
A sua presença continua a causar respeito e admiração. Pelas ruas de Bamako, capital do Mali, venerado como um velho chefe africano, Salif Keita permanece o símbolo de uma era em que o futebol do continente negro começava a ter assinatura própria no cenário internacional. Quando em Setembro de 1967 desembarcou em França, no aeroporto de Orly, dois dias mais cedo do combinado, não tinha ninguém a esperá-lo. Com apenas 21 anos, ganhou coragem e apanhou um taxi até St.Etienne, cujos dirigentes deveriam ter estado á sua espera. A viajem foi longa e custosa, mas quando começou a tocar a bola todos ficaram assombrados com o seu estilo gingão, ás vezes demasiado individualista, mas sempre capaz de lances mágicos. Um ano depois, era eleito o melhor estrangeiro a jogar em França, por cuja selecção, no futuro, brilharam outros filhos do Mali, naturalizados gauleses, como Tigana e Touré.
Keita, ao invés, permaneceu sempre uma bandeira do Mali. Entre 74 e 77, passaria ainda pelo Sporting, até que regressou ao seu Mali, onde se tornou ministro dos desportos. Nos seus pés repousam memórias de um tempo em que o nome do Mali ecoou por toda a Europa, atingindo a sua selecção, onde também moravam fantasistas como Fantamady Keita e Bako Touré, a final da Taça de África, em 1972, onde seria derrotada pelos Camarões.
As Águias verdes e o novo Keita

Uma proeza que muitos sonham ver repetir-se EM 2002, no momento em que, orgulhosamente, o país recebe a 23ª edição da grande competição africana, após um esforço gigantesco iniciado em 1998, data em que lhe foi atribuída a organização da prova, para melhorar as suas estruturas, antes quase ainda na idade da pedra. Muita coisa mudou desde a pioneira edição de 1957. Com o passar dos anos, os olhos africanos, apesar do terror das colonizações e das guerras tribais, foi-se iluminando de esperança e os seus diamantes futebolísticos foram sendo lapidados. Hoje, o equilíbrio de forças entre o futebol jogada a norte, zona historicamente mais rica e desenvolvida, e o das regiões do centro e sul, é uma realidade crescente, aumentando a competitividade entre as várias selecções.
Entre as estrelas malianas do presente, quase todas a jogar no estrangeiro, na senda da fama de Keita, estão nomes como Coulibaly (Lens), Seydou Keita (Lorient) e Djibril (Mónaco), orientados pelo experiente treinador franco-polaco Henri Kasperczack, que já passou pelo banco de Marrocos, Tunisia, no Mundial 98 e Costa do Marfim. Depois de atingir o terceiro lugar do Mundial Sub-20 em 1999, com uma equipa onde estavam, hoje no onze sénior, o Mali aspira desafiar os gigantes do futebol africano, entre os quais, emergem as ás águias verdes da Nigéria, vencedor da CAN em 80 e 94, orientadas por Shaibu Amodu, adjunto de Milutinovic em 98, primeiro treinador africano a levar a Nigéria a um Mundial, após a demissão do holandês Jo Bonfrére, na sequência da derrota com a Serra Leoa. Embora a equipa já não tenha, como nos anos 90, um goleador como Yekini e um maestro como Keshi, continua a possuir grandes jogadores, como Kanu, Finidi, Oliseh e o mago das fintas impossíveis Okocha, todos a jogar em grandes clubes europeus, pelo que, com o Mundial no horizonte, muito recusaram viajar para o Mali.
AS SELECÇÕES MUNDIALISTAS

Todas as cinco selecções mundialistas irão estar presentes no Mali: Nigéria, Camarões, África do Sul, Senegal e Tunísia. Donas de distintas personalidades futebolísticas, espelham a diversidade de estilos existentes no continente africano, mas todas parecem encarar esta CAN quase como um torneio de preparação para o grande objectivo: o Mundial da Coreia e do Japão. É devido a esse facto, já ocorrido em 98, que a CAF pondera a possibilidade de desencontrar a CAN dos anos de Mundial, para evitar o menor interesse na prova por parte das selecções mais fortes.
Dirigidos desde Setembro pelo alemão Winfrid Schaffer, os Leões indomáveis dos Camarões, buscam honrar a herança de Milla, o génio que tornou o seu futebol famoso em todo o mundo. Hoje, a equipa revela maior maturidade táctica, mas carece da mesma magia. Sinais dos tempos, expresso no jogo de figuras como Olembe, Laurent, Wome, Mboma e, como grande estrela, o leãozinho Samuel Eto`o, do Mallorca, o mais talentoso do onze, capaz de rasgos assombrosos.
Mais a ocidente, moram os Leões de Teranga, o Senegal de expressão francesa, orientado pelo gaulês Bruno Metsu que incutiu confiança e vocação ofensiva numa selecção que joga toda em França, com destaque para o trio mágico do Lens, actual líder da liga francesa, composto pelo o lateral ofensivo Coly, o médio esquerdino Pape Sarr, um tecnicista, e pelo criativo avançado centro Diouf, o goleador.
A norte, a Tunísia, que nunca venceu a CAN, ganhou na última década, um cariz mais ofensivo, mesclando a experiência dos jogadores a actuar na Europa com o de novos talentos que entretanto despertaram, como Ghodbane, Mhadhebi e, sobretudo, Zitouni, 20 anos, avançado do Esperance, um típico artista africano, que sorri quando a bola lhe vem parar aos pés, mas que não irá ao Mali. Com eles, a selecção da lua e da estrela, orientada pelo professor francês Henri Michel, mas sempre liderado pelo grande guarda redes El Ouaer, a alma da equipa, espera seduzir o Mundial-2002.
GHANA E ARGÉLIA: PÉROLAS DO BELO FUTEBOL AFRICANO

Quatro vezes campeão africano (63, 65, 78, 82) e finalistas noutras três vezes (68, 70 e 92), o Ghana é, futebolisticamente, o maior enigma do continente negro. Tecnicamente, os seus jogadores são dos melhores do mundo. Exibem um estilo quase brasileiro, fazem da bola o que querem, muitos triunfam na Europa (casos de Abedi Pelé, no passado, e Sammy Kuffour, no presente), mas a sua selecção – apelidada o Brasil de África- nunca logrou a qualificação para um Mundial. As razões residem na falta de estruturas que lapidem o imenso talento dos craques de rua, mas, também, na mentalidade, digamos, quase circense, de muitos dos seus jogadores, que apesar de serem mágicos com a bola, carecem de objectividade ofensiva e disciplina táctica. Algo que Osam-Duodu, o técnico que em 1978 levou a equipa ao titulo, de novo no banco após o afastamento do italiano Dossena, procura impor, no jogo das estrelas negras da actual selecção, cuja base, liderada por Kuffor, está na mescla dos grupos campeões de África Sub-17 em 95 e 2000 e vice campeão mundial Sub-20 2001, onde estão virtuosos como Amoah, Essien e Gyan, o médio organizador Ibrahim, 21 anos, do Empoli, e dos irmãos Boateng, mas sem os experientes Addo, Tanko e Yeboah, a jogarem na Bundesliga, e do ponta de laça Ofori-Quaye, do Olympiakos.
Depois da fantástica década de 80, onde, com artistas como Madjer e Beloumi, fundou o chamado futebol africano da era moderna, a Argélia, de novo fora do Mundial, aposta na CAN para expressar os talentos escondidos do Magreb. O idolatrado Madjer senta-se agora no banco, mas apesar dos seus sábios conselhos, os príncipes do presente, como Ghazi, Belmandie, Tasfaout e Safi, estão, apesar de saberem tratar a bola, longe de exibir os toques de calcanhar do velho mestre.
Outras estrelas irão passear pelos relvados do Mali, onde se espera rever a arte, entre outros, o extremo do Feyenoord, Bonaventure Kalou, e os raids de Bakayoko, prodígios dos elefantes da Costa do Marfim, os golos de Hossam Hossan, eterno goleador egípcio, o gigante George Weah, no comando da selecção da Libéria, o defesa do Burkina Faso Sanou, jogador do Valência, o avançado do Togo Oyawole, figura do Genk belga, e o médio zambiano Kampamba, estrela do Sundowns, finalista da Liga dos Campeões africanos no mês passado.
AFRICA DO SUL E MARROCOS:
Os Bafana, Bafana e os Leões do atlas
Quando em 1957 se disputou a primeira Taça de África, a África do Sul não esteve presente por recusar-se a apresentar uma selecção multirracial. Hoje, tudo mudou. Depois de reentrar na FIFA em 1992, a África do Sul transformou o futebol, apesar de ser jogado em quase 90% apenas por negros, num símbolo desportivo do renascimento de uma nação democrática e multirracial. O primeiro grande mentor desta nova era, foi o carismático técnico inglês Clive Baker, que, em 1996, guiou os bafana bafana ao titulo africano, com um onze onde estavam figuras como Fish, Kumalo e Masinga, exibindo então um estilo britânico, feito de passes longos. No Mundial-98, tendo como grande revelação o jovem Benny Macarty, então com 18 anos na escola de artes do Ajax, a selecção sul africana seria então dirigida pelo gaulês Philippe Troussier, que poucos meses antes orientara o Burkina Faso, na CAN desse mesmo ano, vencida pelo Egipto que derrotara na final a África do Sul, comandada então por Sono, que no Mundial passou a adjunto de Troussier. Com cenários deste tipo e sem um padrão de jogo definido, era impossível o futebol sul africano construir o seu futuro.
A solidificação do grande edifício do futebol sul africano começaria, por fim, em finais de 2000, com a chegada de Carlos Queirós. Apesar de se debater com enormes dificuldades, com os melhores jogadores a actuar na Europa, o técnico luso incutiu uma mentalidade mais profissional e rigorosa, em todas as estruturas do futebol sul africano, conquistando, facilmente, com um futebol veloz, feito de triangulações e maior cultura táctica, o apuramento para o Mundial 2002. Entre as novas estrelas dos bafana bafana, surgem, com maior capital de experiência, decisivo para tranquilizar o onze em campo, leaders como Zuma, Barkley, Issa, Radebe e Bartlett, do Charlton, que faz dupla com o portista McCarthy no ataque. De todas as mundialistss, a selecção de Queirós é a que, na linha exigente e metódica que se reconhece ao alquimista luso, maior atenção dispensou a esta CAN 2002.
O Marrocos de Humberto Coelho
Exibindo um estilo mais europeizado, no plano técnico e táctico, a selecção de Marrocos, dirigida por Humberto Coelho, mantêm os traços básicos do seu futebol tecnicamente evoluído, de toque curto, lateralizado, mas muitas vezes traído pela lentidão. Após falhar o Apuramento para o Mundial, derrotado no jogo decisivo pelo Senegal, o onze marroquino surge no Mali numa fase de transição e sem a grande estrela Hadji, que recusou integrar a selecção. Humberto conserva a base da equipa, mas o grupo, onde figuram nomes como Naybet, Chippo, Ramzi e Bassir, entre outros, necessita, urgentemente, de voltar a acreditar no seu valor. A conquita do titulo africano, o que no passado só ocorreu em 76, no tempo de Faras, seria o impulso necessário para entrar numa nova fase do futebol marroquino.
GRUPO A
MALI
NIGÉRIA
ARGÉLIA
LIBÉRIA
GRUPO B
ÁFRICA DO SUL
MARROCOS
GHANA
BURKINA FASO
GRUPO C
CAMARÕES
REPUBLICA DO CONGO
COSTA DO MARFIM
TOGO
GRUPO D
SENEGAL
EGIPTO
ZAMBIA
TUNISIA