A Sérvia de Clemente

27 de Março de 2007
Liderada por um espanhol temperamental, Javier Clemente, a selecção sérvia mantêm os traços virtuosos e lutadores que fizeram a sua velha escola jugoslava famosa no mundo. Renovou a equipa, mas mantêm as mesmas dinâmicas, com velocidade, técnica e alas.
Quando, em Agosto de 2006 assumiu o comando da selecção Sérvia, Clemente encontrou a equipa ainda abalada pela frustrante participação no Mundial 2006. O seu primeiro jogo, um particular na Republica Checa, foi o inicio da renovação. Afastou monstros como Milosevic, Kezman, Djordjevic e Kovacevic, montou um onze jovem, com média de idades inferior a 25 anos e cinco titulares com menos de 23 anos. A reestruturação começou na defesa, com o guarda-redes voador Stojkovic a substituir o veterano Jedric, e as entradas de Markovic, lateral-direito, Stepanov, central, e Lukovic, lateral-esquerdo, saindo Gavranic e Dudic, antigos titulares. Sem Djordjevic, emergiu Stankovi como o novo patrão da equipa. No ataque, lançou o jovem gigante Zigic e recuperou os rebeldes Pantelic e Lazovic. Venceu na Republica Checa 3-1 e no apuramento para o Euro-2008 somou vitórias, afugentando a desconfiança dos que não gostaram de ver um estrangeiro à frente da selecção sérvia. A derrota no Cazaquistão, onde alinhou um meio-campo diferente do habitual abalou o seu estado de graça.

Lazovic e a ausência de Zigic

Expulso no Caquistão, Zigic não defronta Portugal. É uma boa razão para os centrais lusos sorrirem. Mas atenção. No seu lugar, ao lado de Pantelic, deve jogar Lazovic, um rebelde do futebol sérvio. Estreou-se selecção principal com apenas 18 anos, em 2002, contra o Brasil no Maracanã e toda a Europa ficou de olho nele. Não aguentou, porém, essa ascensão meteórica, falhou no Feyenoord e no Leverkusen. Regressou ao Partizan e, agora, no Vitesse, na Holanda, voltou aos golos (17 em 28 jogos). No estilo, a Sérvia é uma equipa agressiva na luta pela bola, tenta aumentar a velocidade na transição defesa-ataque e joga sempre com alas bem abertos. Tenta atacar pelos flancos e mal surge espaço cruza para a área. Para tal conta com alas rápidos e lutadores, como Trisovic na esquerda e Koroman na direita, para além das deambulações de Stankovic. Os laterais também auxiliam, subindo ao ataque. Sem Zigic na área, o jogo aéreo fica, no entanto, afectado. Em alternativa, apostará no recuo estratégico de um dos avançados, Pantelic, para entrar depois desde trás. A defender, Kovacevic, fixo atrás, sozinho ou com o apoio de Duljaj é a grande referência.

DOIS JOGOS, DUAS EQUIPAS, DUAS IMAGENS

Contra a Bélgica, na máxima força

Embalada pelo inferno que se costuma viver no Maracanâ de Belgrado, a Sérvia cresce muito nos jogos disputados em casa. Mais agressivos, velozes e pressionantes sem bola. O jogo com a Bélgica foi um exemplo dessa dinâmica. Partindo de um clássico 4x4x2, que, com bola e a subida de Stankovic, virava 4x1x3x2, alinhou uma experiente dupla de centrais (Vidic-Krstajic) e libertou os laterais para subir e triangular com os alas, quase verdadeiros extremos. Nesse sentido, destaca-se o canhoto Trisovic no flanco esquerdo. Elegante, entra muito bem desde trás, lendo os espaços livres e surge para centrar ou rematar. Na direita, Koroman é mais vertical, assume o um para e centra. O equilíbrio colectivo é garantido por Nenad Kovacevic, o pivot-defensivo que liberta Stankovic para, vagabundo, surgir na zona de construção atrás dos avançados a rematar, com Zigic mais em cunha e Pantelic, móvel. Quando entra Lazovic, sucede o inverso, mas perde-se poder aéreo. Sentiu algumas dificuldades nos últimos 20 minutos quando a Bélgica pressionou em busca do empate. Sem grande jogo de cintura, a defesa, sobretudo os centrais, ficou confundida com a maior velocidade dos avançados belgas. Um factor a ser explorado pelos mágicos portugueses.

No Kazaquistão, meio-campo alterado

Sem Stankovic, castigado, Clemente manteve a estrutura, mas alterou a composição do meio-campo. Kovacevic permaneceu na sua posição, mas nas costas dos avançados Zigic-Pantelic surgiu um trio menos utilizados: Krasic, Jankovic e Ergic, os dois primeiros estreantes em jogos oficiais pela selecção. Krasic jogou como ala direito. Rápido, mas sem gerir as compensações defensivas, perdeu o controlo desse espaço. Ergic e Jankovic sobrepuseram-se muitas vezes nas mesmas zonas do terreno. No estilo, são jogadores diferentes, mas, em campo, gostam de pisar os mesmos espaços, o centro. Faltou, assim, o ala esquerdo natural que seioa Trisovic, algo agravado por, nesse lado da defesa, ter-se estreado o lateral Tosic, apanhado quase sempre desamparado a defender. Ergic nunca pegou na bola e só quando foi substituído por Koroman e a equipa voltou a conseguir alargar o jogo, conseguiu criar perigo. Jankovic é um organizador típico, mas ainda sem carácter para liderar o onze como Stankovic. Depois de quatro jogos positivos, Clemente, no Cazaquistão, mexer no onze base e, sem os seus médios ofensivos de referência, no centro e nas alas, a dinâmica de jogo da equipa ressentiu-se e acabou por, naturalmente, perder o jogo.

ESTRELAS SÉRVIAS A SEGUIR

 

NEMANJA VIDIC

Posição: Defesa-Central Idade: 25 anos (21-10-81) Clube: Manchester United Fisicamente robusto (1,88m. e 82kg.) mas tecnicamente dotado, forte no jogo aéreo, a marcar em cima ou nas dobras, agressivo nos lances divididos, sem medo do choque, possui ainda sentido posicional. É o comandante a defesa.

NENAD KOVACEVIC

Posição: Médio defensivo Idade: 26 anos (11-11-80) Clube: Lens É a âncora da equipa, o garante dos equilibrios defensivos. Recupera, intercepta linhas de passe e, com a bola, joga simples, iniciando a transição defesa-ataque. Marcando Kovacevic, impede-se a Sérvia de começar a pensar desde trás

DEJAN STANKOVIC

Posição: Médio Idade: 28 anos (11-9-78) Clube: Inter A grande referência da equipa. Carácter e liderança. Mesmo quando parte da ala, como faz no Inter, flecte no terreno e organiza jogo, passa ou remata. Sabe também jogar do centro para a faixa, o que faz na selecção, e cruzar com perigo.

MARKO PANTELIC

Posição: Avançado-centro Idade: 28 anos (15-9-78) Clube: Hertha Berlim Um avançado renascido. Está num fabuloso momento de forma. Lutador e tecnicista, excelente a movimentar-se entre os defesas adversários, fugindo muito bem às marcações e com facilidade de remate, aproveitando os espaços vazios.

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