A selecção espanhola: Que identidade?

29 de Junho de 2003
De todas as nações latinas, o futebol espanhol é aquele, fruto da diversidade de estilos que habitam as suas diferentes regiões, menos possui uma identidade própria. Não há, por exemplo, qualquer ponto de contacto entre o jogo técnico da Andaluzia, jogado sob forte calor, e o de passe longo, quase britânico, do País Basco, criado sob forte chuva. Mais do que um estilo, a fúria era um estado de espírito. Os recente desaires da sua selecção, eco final dessas contradições estilísticas, recolocaram a questão sobre qual o valor do actual onze nacional hispânico.
Observando os jogadores ao dispor e as opções de Inaki Sáez, conclui-se que, um dos pontos mais débeis, situa-se hoje na defesa, onde, por exemplo, faltam laterais de categoria indiscutível, sobretudo face á opção de fazer alinhar Puyol, defesa direito do Barcelona, como central, ao lado de Helguera ou Marchena, suplente no Valência. Desta forma, surge, na direita, o aguerrido Michel Salgado. Na esquerda, as opções são Raúl Bravo, suplente no Leeds, ou Juan Fran, do Celta, bom jogador mas apenas de apoio, raramente causa desiquilibrios. A organização meio campo-ataque, depende muito da táctica adoptada.
O sistema em que Sáez mais crê é o 4x2x3x1, como jogou na Irlanda (0-0). Contra a Grécia (0-1) optara, no entanto, pelo 4x3x1x2. Apesar de possuir um bom grupo de pontas-de-lança (Torres, Morientes, Tristán, Luque...), Saéz cede muitas vezes á tentação de colocar Raúl no centro do ataque, o que, em 4x2x3x1, como sucedeu em Belfast, faz com que, na prática, jogue sem um nº9 clássico. Com o doble-pivot Sérgio-Baraja imutável, a zona criativa do onze mora no meio-campo, esse sim, o lugar ideal de Raúl, como enganche ofensivo com o homem mais avançado. A seu lado, dois alas, Vicente e Etxeberria,.
Apesar de esforçados, apenas agravam os problemas sentidos, desde a defesa, nos flancos, zona onde faltam rompedores e começa a ser enigmático o sub-rendimento de Joaquín. Em 4x3x1x2, a solução seria avançar Raúl e colocar Valerón como orquestrador. Mesmo sem ganhar, foi o sistema no qual jogou melhor, revelando-se mais dinâmica e inteligente nas verticalizações com bola e nas diagonais sem ela. Numa análise global, a Espanha, apesar das carências, revela, hoje, muito maior qualidade de jogo do que, por exemplo, a Alemanha, também a viver dias difíceis, mas, ao contrário dos espanhóis, sempre capaz de, com a sua superior frieza mental, superar as fraquezas técnicas. Por seu lado, a Espanha, tipicamente latina, agoniza com a insustentável leveza do seu ser, e, apesar de dominar 90 minutos, não consegue libertar-se da ansiedade competitiva que, historicamente, sempre a atraiçoou nos momentos decisivos.

Artigos Relacionados

  • NOTAS 2011/12 (34) NOTAS 2011/12 (34) 24 de Março de 2012 1. Viana e a selecção; 2. Recuar para...atacar; 3. Buscando espaços
  • África: bola, relva e táctica África: bola, relva e táctica 19 de Fevereiro de 2012 A Zambia e o CAN 201, equipas e reflexões: Qual o momento do actual futebol africano?
  • NOTAS 2011/12 (24) NOTAS 2011/12 (24) 19 de Janeiro de 2012 1.A Adaptação da época; 2. Djaniny e o Leiria; 3. A intenção e a prática
  • NOTAS 2011/12 (20) NOTAS 2011/12 (20) 17 de Dezembro de 2011 1. `Vir buscar a bola atrás`; 2. Porque Alan explodiu tarde?; 3. O ultimo lugar do Paços
  • Onde estão as estrelas? Onde estão as estrelas? 9 de Dezembro de 2011 Viagem pelo “fútbol” argentino: como joga o Boca, o River na II Divisão e os golos de Gutierrez