O melhor futebol é aquele que, em campo, coincide com a arte e as ciências exactas. O sistema (4x3x3, 4x4x2…), a preparação física (correr, travar, correr), o talento (tratar a bola). Poucos jogadores encontram a sorte de conseguir jogar como sonhavam ser capazes. É humano. Lisandro é o tipo de jogador que contraria as aparências. Ri-se mesmo delas. Porque o seu futebol, naqueles três pontos, vai muito mais longe do que as suas condições físicas pareciam, por principio, autorizar-lhe. Está longe de ser um monstro físico, mas poucos jogadores “comem” o jogo como ele nos nossos relvados. O golo que marcou ao Setubal na ultima jornada, quando a pressão do relógio já se transformara numa nuvem escura sobre o relvado dragoniano, pareceu ter o dom de fazer parar os movimentos de todos que seguiam o jogo. Os jogadores (colegas e adversários), no relvado, os adeptos (na bancada ou em casa a ver pela televisão). Será que o árbitro interrompera o jogo? Terão pensado alguns. Não, num ápice, Lisandro tinha levado o jogo (a bola, e a arte e a ciência) para o seu mundo (físico e talento) muito particular. O toque que transforma o problema mais complicado na solução mais simples, surpreende todos. Golo. Dócil e artisticamente sereno. Os grandes jogadores são assim: Mentirosos. Iludem o jogo com o seu ar despreocupado, enganam o adversário com a sua composição atlética vendedora de ilusões.
Têm, no entanto, as leis básicas do jogo na cabeça (arte+ciência) e, com isso, brincam com a sua lógica. Os corações desenhados por Liedson a cada golo que marca, são dedicatórias que, para além de emocionarem a namorada, seduzem o futebol. A bola, mesmo com os seus caprichos, costuma respeitar quem a trata desta forma. Na capacidade de a meter no jogo, nenhum outro avançado acelera melhor que Liedson nos nossos relvados. Percebe as condições indispensáveis para mudar de ritmo. Porque entende as diferentes zonas perto ou dentro da área, porque entende que tem colegas ao lado (o centro-passe para Postiga), porque, em síntese, entende os conceitos do jogo, pela arte e pela ciência. Os treinadores olham para estes avançados em forma de jogadores com «J» muito grande e ficam com o olhar mais claro. Paulo Bento perde a ansiedade e Jesualdo desmonta o ar carrancudo para soltar um sorriso.
Óscar Cardozo, noutro mundo particular, também tem essas virtudes na cabeça, embora o seu corpo dê outro indícios e, depois, também as expresse de forma distinta. Em vez de criar espaços, aproveita espaços. Se a equipa (e o plano do treinador) não contemplar este lado construtivo do jogo colectivo, o futebol individual de Cardozo escapa, em campo, ao plano colectivo. Vive preso a uma imagem antiga. Aquela em que jogadores com boa capacidade técnica são considerados algo torpes só por não terem a agilidade corporal mais esteticamente sedutora. O sangue frio de Cardozo, o pé esquerdo bomba-relógio, e a percepção sensorial sobre onde vai cair o jogo, fazem daquela imagem uma boa mentira para contar aos adversários em campo. É preciso que o treinador também a saiba manejar.
O campeonato, a porta do titulo, ainda tem um “buraco da fechadura” por onde se pode espreitar. Desde a serenidade, as equipas e os seus jogadores (os completos e os discípulos) tem a vantagem de falar só de futebol. As que caem noutro alçapão no relvado, perdem o essencial e é difícil, depois, saírem de lá. Muitas vezes, basta um segundo de talento para derrubar oitenta e nove minutos de esforço. Não sei se isto é mais fascinante ou cruel. Será as duas coisas. Como o futebol. Emoções contraditórias, simultâneas, em planos opostos. Como Lisandro, Liedson e Cardozo explicam em cada jogo. Com mentiras permanentes. É o futebol clássico. O da arte e o da ciência.