A “trivela” na catedral da moda

4 de Agosto de 2008
Jogar em Itália é como fazer um MBA táctico para um futebolista. Na aventura italiana de Mourinho, o supremo desafio de dar “nova vida” ao talento de Quaresma.

 

No inicio dos anos 60, quando chegou a Milão, ao balneário do Inter, seguindo as suas aventuras de treinador de futebol “trota mundos” do futebol, Helenio Herrera, para uns El Mago, para outros El Diablo, escreveu no quadro pendurado na parede: classe + preparação atlética + inteligência = Scudetto (campeonato). Essa fórmula que atravessa o tempo fez uma equipa temível e venenosa, que, no auge, conquistou dois títulos de campeão europeu. Passaram quatro décadas. Nunca mais o clube atingiu esse topo da Europa. O rotulo de defensivo, esse, ficou eternamente colado ao futebol italiano, no qual Herrera eternizou-se como o grande inspirador do mórbido “cattenacio”, o expoente das tácticas defensivas.
 
Mourinho chega a Milão noutro tempo, mas o “mundo italiano” não mudou assim tanto. Dentro dele todas as imagens, multidimensionais, a cegueira dos ultras, os “carabineri”, o mafioso, o “blá-blá-blá” do politico, os decotes e os cabelos de fantasia, o “bucha e o estica”, todos juntos em paixões protagonizadas por uma bola de futebol. Nesse espaço relvado, o código genético do seu jogo permanece igual. Um “dolce fare niente” táctico que parece mais ambicioso quando não tem a bola do que quando a recupera. Luisito Suarez, estrela espanhola dos gloriosos velhos anos 60, dizia que quando chegara ao “Calcio” estranhara o estilo mas só depois percebeu que, no fundo, eles apenas procuravam o maior rendimento com o menor esforço. “Sábios, descobriram que para isso o jogo defensivo era o ideal, com o que salvaram muitos resultados e como era realizado por jogadores vivos e dotados logo se converteu no sistema que melhor se adaptava ao tipo de treino e ao estilo dos seus futebolistas”.
 
Hoje, as estrelas são outras. Uma girafa sueca, Ibrahimovic, argentinos com picardia, Zanetti ou Cambiasso, e, entre outros, chegado com a “trivela” na bagagem, o “gipsy king” da bola lusitana. Quaresma passeia nas ruas de Milão. Do Scala ao S.Siro, do palco à relva, por entre desfiles de moda, a arte só muda a forma de expressão. Mourinho quer mudar o sistema do futebol italiano, no treino e no jogo. Ultrapassar a exacerbação da dimensão física, colocar no centro a bola antes do musculo, e montar em campo um estilo mais ofensivo, ou melhor, com os jogadores mais próximos da baliza adversária do que da sua próprias redes. No inicio, Boloni definiu-o como um “mustang”. Nada de dramático. Estava na idade certa para ser excessivo, selvagem até. Depois, Rijkaard no labirinto sem saída de Barcelona. Cedo demais. Na viragem da página, Adrianse e Jesualdo foram percebendo como chegar ao outro lado do seu talento. Quaresma cultivou, na carreira, na forma de jogar ou até andar em campo quando a bola está longe ou a jogada acaba, a imagem fiel do tal “dolce fare niente” que falava Suarez. Isso, porém, já não é possível em Itália. Muito menos, nos rabiscos da “montblanc” de Mourinho. As primeiras palavras especiais que lhe dirigiu são um primeiro toque: “Ele não pode pensar que sabe tudo! É jovem demais para isso!”. Antes há todo um mundo de obrigações tácticas para cumprir nos ditames do 4x3x3 em pressão alta.
 
As estrelas do futebol português já não passeiam nas ruas das nossas cidades. Quaresma nas artérias de Milão, primeiros passos do seu futebol na catedral da moda. Jogar em Itália é como fazer um MBA táctico para um futebolista. Para Quaresma, o supremo teste ao talento. Para Mourinho, na busca do mito europeu de Herrera, o supremo desafio de como domar o talento. Em Itália, a “trivela” terá de ser a última palavra no jogo para entrar na moda do “Calcio”.

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