A península do Futebol

19 de Novembro de 2010 11:07
Paulo Bento é um “upgrade” lusitano da fórmula-Scolari. Mais do que a táctica, um seleccionador como “gestor de emoções”, deixando o ego dos jogadores à solta.

 

Nasceram no mesmo “berço futebolístico geográfico” e cresceram numa jangada de pedra futebolística que, ao longo dos tempos, os colocou frente a frente, quase como uma metáfora com bola do romance de Saramago que separa a Península Ibérica do resto do continente europeu. Portugal e Espanha, símbolos ibéricos da escola latina, numa longa viagem em busca de algo que, tal como nas personagens de Saramago, lhes atormenta a alma e os culpa por tudo o que acontece. Tiveram sempre identidades diferentes. Mutáveis, mas sempre distintas. A célebre fúria fez da expressão espanhola mais um estado de espírito do que um estilo. Corriam muito, língua de fora, mas jogavam…devagar. A maior dengosidade lusitana, brandos costumes até com a bola, teve, a certo ponto, as influências de África. Tínhamos uma qualidade técnica quase como o “Brasil da Europa” mas, em campo, não nos davam…tempo para a colocar em prática. Temperamentos diferentes. No início, e durante muito tempo, os espanhóis marcaram a sua força, mas, dos ancestrais 0-9 de 1934 até aos 4-0 de 2010, o futebol, ao longo dos tempos, mudou muito, e, ao contrário do inexplicável fenómeno geográfico de Saramago, tudo tem explicação futebolística científica credível.
A Espanha atingiu o topo do mundo na primeira década do Sec. XXI porque reciclou o seu estilo, deu-lhe ideologia colectiva e criou uma fórmula táctica baseada na qualidade técnica e perfil morfológico dos seus habitantes (jogadores). Por isso, chamaram-lhe a “selecção dos baixinhos”. Os melhores momentos de Portugal, hoje como antes, tiveram sempre, em campo, assinaturas mais particulares, espelho da nossa maior vertente imaginativa. Aplicar a noção de “equipa” a uma selecção, não é uma missão fácil. Os jogadores, ao contrário do que sucedem nos clubes, passam pouco tempo juntos (para treinar e afinar tácticas). Por isso, a necessidade de criar uma identidade (estilo de jogo) que suplante a mera forma ou o lado conjuntural de um simples jogo. Foi o que fizeram os espanhóis. Foi, nesse contexto, que Paulo Bento, antes do duelo ibérico falou da necessidade de ser fiel à nossa “identidade e personalidade”. Porque, a qualidade, essa, está lá. Falta “estabilidade emocional” (resgatada com um treinador com maior poder de comunicação interna, isto é, capaz de entrar na cabeça dos jogadores) e “coerência de jogo” (não mudar de jogo para jogo, conforme o adversário, mantendo antes um estilo). A fórmula Paulo Bento para a selecção passa, essencialmente, por devolver esses dois factores à selecção. Um upgrade lusitano da estratégia Scolari.Mais do que a táctica, um seleccionador como “gestor de emoções”, deixando o ego dos jogadores à solta.  
 
Cristiano Ronaldo e Nani são, nesse contexto, os dois expoentes máximos desta vocação futebolística portuguesa (sua contextualização histórica e expressão emocional). Podem decidir jogos quando pegam na bola. Fazem da criatividade um estilo. Em cada jogada, reinventam o nosso estilo mais inventivo. O futebol português tem hoje extremos como mais nenhum outro no Planeta. O importante é usar essas asas criativas e dar-lhes liberdade para voar com a bola. Tacticamente, essa bênção nas faixas do relvado, implica um 4x3x3 que, em campo, desenha a nossa particular “jangada de pedra futebolística”, um lado ibérico com estilo próprio. Menos colectivo do que o dos baixinhos espanhóis, mas mais próximo do estilo Picasso de, numa simples jogada, dar novos mundos ao mundo do futebol. Como explicou, da ocidental praia lusitana, aquela obra de arte em forma de arranque, simulação, finta e chapéu que Cristiano Ronaldo pintou na área espanhola e o ego de Nani (incapaz de resistir à bola) estilhaçou à entrada para a eternidade...
 
 
 
Treinador emocional
 
Mais do que um treinador no sentido táctico do termo (definindo forma de jogar como numa equipa), na selecção, o mesmo treinador, é, essencialmente no sentido de gestor das emoções. Os jogadores que passaram a ganhar jogos e golearam a Espanha, são os mesmos que antes sofreram quatro golos de Chipre e jogavam como quem “moía um sentimento”. Quando perguntavam a Paulo Bento qual era o segredo dessa transformação, ele encolhia os ombros e dizia que não fizera nada e que o mérito era dos jogadores. Sem dúvida. No fundo, Bento não inventou novas tácticas, nem montou estratégias fantásticas, apenas fez uma coisa muito simples perante o ego dos jogadores: “deixou-os ser!”. Não os sufocou com ideias, projectos e prelecções. Mais do que estratega, um coreógrafo.
São cada vez maiores os sinais de que no actual futebol de top são os jogadores que fazem os treinadores e não o contrário. Se o treinador não os seduz, tornando-se assim líder, eles, pura e simplesmente, comem-no em pouco tempo. Uma selecção é o melhor local para perceber a diferença entre o “treinador táctico” e o “treinador emocional”. E, assim, perceber também a base (o tal segredo) da transformação da nossa selecção (e seus jogadores).   
 
 
 
Jogadores tácticos
 
Após várias épocas devoto do 4x4x2 (e seu losango) no Sporting, Bento converteu-se na selecção ao 4x3x3. A razão é simples: Jogadores diferentes pedem estruturas tácticas diferentes. Os extremos e os médios. Para dinamizar o jogo, surgem os primeiros, rebeldes e subversivos. Ora em arranques mais verticais (isto é, fintando o lateral e procurando a linha final para centrar) ou mais em diagonal (isto é, puxando mais para dentro e buscando perto da área o ângulo para rematar). Este tipo de extremos rebeldes pede, no entanto, um meio-campo mais “rotativo” no sentido de ser capaz de acompanhar atrás e à frente (avançando-recuando, atacando-defendendo), as viagens da bola.
São os tais motores como Moutinho, Martins e Meireles (como também Pedro Mendes ou Tiago) garantem sempre com alta intensidade ao longo dos 90 minutos. Ou seja, terminou a “quimera” do velho nº10, como Rui Costa ou Deco. Esta é uma nova era para o nosso meio-campo. Terminou o lado aburguesado do nº10. Explodiu a era motorizada do médio “todo-terreno”.

 

 

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