A velocidade da bola

21 de Junho de 2010 23:03
Mais do que a velocidade, a importância das suas mudanças e da utilização certa da…bola

 

Fala-se muito na velocidade como factor decisivo no jogo. É verdade, mas não é assim tão simples. Mais do que o ritmo alto puro, a grande diferença é feita pela mudança de velocidade. Penso aqui, claro, no processo de aceleração ofensivo organizado em que a equipa (controlo-passe-velocidade) consiga manejar esses diferentes ritmos. Os instrumentos mais importantes para o fazer: passe + desmarcação. Velocidade com e sem bola. Mas, sobretudo, a velocidade da…bola!
O primeiro golo de Portugal frente à Coreia foi um bom exemplo disso. O passe de Tiago, momento de pausa, a bola metida na velocidade certa, vertical, atravessando a defesa coreana, a desmarcação rápida (velocidade sem bola de Meireles) e remate. A execução perfeita na(s) velocidade(s) certas. Dos jogadores e da bola. O resto da exibição lusa teve as mesmas bases, construídas com uma inteligente ocupação dos espaços entre-linhas.
 
E este jogo também é uma boa forma de entender o que significa mesmo jogar entre-linhas. Tiago e Meireles foram dois bons professores táctico-técnicos desse conceito. Primeiro ponto: quando se fala em jogar entre-linhas, fala-se em jogar entre-as-linhas do…adversário. Neste caso especifico, foi a forma como surgiram entre os defesas e os médios defensivos da Coreia. Nesse espaço desmilitarizado, Portugal montou o seu conceito de controlo-pausa.-passe-desmarcação. Desdobrou o 4x3x3 com a mobilidade dos médios-centro que entravam desde trás e, assim, roubaram aos extremos o protagonismo táctico de uma estratégia que teve na precisão das mudança de velocidade (com certeza no passe) o grande segredo. Com esta noção, a bola começou a mover-se com alegria entendendo que cada espaço tem a sua dificuldade e tempo certo de execução.
 
O elemento que surge de trás (entre-linhas) é uma espécie de transgressor táctico que desequilibra a organização defensiva adversária. Nesse campo, Meireles é o transgressor máximo adicionando-se aos avançados quando a jogada chega perto da área. No fundo, tudo isto diz que o talento precisa de inspiração e boas ideias. Quando esse encontro acontece, costuma responder com bom futebol. E golos.  
 
 
 
As três velocidades 
 
Pensando também nas diferentes velocidades de jogo que uma equipa pode adquire em campo, o Brasil será o melhor exercício prático desse conceito neste Mundial. Em síntese, o jogo brasileiro tem três expressões de velocidade. Um processo de transição e organização defesa-ataque em aceleração pausada e inteligente. De início, um ritmo lento de sida de bola, protagonizada pela dupla de volantes Gilberto Silva-Felipe Melo. É o início do bordado táctico onde há que assegurar uma saída sem risco. Então, um desses médios-centro distribui a bola com senso comum para um dos laterais que sobe ou um dos alas (Elano) que recua. Esses jogadores começam, então, a mostrar-se em diagonal e a segunda velocidade (início de aceleração) surge no jogo. Invadem o meio.campo adversário e quando a bola chega a meio dessa zona, é quando os avançados (Kaká-Robinho nas costas de Luis Fabiano) surgem dando soluções de passe ou pedindo a bola. Quando esta entra neles, surge a terceira velocidade (agora sim, rapidez de execução e pernas) conciliada com pase-desmarcação-remate.
Tudo isto é feito com a equipa estruturada à zona e obedecendo a um jogo posicional rigoroso sobretudo na primeira e segunda velocidade. A terceira, já se cruza com a arte. 

 

 

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