A realidade não tem limites

21 de Agosto de 2010 20:20
Como nasceu este sensacional Sp. Braga? Domingos fala na construção do sonho, mas, no fundo, esta explosão bracarense é apenas o espelho perfeito de tudo o que rodeia…

 

De repente, após dias a queimar com mais de 40 graus, Sevilha parecia, no fim da noite, ter passado a fazer sentido. Foi quando, no meio da confusão da saída do Estádio Sanchez Pizjuan, se começou a ouvir o som do samba. Viraram-se os olhares e eis Leandro Salino, com um sorriso malandro e um rádio debaixo do braço, abandonando o balneário rumo ao autocarro, deixando à sua passagem o volume dos batuques quase no máximo. O toque brasileiro deste Braga é, porém, apenas um traço de um cokctail de talentos que, a cada jogo, se expressam com uma linguagem comum.
À medida que a aventura avança, Domingos fala na construção do sonho. Este sonho de futebol tem, porém, bases reais, jogadores de “carne e osso” que em campo pensam todos a mesma coisa ao mesmo tempo. Mas, se a explosão no relvado é visível, mais complexo é detectar o que, fora dele, faz este projecto bracarense. Será um fenómeno conjuntural ou é mesmo um “grande” que está a nascer?
 
Questionar se é um crescimento sustentado leva a buscar as bases de uma história com sete anos, tempo da gestão do presidente António Salvador, que, sem ruído, saiu, das profundezas do “mundo bracarense” (entenda-se a cidade e seus poderes) para abalar o status futebolístico português historicamente macrocéfalo. 
O cruzamento entre o “tecido empresarial de cimento” mais forte da região, com o beneplácito municipal, e uma política desportiva que entendeu o novo “futebol dos empresários”, movendo-se no mercado através de uma relação privilegiada com o seu representante mais forte, foi a moldura perfeita para, sabiamente, com uma rigorosa gestão financeira, congeminar este novo fenómeno bracarense. No fundo, este sensacional Braga e seu cruzamento de poderes, espelha a idiossincrasia social, política e empresarial que marca a toda própria cidade. As próximas épocas, projectam um aumento desse poder competitivo, agora reforçado com os milhões da Champions.
 
A dúvida que se pode colocar ultrapassa a equipa e está na realidade que a precede: o próprio clube. Isto é, a oportunidade de, aproveitando este momento histórico, criar riqueza própria que, no futuro, assegure a manutenção do estatuto de “grande” quando um dia todas aquelas condições um dia se esfumarem. Ser o “quarto grande” não só circunstancialmente por resultados desportivos (como já foram Boavista, Guimarães ou até Belenenses) mas sim pelo poder estrutural do clube, mesmo quando a bola não entrar. O facto de não procurar esse património, também evita, porém, projectos de endividamento como sucedeu com o Boavista, que caiu, depois, por não suportar esse enorme peso. É uma encruzilhada histórica. Sustentar o estatuto, fugindo aos perigos das “crises de crescimento”.  
 
No relvado, época após época, jogadores e treinadores antes desprezados, saem depois como grandes referências do nosso futebol. Neste processo, o primeiro responsável surgiu no fim da época de 2002/03: Jesualdo Ferreira. Nesse ano, o Braga não desceu por um ponto. Nas três épocas seguintes, regressou à Europa e em 2005 entrou na luta pelo título até ao final. À saída do professor, seguiu-se uma “tempestade” de treinadores, mas mesmo assim o Braga manteve-se sempre na Europa. O nível competitivo mais alto regressou com Jesus e prosseguiu com Domingos, numa transição pacífica entre dois treinadores de diferente perfil (táctico e humano). Pelo meio, muitos jogadores. De João Tomás, Nem ou Wender, até Alan, Moisés e Matheus. Cruzando todos eles, um incansável viajante dos relvados, Vandinho, “âncora e relógio” da equipa. Por tudo isto, o rádio de Salino em Sevilha é um traço engraçado que diz como Domingos e o Braga podem continuar a sonhar. Porque, a realidade não tem limites!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Como joga
o Braga
 
 
Existem, claro, defesas, médios e avançados, mas o segredo é como todos invertem posições conforme a equipa tem a bola (partindo para o ataque) ou perde a sua posse (passando a defender). A melhor forma de perceber este “futebol completo” bracarense é seguir com atenção os movimentos dos alas-extremos Alan ou Paulo César e ver como eles tanto soltam imaginação a atacar como depois recuam a defender. Numa equipa que perdeu as asas ofensivas que eram na época passada os seus laterais (João Pereira e Evaldo) a missão dos extremos cresceu este ano. Dos novos laterais que entraram, Sílvio, reciclado à direita, é aquele que tem tudo para no futuro se tornar uma referência do nosso futebol nessa posição.
Mas, afinal, como joga este tão elogiado Braga de Domingos? Em termos de estrutura (posicionamento inicial dos jogadores em campo) Domingos não mexeu na sua táctica preferencial, o 4x2x3x1, mas procurou, na pré-época, que a equipa aprendesse a jogar noutro sistema, próximo do 4x4x2. Viu-se em Sevilha essa versatilidade quando na segunda parte, na intenção de “esticar” mais a equipa a atacar, Domingos trocou Luís Aguiar, o médio mais ofensivo por um avançado puro, Lima, dando nesse caso mais liberdade de movimentos a Matheus. Ou seja, mexendo apenas uma “peça” (um jogador) do seu onze, consegue uma espécie de upgrade táctico ofensivo.
 
Em síntese, Domingos, no seu primeiro ano, construiu a equipa respeitando as bases deixadas por Jesus. No segundo ano, reconstruía-a a partir das suas ideias. Entraram jogadores novos e a qualidade de jogo manteve-se, mas, neste processo de transformação, entre este Braga de Domingos e o de Jesus já não existe qualquer ponto de contacto. São ideias de jogo muito distintas. A actual poderá não ser tão atraente ofensivamente no plano estético, mas é mais “italiana” na forma como tenta gerir os jogos, escondendo a bola, ou não se importando de viver sem ela, empurrando a posse adversária para zonas longe da sua baliza. Nessas alturas a equipa quase que “descansa” no jogo, espera o timing certo para a recuperação e, depois, lança o contra-atque, soltando as suas mudanças de velocidade. Para tudo isto ser possível, os avançados transformam-se em defesas (fechando espaços) sem bola, e os jogadores aparentemente mais defensivos (como Vandinho e, sobretudo, Salino) tornam-se, com bola, em operacionais atacantes.
 
 
 
 
 
 
Os homens
do sonho
 
 
É a frase que melhor define uma boa equipa de futebol. Foi dita por Menotti, treinador argentino, que a define como um conjunto de “pequenas sociedades”. A equipa quase que se forma numa lógica de duplas que, no jogo, vão combinando entre si ao longo do relvado. Uma interligação que respeita sobretudo as posições mais próximas uma das outras, por cada específico por onde a equipa se move. A “pequena sociedade” da dupla de avançados, a sincronização da dupla de centrais, a complementaridade dos dois médios mais defensivos. Seguindo o onze do Braga, podem-se detectar muitas dessas “pequenas SA`s” de bom futebol. 
 
 
 
Moisés-Rodriguez
 
A colocação de ambos no terreno dá quase a sensação que eles jogam ligados por uma “corda invisível”, tal a sincronização de movimentos e perfeito sentido posicional que revelam para, sobretudo na hora dos cruzamentos adversários, estão sempre no caminho certo para cortar a bola, imperais no jogo aéreo (mais especialidade de Moisés) como nas antecipações e dobras (mais o estilo de Rodriguez). A eleger um líder é Moisés. Fala e grita o jogo todo, dando indicações a colegas (quem o conhece diz mesmo que “relata” o jogo em campo como se estivesse na rádio). Rodriguez é o oposto. A serenidade com duas pernas. Pouco fala, ao ponto de o conhecerem como El mudo
 
 
Vandinho-Salino
 
São uma espécie de relógios tácticos da equipa. À frente da defesa, controlam os equilíbrios defensivos e, depois, buscam o espaço certo para o primeiro passe da transição defesa-ataque. Nessa missão, Vandinho fica mais preso, fazendo passes curtos, deixando para Salino a missão de sair com a bola. À medida que avança no terreno até parece que cresce, ao ponto de quando chega à área adversária já ser um gigante. Acredito mesmo que aproximando-se dele deve se ouvir um roncar de um motor. Na posição mais táctica de uma boa equipa do futebol moderno (o espaço dos trincos e pivots), o Braga tem dois jogadores que lêem o jogo pelo menos 5 segundos antes de todos os outros em campo.
 
 
Alan-Paulo César
 
No papel, seriam meros extremos para explodir a atacar. No relvado, são muito mais do que isso. Ambos sabem meter velocidade no jogo, mas é curioso notar que o momento em que mais desequilibram é quando numa jogada de ataque fazem um momento de pausa com a bola (a chamada “temporização”) olham em sua volta e, depois, ora arrancam no um para um, metendo imaginação (Alan) no jogo, ora buscam um espaço vazio e procuram passe ou remate (Paulo César). Depois, perdida a bola, recuam a defender, ajudando os laterais a fechar o flanco, tornando-se em meros operários. É cultura táctica, algo invulgar em extremos, rebeldes por natureza. Alan e Paulo César têm as duas coisas.
 
 
 
Matheus-Lima
 
A velocidade como forma de marcar a diferença num jogo. É esta a melhor forma de definir Matheus, antes disto visto como um mero extremo rápido para entrar na segunda parte quando os espaços livres tinham aumentado e os adversários estavam cansados, mas hoje transformado num avançado móvel completo, capaz de jogar entre os centrais, e, esquivo, buscar o espaço certo para se desmarcar e fazer golos. Com Lima a seu lado, ou deambulando em seu redor, encontra outro jogador móvel, mas mais de área, para combinar. O segundo golo em Sevilha é uma lição de contra-ataque para gravar em DVD. 

 

 

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