A revolta do Ghana: Magia pragmática

28 de Junho de 2005
É uma das nações tecnicamente mais talentosas do futebol africano. Um paraíso de artístas. Nunca conseguiu, porém, qualificar-se para um Mundial. No momento em que esse sonho está a apenas dois jogos de distância, mesmo que a magia inata tenha se tornado tacticamente mais realista, a análise á selecção do Ghana,
Para os seguidores mais atentos do futebol africano, um dos maiores enigmas reside no facto de uma das suas selecções tecnicamente mais talentosas, o Ghana -onde nasceu, por exemplo, Abdy Pele, o nº10 malabarista, estrela dos anos 80/90, a quem todas as camisolas ficavam grandes - nunca ter atingido a fase final de um Mundial. A dois jogos do fim da qualificação para 2006, nunca esse feito esteve tão perto, sobretudo após a sensacional vitória na África do Sul, destronando os «bafana, bafana» o primeiro lugar. Após ter começado esta campanha sob orientação de Mariano Barreto, a selecção ganesa é hoje treinada elo sérvio Ratomir Dujkovic, um trota-mundos que antes orientara o Rwanda. A estratégia e exibição esplanada na relva de Joanesburgo, quando todo o Estádio se preparava para festejar a vitória sul-africana, foi a prova definitiva do valor deste novo onze ganês. Entrando a jogar numa postura cautelosa, Dujkovic esquematizou a equipa num conservador 4x1x4x1 que a defender se transformava num rochoso 5x4x1, fruto do recuo do trinco Issah para entre os centrais Pantsil e Mensah, formando assim uma linha de cinco defesas, apostando depois na subida dos laterais nos lances de contra-ataque. As transições defesa-ataque-defesa tinham, no entanto, um nome próprio: Essien, o magnifico volante do Lyon. É ele o patrão e motor do Ghana, primeiro coordenando a defender e, depois, lançando depois o ataque, para o qual conta como o apoio do experiente Apiah, mais descaído sobre a esquerda. Nas faixas, Asamoah e Muntari, ora como médios-interiores, ora como flanqueadores, também interpretam com rigor os movimentos defesa-ataque. Na frente, o solitário ponta de lança Amoah. O ponto de partida táctico foi sempre, no entanto, a contenção defensiva. Aguentou a pressão da África do Sul, foi segurando o 0-0 e, já no segundo tempo, começou a soltar-se no contra-ataque, acabando por fazer dois golos quando a ansiedade já dominara os sul-africanos. Ou seja, ironia do destino, o Ghana do futebol bonito consegue a histórica vitória que o pode levar, por fim, á fase final de um Mundial, na tarde em que a sua arte técnica cedeu, em termos de abordagem do jogo, ao pragmatismo táctico. São estas, também, as leis do novo futebol africano. Magia pragmática.

Ghana: o onze que venceu na África do Sul

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