É o único momento em que o jogador pode jogar a bola com as mãos e por instantes até deixa de existir fora-de-jogo. Só esses aspectos podiam fazer desse momento um dos mais importantes do jogo, mas raramente vemos alguma preocupação especifica com ele como arma ofensiva ensaiada das equipas. Penso nos lançamentos de linha lateral. Quanto mais próximos eles forem da área adversária maior seria a importância que lhes deveriam dar. Quando há anos surgiu um treinador espanhol a defender como eles podiam ser decisivos, muitos viram-no como mais um teórico. Era Benito Floro. O debate passou tão rápido quanto o tempo, curto, que Floro durou nos grandes clubes. A importância do lançamento de linha lateral renasce agora vendo o impacto que está a criar em Inglaterra um jogador que sempre que os executa quase dá meio-golo à equipa. É Rory Delap, joga no Stoke e a partir dos seus lançamentos a equipa já fez esta época 7 golos em 11 jogos. Decompostos, esses lançamentos atravessam 38 metros do campo a uma velocidade de 60 km hora. Para os tornar mais terríveis, em vez de bombear a bola na área, coloca-a tensa e potente quase em linha recta.
Mais do que este poder de colocar a bola directamente na área, fora do controlo dos defesas, o lançamento de linha lateral esconde, no entanto, outras formas únicas de confundir as marcações, pela forma como ilude o fora-de-jogo que as condiciona no resto do jogo. É uma oportunidade de congeminar desmarcações imprevisíveis que combinadas com outros movimentos sem bola, pode criar desequilíbrios nas defesas/marcações adversárias como em mais nenhuma outra altura no jogo. Por isso, causa-me tanta estranheza que tantas equipas desprezem essa sua especificidade.
É comum por vezes avaliar a qualidade do treino de um treinador pela quantidade de jogadas ensaiadas que depois as equipas apresentam em campo. É quase impossível descobrir um que se destaque pela arma ofensiva dos lançamentos de linha lateral, salvo quando surge um jogador com força para a colocar directamente na área.
Delap vive quase no meio caminho destas duas ideias pois não se limita a colocar a bola na área. Quando ele se prepara para fazer o lançamento, as movimentações dos jogadores na área já revelam estratégia particular.
O facto de o conseguir numa equipa modesta prova mais como esses lances podem alterar o curso normal de um jogo, como se viu nos dois golos saídos dos seus lançamentos com que o Stoke bateu o Arsenal do futebol bonito de toque e passe. Naqueles momentos, porém, quando a bola sai das mãos de Delap, nada disso tem importância. Estamos num jogo à margem do jogo principal. Só por isso vale a pena seguir o próximo jogo do Stoke. O especifico, sobretudo.