Cada posição, numa equipa, tanto pode ser uma solução como um problema para o global do onze. Neste cenário, o lugar de lateral-esquerdo é, no futebol actual, das posições mais debatidas em muitos onzes. Também sucede no Brasil, onde, desde o início do apuramento para o Mundial, Dunga já utilizou 7 diferentes laterais-esquerdos: Gilberto (Cruzeiro), André Santos (Fenerbahce), Juan (Flamengo), Marcelo (Real Madrid), Felipe (Corunha) e Kleber (Internacional). Esta semana, contra a Irlanda, fez a sétima experiência: recuou o ala-esquerdo Michel Bastos (Lyon) para lateral-esquerdo.
Tacticamente, aposta hoje no 4x2x3x1, com uma dupla de volantes Gilberto Silva-Felipe Melo muito posicional. Garante o equilíbrio defensivo, mas falta-lhe capacidade de transporte de bola (entregue apenas, no corredor central, a Kaká quando recua). Neste contexto (e como os centrais Lúcio-Juan também saem pouco, apenas Lúcio mas sem critério de passe) os laterais são muito importantes para a saída e transporte de bola. Nesse contexto, com Maicon indiscutível na direita, falta na esquerda um lateral que, dando a mesma saída, também saiba manejar os timings de recuo para o onze nunca perder o correcto balanço entre transição ofensiva e organização defensiva. Porque enquanto na direita Maicon tem à sua frente Ramires ou Elano, que equilibram defensivamente, na esquerda, o lateral tem à sua frente Robinho, que só pensa em atacar.
Puxar um extremo para lateral é hoje algo normal, mas vendo Michel Bastos continua a não ser…natural. Ou seja, como é impossível mudar as características do jogador, ele, quando muda de posição, também as leva (desvia) de uma posição para outra. Assim, mal o jogo começou, Michel Bastos soltou um movimento que, como ala, faz a força do seu jogo: condução da bola sob pressão de um adversário. O problema é que se isso é óptimo no ataque (passa o defesa e vai para a área) mais atrás no mesmo corredor é um…risco tremendo. Desta forma, a sua primeira aparição no jogo foi conduzir a bola em posse no seu meio-campo defensivo com um adversário a cair-lhe em cima até perder a bola e assim a Irlanda criar perigo pelo seu lado.
Ou seja, mudar de posição até é fácil, difícil é mudar as características (ou potenciar outras que o anterior lugar não pedia) de um jogador. É um processo de modelagem táctico-posicional que quando mexe com a organização defensiva, coloca a equipa, tacticamente, a jogar na berma do precipício quando a bola cai na sua linha recuada. Ou seja, o que, por vezes, é um ponto forte num lugar (espaço), pode não sê-lo noutro. É o sindroma de Michel Bastos na actual selecção brasileira.