Para quem segue Co Adriaanse desde há vários anos, esta era uma revolução anunciada. Do centro de formação do Ajax até ao sensacional AZ da época passada, revelou sempre a sua devoção táctica por sistemas de três defesas. Uma opção táctica que é, afinal, um símbolo da escola holandesa e que também Koeman também tentou implementar no Benfica no início da época, embora numa diferente variante. Uma coisa é o 3x4x3 desenhado no papel, outra é a dinâmica que ele adquire no campo, em função das missões e características dos jogadores que são chamados a dar-lhe vida. Na essência, o 3x4x3 (ou até o 3x3x4, como alinhou nos últimos três jogos) de Adriaanse espelha a verdadeira dinâmica do sistema holandês. A grande diferença entre dois sistemas de três defesas reside, desde logo, nas características dos jogadores que compõem o trio defensivo. Uma coisa é jogar com três centrais na linha recuada e dois laterais ofensivos nas alas colocados na saída de bola, de perfil com os outros médios centro. Neste caso, o sistema pode na conclusão da transição defensiva transformar-se facilmente em cinco defesas, com o recuo dos laterais para fechar nas alas, mantendo os três centrais a sua posição de cobertura original. Foi assim que jogou Koeman no inicio da época, com Luisão-Anderson-R.Rocha no eixo, Nelson-Leo nas laterais. Outra é compor essa linha de «3» defensiva com um central no eixo e dois laterais a seu lado, deixando assim estes a sua posição de origem na faixa. É este o sistema mais evoluído de jogar e o mais arriscado também, pois obriga a ter jogadores com grande cultura táctica para o fazer e já devidamente identificados com a dinâmica do sistema, pois qualquer falha pode ser fatal, dado o natural desequilíbrio defensivo existente em termos numéricos e de ocupação do espaço. Nesta perspectiva, vejamos a evolução do modelo-Adriaanse:
As bases do modelo

No Az, a dinâmica do 3x4x3 modelo-Adriaanse, estendia-se em 3x1x3x1x2. Como ponto de partida, assentava em três defesas que se estendiam a toda a largura do terreno e basculavam nessa linha recuada conforme a posição da bola. Nesta dinâmica, em vez dos típicos laterais ofensivos que é comum em outras variantes deste sistema, jogava com alas que partiam do seu meio campo até se transformarem em extremos. Assim, a saída de bola desde a defesa era feita por um dos defesas que descaía para os flancos. Regra geral, era essa a missão de Kromkamp, defesa pela direita, que fechava no centro a defender e, depois, quando a equipa recuperava a bola e iniciava a transição defesa-ataque, encostava-se ao flanco, recebia o passe do guarda-redes e saia a jogar. Era por isso, por já ter na mente a aplicação deste sistema, que Adriaanse insistiu tanto em ter Kromkamp no FC Porto. Para esta função, é crucial grande inteligência e elasticidade táctica, que se deve estender a todo trio defensivo, pois a largura do campo, com menos jogadores na linha que o atravessa horizontalmente, fica maior e, consequentemente a obrigatória basculação dos seus componentes também aumenta, pois os espaços são muito maiores. Nesta mesma linha de raciocínio, outra característica chave para a eficácia dinâmica do sistema reside no defesa central ter de ser muito rápido para dobrar ou nunca chegar atrasado na ocupação dos espaços livres. Portanto, aqui está, uma linha de três formada não por três centrais, mas por um central e dois laterais. É este o verdadeiro traço da escola holandesa.
A dinâmica-tipo do FC Porto

No FC Porto, de início, Co Adriaanse, após ténues tentativas em aplicar o sistema, logo viu que não tinha material humano para o colocar em prática, Reconverteu-se ao 4x3x3 e nesse modelo criou mecanização na equipa e chegou ao fim da primeira volta em primeiro lugar com 6 pontos de avanço. Terá isso, talvez, essa, digamos, margem de erro, que o levou a arriscar no seu sistema preferido procurando no plantel os jogadores que melhor o poderiam interpretar. Assim, colocou o seu central mais rápido no eixo do trio defensivo, Pepe. Perfeito. O grande problema residia, porém, nas faixas. Sem César Peixoto, coloca na esquerda Cech ou Pedro Emanuel, dependendo das características do adversário. Se este jogar com extremos, joga Emanuel, com maior rotina para fechar ou encostar na marcação, ao espaço e ao homem. Caso contrário, sem ninguém a quem marcar, joga Cech, que, no entanto, nem tem de subir muito, pois a saída de bola no inicio da transição defesa-ataque é feita, quase sempre, pela direita, onde se fixou Bosingwa. Em termos individuais é esta a pedra mais discutível, pois embora disfarce no papel de lateral, Bosingwa revela claras lacunas de rotina de basculação, sobretudo quando é obrigado a fechar nos movimentos interiores. Repare-se porém num ponto muito importante: o sistema, no papel, pode ser e chamar-se de três defesas, mas na verdade, nenhuma equipa no mundo pode defender só com três defesas. No fundo, uma equipa são…duas equipas. Uma quando tem a bola, outra quando a perde. É neste ultimo momento, quando perde a bola, que se podem ver as missões de recuperação e transição defensiva que estão entregues a outros elementos para além do trio recuado.
Trinco-quarto defesa e pressing alto

Á frente da defesa, em vez de uma dupla de médios defensivos clássica, jogava com um trinco com capacidade táctica em recuar para central sempre que a equipa perdesse a bola, formando, nesse momento, uma linha de quatro no sector defensivo. Desta forma nunca perdia segurança defensiva, nem superioridade numérica mesmo contra equipas que jogassem com dois pontas de lança. Quem fazia esse papel era, geralmente, Lindenbergh, hoje no Ajax. A seu favor, tinha também a cultura de lugar do defesa-central clássico. Ora é muito difícil encontrar um jogador com estas características no futebol português. Talvez Costinha, mas já estava de partida. Foi por isso, que se tentou tanto a contratação de Fernado Meira no inicio da época. Ele sim, era um jogador indicado para essa função, pois tanto joga a libero como a trinco. No presente, outra opção seria o próprio Pepe, que no Marítimo jogara trinco, mas Adriaanse já o tinha colocado no eixo defensivo por ser o central mais rápido. Assim, a escolha recaiu em Paulo Assunção, hoje a âncora da equipa em termos de transição defensiva, tal a forma como se transforma em quarto defesa. Recuperada a bola, porém, pouco sobe no terreno e joga sempre curto para o médio mais próximo, Raul Meireles em geral, responsável, junto com Lucho, de outra missão crucial para a dinâmica defensiva do sistema: pressionar alto. Ou seja, procurar recuperar a bola em zonas o mais avançados possíveis do terreno. Uma missão que no AZ pertencia a Landzaat, com o chamado pressing construtivo em profundidade. É isso que fazem hoje Raul Meireles e Lucho no FC Porto. Depois, com a bola, um deles, Lucho, pode soltar-se para surgir depois na segunda linha do meio campo a distribuir jogo. Mas atenção: a missão de saída de bola para o ataque, a cargo sobretudo de Bosingwa, Assunção ou Raul Meireles, terá de ser feita, porém, quase de forma cirúrgica, pois se perderem a bola no inicio dessa transição, ainda no seu próprio meio campo, a equipa fica muito exposta pois é apanhada em contra-pé, com espaços de penetração abertos a permitirem contra-ataques muito perigosos do adversário. Com toda esta dinâmicas e sub-dinâmicas, o FC Porto saçta. no entanto, na ligação entre linhas, uma fase fundamental: a chamada zona de construção, espaço entre linhas, colocado entre a primeira linha de recuperação do meio campo (zona dos trincos-pivot) e a frente de ataque. Falta um jogo como Diego para colocar ordem no jogo, contemporizar a posse de bola, dominar os timings de recepção e passe, e servir de referência na construção e placa-giratórica no circuito preferncial de jogo que, sem um jogador destas caracteristicas, deixa de existir. NBo actual modelo, tal só se desenha quando Lucho sobe, queima-linhas, e surge nese sector, para, com a sua leitura de jogo e execução rápida, fazer a bola circular, mas, com esta movimentação defesa-ataque-defesa, o argentino fica sem clareza de movimentos , para além do inerente desgaste fisico, e o onze parte-se facilmente numa zona de criação chave onde muitas vezes até surge, num movimento táctico contra-natura, os pontas de lança Adriano ou Mcarthy. No fundo, faltam elos de ligação numa zona chave de construção.
Ponta de lança, o primeiro defesa

Mas, para se entender bem como a missão defensiva se estende por todo o campo, há um jogador que, nesse campo, merece análise atenta. O ponta de lança, ou um deles, no caso de jogar com dois, em 3x3x4. Quando a equipa perde a bola, em zonas adiantadas ele é o…primeiro defesa e, muitas vezes, é dessa sua primeira acção de pressing sobre o adversário que depende o princípio do pressing alto. A principal preocupação é nunca perder a ligação e o espaço entre-linhas. No FC Porto, essa missão tem sido desempenhada, nos últimos jogos, por Adriano. A tarefa é simples e baseia-se em conseguir mal o adversário recupere a bola, conseguir suster a saída rápida e, se possível, obrigá-lo a lançar a bola do lugar onde a tinha recuperado. Com esses breves instantes de pressing permite que as restantes linhas avançassem, pelo menos 10 metros. Caso contrário, o adversário pode aproveitar o desequilíbrio e obrigar toda a equipa a recuar. Com essa primeira zona pressionante bem feita, o espaço, pelo contrário, reduz-se e as linhas voltam a juntar-se.
Como deve reagir o adversário?

O grande risco dos sistemas puros de três defesas reside, portanto, no perigo da equipa ser facilmente apanhada em situação de desequilíbrio defensivo, em termos numéricos e de ocupação de espaços. Para o atacar, ou explorar as suas vulnerabilidades, é comum o treinador adversário colocar dois extremos abertos nas faixas para aproveitar a deficiente cobertura posicional e de espaço que é feia nos corredores. Com isso pretende forçar a equipa a alargar e, assim, abrir espaços de penetração. Isto é verdade, mas antes está um ponto prévio: como fazer chegar a bola jogável, em profundidade, a esses extremos? Foi isso, por exemplo, que o Braga, apesar de jogar em 4x3x3 e com extremos puros abertos, não conseguiu nunca fazer no Dragão. A razão esteve na incapacidade do seu corredor central pegar na bola em zonas interiores e fazer os passes longos diagonais no momento certo, quando as linhas adversárias estiverem desiquilibradas posicionalmente. Sem esta acção prévia de recuperação-posse-passe na zona interior, a simples presença de dois homens abertos nas alas não produz, por si só, qualquer efeito. Foi o que sucedeu a Jesualdo Ferreira no Porto. O Benfica, por sua vez, cometeu o erro inical dos seus extremos, por estarem trocados, Robert esquerdino na direira, Simão destro na esquerda, procurarem mais movimentos interiores do que profundidade tipica de extremos pela faixa. Ganharia, no entanto, o corredor central, onde teve sempre superioridade numerica, pois Paulo Assunção recuado foi quase sempre quaro defesa, ficando Lucho e Raul Meireles em inferioridade numerica frente aos avanços de Karagounis, Petit e Manuel Fernandes. Ganhando essa zona (de recuperação e construção) o Benfica ganhou o controlo do jogo perante a passividade de Adriaanse. Outtra questão, é se o adversário jogar com dois pontas de lança, pois neste caso, obriga ao recupo do tal trinco para junto dos centrais em acções de marcação, ou, em alternância, à constante basculação interior de um defesa. Ambas as soluções desiquilibram a dinâmica do sistema. Foi isso, aliás, que Adriaanse fez quando vendo o Braga inserir um segundo ponta de lança, de imediato reagiu metendo um segundo defesa central, Bruno Alves, passando a jogar a «4». Com isto, ganhou um defesa para o combate aéreo, mas perdeu o equilíbrio entre-linhas, que podia ser mantido se, por exemplo, transforma-se o 4x3x4 em 3x4x3, com a entrada de um médio, para assim a gerir a posse ou não de bola, a única forma, afinal, de controlar um jogo.
VITÓRIAS HISTÓRICAS COM SISTEMAS DE TRÊS CENTRAIS.
Para quem olha para as folhas de registos das equipas e resultados repara, porém, que em anteriores clássicos Benfica-FC Porto ou FC Porto-Benfica, já outros treinadores tinham esboçado, com sucesso, sistemas de três defesas. Independentemente do mérito táctico evidenciado, não é, no entanto, bem assim. Em ambos os casos, estivemos perante três centrais e não três defesas, e, por vezes, os laterais tinham missões de transição defensiva que faziam que, sem bola, a equipa passa-se a formar uma linha de cinco defesas. A atacar, porém, soltava-se uma variante do sistema de três defesas. Vejamos dois casos históricos em que tal sucedeu:
O FC Porto de Oliveira

No FC Porto, o grande momento em que, jogando num sistema de três defesas logrou uma exibição e um resultado histórico, sucedeu em 1996, na segunda mão da Taça na Luz, esmagou o Benfica por 0-5! Nessa noite, treinado por Oliveira, alinhou em 3x2x3x2, na variante 5x3x2: três defesas (João Manuel Pinto, Jorge Costa e Lula, libero), laterais a subir (Sérgio Conceição-Fernando Mendes) três médios (Paulinho Santos, mais recuado, Wetl e Zahovic mais soltos) e dois avançados que partiam das alas em diagonal (Artur-Edmilsson). O mesmo sistema e onze (substituindo J. Pinto por Aloísio) que poucas semanas antes ganhara em Milão (2-3) para a Liga dos Campeões.
O Benfica de Eriksson

Quando regressou a Portugal, nos anos 90, Eriksson voltou a surpreender com um sistema de três defesas no FC Porto-Benfica que decidiu o título 91/92. Nessa tarde, Eriksson alinhou numa espécie de 3x4x1x2, com variante 5x3x2: 3 defesas (William-Paulo Madeira-Ricardo), laterais ofensivos (Paneira-Veloso), dois trincos (Paulo Sousa-Thern), um médio ofensivo (Valdo) e dois avançados (Rui águas, ponta de lança e Pacheco, extremo. Um sistema que manietou Artur Jorge e, perto do fim, venceu o jogo com dois golos de César Brito.
Símbolos da escola holandesa de três defesas

Apesar de idolatrados, são raros os trunfos internacionais de equipas a jogar com três defesas. As duas últimas equipas a vencer a Liga dos Campeões nesse modelo foram ambas de Hitzfeld. A variante era porém diferente da holandesa, pois, na prática, eram três centrais. Foi o Bayern Munique, em 2001, com Kuffor, Anderson e Linke atrás, apoiados pelos laterais Sagnol e Lizarazu, que recuavam para fazer uma linha de «5» defesas, e o Borussia Dortmund, em 1997, com Sammer, Kohler e Kree na defesa. A maior referência dos tempos modernos em 3x4x3, é, porém, o Ajax de Van Gaal, campeão em 95, jogando no sistema puro de três defesas: um central (De Bóer) e dois laterais (Reiziger-Blind), apoiados por um meio campo zonal -com Rijkaard, Davids, Seedorf e Litmanen- e três avançados na frente, R. De Boer, Finidi e Overmars. Mas, o grande símbolo romântico da defesa a «3» permanece o Barcelona de Cruyff, campeão europeu em 1992. Na final, os três defesas foram Koeman (central) e (Nando-Ferrer laterais) segurados por um pivot de grande classe (Guardiola). A saída de jogo era feita, nas alas por Eusébio e Juan Carlos. Um sistema ofensivamente espectacular mas descompensado nas transições ataque-defesa. Perante equipas tacticamente sábias, sentia falta de referências defensivas, como na final da Taça dos Campeões de 1994, goleado pelo Milan (0-4).
AS GRANDES BASES DO 3X4X3 OU 3X3X4 DE ADRIAANSE; A DIFERENÇA ENTRE VÁRIOS MODELOS DE TRÊS DEFESAS, E A MEMÓRIA DE EQUIPAS COM OUTRAS VARIANTES DO SISTEMA.