centro (são os movimentos ideias de Giovani, Blanco ou Guardado).
 
 
 
Geração Sub-17 (2005-2010)
 
Das selecções que estão entre as mais improváveis em relação a uma vitória no Mundial, o México será a que, mesmo assim, sonha mais com isso.
No passado, está a conquista do Mundial Sub-17 em 2005. Cinco anos depois, as suas estrelas ainda não conquistaram a selecção principal. A dupla atacante Vela-Giovani dos Santos joga bem, mas sem agressividade. Custa-lhe vingar no futebol europeu, sobretudo em Inglaterra, onde passam a maior parte do tempo. Apesar de dizer que esta selecção teria “o melhor grupo de sempre”, Aguirre também olha com desconfiança para essa geração, da qual, entre outros, deixa de fora das escolhas médios como Hernandez (Morelia) e Araujo (Chivas), pivots de construção que, todas as semanas, enchem de bom futebol os relvados mexicanos. Mais longe, o nome que faz voar a imaginação é Jonathan dos Santos (irmão mais novo de Giovani) 19 anos, médio ofensivo que já se estreou no Barça de Guardiola, onde se formou.
 
Num estilo que, antes da táctica, vive das emoções que provoca, são os veteranos a entrar primeiro nos corações dos adeptos e treinadores.

 

 

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