Aceitem o meu ego: “Sou um nº10!”

13 de Julho de 2011 18:53
Enquanto para o médio criativo europeu a essência é o passe, para sul-americano é o drible

 

Chegam rodeados de paixões e de repente deparam-se com uma versão muito diferente de futebol em que cresceram e jogavam até há pouco tempo. Os primeiros dias, jogos e expressões, têm quase sempre, sobretudo traços de desânimo. O jogador sul-americano quando chega à Europa enfrenta um desafio à sua competência e a maturidade. Penso, sobretudo, nos médios ofensivos. Porque é neles que se concentra a principal diferença conceptual entre os dois. Enquanto para o médio criativo europeu a essência é o passe. Para o médio criativo brasileiro a essência é o drible. Existem, claro, casos mais ou menos vincados desta dicotomia cultural, mas na essência futebolística, a natureza é esta.
Se o drible é o mais lúdico dos lances, o passe é o mais solidário dos fundamentos do futebol. Leio esta frase saída da pena de Tostão, colunista sublime e antigo craque do futebol-arte. Cresceu num mundo de dribles, mas não se ilude sobre o que verdadeiramente faz um bom jogador no mundo real: conhecer e executar bem as coisas mais comuns e essenciais. Pensamento sábio, sem dúvida. É por isso que muitos desses jogadores com grande habilidade não se conseguem impor, e outros, menos tecnicistas mas mais pragmáticos, conseguem maior sucesso.  
 
A ambição do treinador é tornar o jogo o mais previsível possível para que assim o possa controlar antecipadamente. A ambição maior do jogador é mexer no jogo da forma mais imprevisível possível para assim fazer a diferença. Desejos conflituosos? Podem não ser. Basta o jogador, driblando ou passando, dominar as tais coisas mais comuns e essenciais. O problema é que, para o ego do jogador, o passe é uma coisa demasiado abstracta. Fica-se famoso pelo número de golos marcados, nunca pela quantidade de passes que se fez na carreira.  
Pensar sobre futebol nesta perspectiva leva a buscar casos do presente que o exemplifiquem. Um jogador que chegado à Europa com esses traços sul-americanos, logo uniu os outros que faltavam ao seu fútbol. Um pibecito com carácter adulto: Aimar. A sua capacidade de entender o jogo comum e essencial, converteu-o e adaptou-o às novas necessidades sem perder o perfume natural que tinha. Foi em Valência, na maior pressa e pressão que as canchas espanholas comportam, que o fez. Alguns anos passaram. A maturidade com que cresceu, permitem-lhe agora, mesmo com necessidade de gestão física específica, que as coisas que não entendia quando chegou à Europa, sejam hoje as que melhor executa. De correr com a bola e driblar, até correr com a bola e… passar. Olhem para todos os outros sul-americanos de recorte posicional semelhante que chegaram ao nosso futebol nos últimos anos (de Matías Fernandez a Belluschi, até aos que dão os primeiros passos esta época) e reparem como todos trouxeram (ou trazem) aquela ordem de valores adulterada.   
 
Nenhuma bola tem vida própria para procurar um jogador. É ele que tem de estar sempre no sítio certo para a receber. E, de repente, só para ele, o imprevisível torna-se… previsível.  
 

 

 

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