É humano nos desejos, é sobrenatural nas exigências. Nós esperamos do jogador de futebol que ele transcenda os limites do real. Queremos que ele seja capaz de abrir caminhos, desafiar a lei da gravidade, transformar a bola num ser obediente. O jogo (relva, táctica e bola) não é, no entanto, assim tão surreal. Pelo contrário. Por vezes é mesmo soporiferamente realista. Existem jogadores, porém, que têm esse dom. Dotam o jogo de um sentido excepcional (permanente ou esporádico) furando a estética previsível. Sucedeu no palco europeu, onde tudo fica mais iluminado.
A desmarcação, finta, simulação e passe-meio golo de James Rodríguez. Um passe longo teleguiado de trivela de 30 metros de Gaitan a meter a bola sorridente à frente do avançado. Um remate ainda com a bola no ar de Hélder Barbosa metendo-a mesmo onde a coruja dorme na baliza inglesa. Três momentos de pintura futebolística surrealista que elevaram a(s) equipa(s), FC Porto-Benfica-Braga, na elite europeia. Mais terráqueo nos gestos, mas jogando (movendo-se) em acções contra a sisudez das expectativas que o rodeiam, o avançado de nome difícil, Van Wolsfwinkel, começa a explicar melhor o seu futebol. Tal como Cardozo, salvo as devidas proporções bíblicas dos dois casos, também não é um jogador para os adeptos gostarem à primeira vista. Vendo bem, talvez nem à segunda ou à terceira. Porque parecem algo desligados do jogo durante muito tempo, dão o ar molenga ao não ir a bolas que já fugiram (e como é fácil no futebol aplaudir mais o esforço supérfluo do que o talento inglório). Altos, são esteticamente algo desengonçados. Quando surgem, porém, na hora e espaço certo, toda essa morfologia adquire a lógica que sempre teve. Instinto de golo.
De forma tacticamente ténue, FC Porto e Benfica mudaram a sua forma de jogar (ou, pelo menos, alguns traços de construção e definição, do seu jogo).
No FC Porto, a definição. O efeito-James dá uma face de movimentação mais vagabunda ao ataque portista, tal a forma como o seu 4x3x3 de referência passa agora a ter um dos extremos mais solto, mais vocacionado para ora abrir nesse habitat de faixa natural, ora surgir mais no corredor central perto do ponta-de-lança tradicional (Kleber que ao contrário do antepassado Falcao, necessita de ser apoiado, em tabelas, mais de perto) abrindo espaços, furando e confundindo marcações. Um 4x3x3 vagabundo pela mão de James, colombiano voador.
No Benfica, apesar da renúncia de Jesus a admitir a alteração do desenho, a fórmula-Witsel reequilibrou em termos de meio-campo e construção/temporização com bola um sistema antes demasiado vertiginoso e com excessiva distância entre o nº6 médio-defensivo Javi e o nº10 médio-ofensivo Aimar (agora está Witsel entre eles). Jesus diz que só mudaram os jogadores, não o sistema. É um pouco verdade, mas é exactamente essa a chave: mais do que as ideias dos treinadores, são as características dos jogadores, que, na prática, têm o verdadeiro poder de, em campo, mudarem dinâmicas e desenhos tácticos da equipa. O treinador pode decidir onde eles devem se colocar, mas depois, em campo, são eles que decidem quando fintar ou rematar. Por isso, uma boa explicação para o poder de decisão do futebol é que, por princípio, no jogo, tudo o que é defensivo (posicionamento) depende do treinador, tudo o que é ofensivo (movimento) depende do jogador.
E é então que a bola, por definição objecto caprichoso e muito sensível ao toque, se torna ora poética, ora rude. O jogo parece irreal.
Braga: Futebol “Séc.XXI”
Não existe uma lógica cristalina que explique como um jogador numa época parece desligado do mundo, até acabar esquecido pelo treinador, torna-se depois, logo no ano seguinte, fundamental para o novo técnico que chega, passando a fazer grandes exibições. Penso que se trata de premir o botão animo-táctico certo do seu corpo e cabeça futebolístico para ele voltar à vida. Hélder Barbosa é a suprema espécie transformadora desta época. Esquecido por Domingos. Fundamental para Jardim.
A última aparição em Birmingham, onde os novos galões europeus do Braga surgiram respeitando o estatuto que o levou à Final da Liga Europa a época passada. Entrou em campo de nariz no ar (táctica e mentalmente falando) e, com classe, ganhou com três golos (dois deles do pé iluminado de Barbosa). Esta forma de entrar em campo tem uma explicação prévia: questão de estatuto. Depois dos clássicos (e deixando cada vez mais remoto o Boavista da década passada) este Braga de vários treinadores e um só Presidente, já atingiu uma personalidade europeia na linha dos três grandes do nosso futebol. E já não é tanto pelo que faz durante 90 minutos. É o que se sente nele antes do jogo começar. Uma sensação prévia que depois se exprime em campo de forma tacticamente segura e tecnicamente exemplar, na reacção emocional ao jogo (não mexe um nervo da face) e na inteligente acção táctica e técnica (ataque rápido e execução final, passe-remate, de estatuto europeu). É a outra grande conquista deste Braga Séc-XXI.

Processo de adaptação
“Se para jogar não tivermos bola, improvisamos uma. Que se faça uma bola com as meias disponíveis no quarteirão!”
Betty Milan, in O país da Bola
O jogador chega de novo a um clube, a uma equipa, a um país. Outros hábitos, outro estilo. Outro futebol. Nem todos os jogadores são iguais, claro, na reacção a esse mundo novo. É comum dizer-se que necessita tempo para adaptar-se. Existem casos, porém, que fazem pensar. O grande jogador que parece tornar-se um ser misterioso e desaparece. E os outros. Aqueles que resumem os tão complexos processos se adaptação a uma conversa rápida com o treinador, vestir a camisola e os calções, apertar as botas, entrar em campo e… jogar. O futebol português viu, na última semana, na caixa de fósforos em forma de relvado de Paços Ferreira, um desses casos. Elias, o novo duende verde de Alvalade entrou no onze de Domingos e deu-lhe a coerência que faltava. Não consegue ainda, claro, dar-lhe equilíbrio mental (nem saltar nos cantos ou bolas paradas para cortar de cabeça), mas dá-lhe uma rotação táctica (recua, recupera, transporta, ataca, remata) que mais nenhum jogador conseguira até agora.
Para um treinador em pleno processo de construção da equipa (tentando conhece os jogadores ao mesmo tempo) encontrar um elemento destes é quase como descobrir um pára-quedas táctico a quem o resto do onze se pode agarrar quando em queda livre. Foi o primeiro efeito-Elias na Mata Real. Não é um brasileiro de fintas e malabarismos. É a face moderna do futebol como arte-mecânica.