A razão do estilo

16 de Outubro de 2008
Vendo esta Espanha parece que estamos a ver uma equipa de andebol a atacar tal a forma como a bola vai de flanco para flanco.

 

Com as montanhas cobertas de gelo atrás de uma baliza, o Islândia-Macedónia até parecia melhor jogo. No Planeta do futebol, o Laugardalsvollur Stadium de Reykjavik era dos cenários mais românticos de apuramento para o Mundial. Pandev e Gudjhonssen, vindos de outro mundo, levam o jogo para outra dimensão, mas é um pequeno avançado que faz lembrar na morfologia e estilo o velho Papin que faz o golo da vitória. Gunnarson, um goleador do frio anónimo da elite europeia. Vejo o jogo num canal islandês e é quando pouco depois viro para outra latitude que se percebe as disparidades do mundo futebolístico. Em cena, Xavi, Iniesta, Cazorla, Fabregas e uma bola sorridente rente à relva. O futebol espanhol criou por fim um estilo. Não existe maior tesouro para o futebol de um país. Descobrir a sua identidade.
 
Em Bruxelas, uma lição de como reagir a um jogo que começou mostrando a face renovada do futebol belga. A actual Bélgica é dos casos mais interessantes para perceber o que é uma reconstrução em termos de selecção. Depois de uma crise geracional, tenta resgatar o perfume dos anos 80 com uma nova casta de jogadores que tem a mesma filosofia de jogo desses antepassados de sucesso. Defesa alta, fazendo o fora-de-jogo, laterais a apoiar, meio-campo a dois-três toques e contra-ataque rápido com desmarcações para bolas longas metidas nos espaços vazios.
Mantêm este modelo mudando o sistema (na Turquia, com defesa «4» clássica, contra a Espanha com defesa a «3»). Fellaini, 20 anos, manda no meio-campo, Witsel, 19, e Vanden Borre, 20, fazem a faixa direita, Vermaelen, 22, fecha a esquerda, Kompany, 22, dá estilo à defesa, Vertonghen, 21, enche o meio campo. Faltou apenas Dembele, 21, no ataque. Só um onze inteligente a circular a bola nas costas podia fazer dançar esta estrutura. É a movida espanhola.
Vendo esta Espanha a atacar tenho muitas vezes a sensação de que estou a ver uma equipa de andebol a atacar, tal a forma como a bola vai de flanco para flanco, até se descobrir uma espaço de penetração e…zás, golo! 
 
Nestas referências de futebol circular, é tentador acabar a espreitar a Holanda. Vejo-os jogar na Noruega, onze combativo com cinco médios, e parece que vejo jogar duas equipas. A razão está no nível técnico tão diferente ente os sectores. Van den Vaart refina o centro a organizar e criar ao mesmo tempo, lançando três pontas-de-lança com dois deles (Kuyt e Babel) colocados nas faixas, ficando a n9 Huntelaar. A sensação incómoda vem da linha defensiva a «4» (Marcellis-Ooijer-Mathijsen-Van Bronckhorst) sem a mesma técnica dos seus antepassados. Sem grande classe na condução de bola desde trás, esta Holanda perde muito da uma identidade total de bom futebol.   

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