"Equipa de transição" versus "equipa de posse". O enigma de Villas-boas: Pode uma equipa jogar sem fazer transições?
Cada equipa, cada campeão, tem a sua forma de expressão preferencial, uma imagem de marca mais clara. O FC Porto de Villas-Boas eterniza-se como uma equipa de posse de bola, técnica no passe num ritmo pausado de construção apoiada. Para salientar esse estilo, Villas-Boas renuncia a definição de equipa de transição. É, pelo que se disse, legítimo, mas pode uma equipa viver (jogar) em campo sem fazer transições? Claro que não. O que está em questão é saber se faz desse(s) momentos(s) do jogo -em contraste com os de organização ofensiva ou defensiva - os fundamentais no seu modelo de jogo. No caso do FC Porto, não. Na maioria do tempo, o onze quer ter a bola (posse) em construção/organização ofensiva. Por isso a correcta definição de equipa de posse. Só que o jogo não se esgota nisso, por mais posse que se tenha. Há o tal momento em que se perde a bola e é necessário activar a transição defensiva (momento de não posse) para travar a construção adversária e, depois, recuperar a bola e activar a transição ofensiva (momento imediato à recuperação da posse). E este FC Porto, não duvidem, faz muito bem estes momentos de transição. Existem é diferentes formas de as fazer (ofensiva e defensiva). Por exemplo, nas ofensivas: transições rápidas (recorde-se Jesualdo) em profundidade a partir da posição; transição em segurança (que abranda o jogo e pode até começar num passe... atrasado); transição individual em condução; e, aquela que o FC Porto utiliza: transição com movimentação/distribuição curta entre-linhas. Defensivamente, faz uma transição em bloco pressionante agressivo (nunca de reorganização expectante) recuando os alas para as linhas do meio-campo. Não necessita de reorganizar posições, basta-lhe afinar ocupação dos espaços a meio-campo (colmatando a inferioridade numérica inicial do 4x3x3 nesse sector). Outro aspecto relaciona-se com a possível interpretação (é uma corrente de opinião) do momento de transição como sendo um momento de desequilíbrio táctico-posicional de uma equipa no jogo. Isto é, o momento da perda ou recuperação da bola implica um reajustamento posicional e mental para de um momento de construção passar para um momento de recuperação. Essa transição construção-recuperação (defensiva), recuperação-construção (ofensiva), traduz-se, por vezes, em desequilíbrios tácticos em campo. Ora, de facto, o FC Porto de Villas-Boas é uma equipa que raramente vemos desequilibrada no momento imediato à perda da bola. E quando a recupera também está logo bem posicionada para sair a jogar. Parece sempre em organização. Tal sucede porque quanto mais diminuir os tempos de transição, quase levando a que elas (as transições) se confundam com a organização (e vice-versa), mais uma equipa está equilibrada tacticamente em campo e em condições de melhor aplicar os seus princípios de jogo (com e sem bola). Ou seja: é a forma como faz as transições que (cruzada com a técnica de passe organizado) permite a este FC Porto ser, por definição, uma «equipa de posse». 