Para os fieis amantes do bom futebol, atraente e ofensivo, o nome Ajax continua mágico. Apesar de ter-se sempre mantido, através dos tempos, como uma referência da formação, desde as conquistas da geração Cruyff nos anos 70, nas décadas seguintes só voltaria a vencer a Taça dos Campeões em 95, com o duro Van Gaal e um grupo de talentos saídos das suas escolas, como Davids, Seedorf, Kluivert e o velho Rijkaard.
Há duas épocas, porém, pouco depois do regresso de um velho filho da sua bela escola, Koeman, agora na pele de um dos mais promissores treinadores da nova vaga laranja, um novo onze começou a demonstrar um invulgar respeito pela bola que, nos pés de um talentoso grupo de jogadores, voltava a conhecer os caminhos do mítico carrossel mágico holandês, de pé para pé, com classe, técnica e táctica. Com esse aroma revivalista chegaram aos quartos-final da Liga dos Campeões, foram campeões holandeses e, cima de tudo, deixaram no ar a promessa de, nas épocas seguintes, solidificar a construção de uma equipa capaz de recolocar o Ajax no topo da Europa.
Pouco mais de um ano depois, esse perfume sedutor, desvaneceu-se de Amsterdão. Nas bancadas do Arena, os assobios substituíram os aplausos, na maioria dos jogos. No relvado, a equipa, sem o bom jogo, vagueia entre exibições descoloridas e resultados frustrantes. Caiu para o 3º lugar na Liga (a 5 pontos dos líderes AZ e PSV) e foi eliminada da Liga dos Campeões, onde perdeu com o Macabbi Telavive de Israel e só logrou seguir para a Taça UEFA graças á curta vantagem no gol-average directo (3-0, 1-2). Num ápice, Koeman passou de elogiado a contratado. De treinador do futuro passou a ter a cabeça a prémio, jogo após jogo ameaçado de demissão. O que se passou para esta transformação penosa?

Repousam cada vez mais distantes os tempos em que o precursor 3x4x3 marcava, com classe, a imagem de marca do grande Ajax. Foi assim que Van Gaal ganhou ainda o título de 95. Com a expansão das novas tendências táctico-conservadoras, também o Ajax de Koeman, apesar das raízes mais ofensivas, se converteu aos ditames realistas do presente. Desde que chegou, em 2002, o seu Ajax passou a basear as variantes da sua dinâmica táctica num mais clássico 4x2x3x1, que depois, em campo, varia entre o 4x3x2x1, a defender, e o 4x3x3, a atacar.
Em qualquer variante, porém, mantêm-se o sistema de 4 defesas. Esta é, ainda, o modelo do actual onze de Koeman. É importante dizer, porém, que, apesar dos fracas exibições e resultados, os princípios do bom futebol continuam presentes no seu estilo de jogo. Esta ideologia detecta-se, desde logo, na forma interessante do Ajax partir para o ataque organizado desde a defesa, onde os laterais, na saída de bola, adiantam-se quase para a entrada do meio campo adversário, sendo o espaço liberto por esse avanço, compensado com o recuou táctico do médio ala da respectiva da faixa para onde o guarda redes ou o central fez o passe. Neste movimento, até parece que regressa, por instantes, á defesa a «3», mas tal ilusão resulta apenas do avanço do episódico avanço de um lateral, fazendo, assim, as três linhas abrirem-se a toda a largura do terreno, adquirindo um design de 3x3x3x1 a sair, contrastando com o fechado 4x5x1 a defender, recuando linhas e povoando o meio campo na hora de lutar pela recuperação de bola. A atacar, pode evoluir para 4x4x2, com a subida de um extremo ou de um flanqueador (Mitea ou Boukhari na esquerda, Rosales, na direita), ou pelas entradas de trás do médio mais ofensivo, (o nº10 Van der Vart) espécie de segundo avançado, nas costas do único ponta de lança fixo, Sonck ou Anastasiou. O mais estranho nesta era de hesitação táctica, reside, talvez, no facto de, em termos de marcação, Koeman, frente a adversários mais fortes, resgatar o homem-a-homem, como sucedeu nos jogos da Liga dos Campeões, contra, por exemplo, a Juventus, onde De Jong, lateral-direito no papel, teve como principal missão, sem bola, marcar em cima Del Piero.
O DIAGNÓSTICO DA CRISE DE JOGO

Se o sistema e a dinâmica táctica se assemelham, na essência, ao preconizado há época e meia, quando era tão elogiado, como se pode explicar, então, esta quebra exibicional e competitiva, de resultados e dinâmica em campo?
Existem três níveis de análise para esta resposta.
1. Os jogadores do onze-base, do qual saíram dois elementos chave: o defesa central romeno Chivu, patrão da defesa (hoje na Roma) e, sobretudo, o avançado centro goleador Ibrahimovich, que ainda fez três jogos –e três golos- esta época, saindo depois para a Juventus, onde continua a brilhar. Estas saídas retiraram, por um lado, voz de comando ao quarteto defensivo, e, por outro, amputaram o ataque do seu elemento mais perigoso e desiquilibrador. Em ambos os casos, não foram encontrados substitutos á altura, sobretudo no ataque, onde Anastasiou e Sonck, mais homens de área, não possuem criatividade, nem qualidade técnica, para executar o mesmo papel. Consciente deste facto, o principal alvo de Koeman no actual mercado de transferências é a contratação de um ponta de lança. como o grego Charisteas, pouco utilizado no Werder Bremen.

2. O sistema de jogo: evolução e modelo. Embora mantendo, na essência, as mesmas variantes tácticas, perdeu-se coesão entre linhas na circulação de bola. Podem apontar-se várias razões para este facto: a primeira, a quebra de forma, sentido também o avançar da idade, de Galasek, o trinco-volante, um lugar crucial na organização de jogo das equipas do chamado futebol moderno. Mais á frente, o playmaker Van der Vaart, sem ter apoio nas costas, e com a falta de um nº9 mais móvel, sente a falta de que complete as suas triangulações de penetração. Não pode ser um nº10 e um nº8 ao mesmo tempo. Desta forma, fica muitas vezes desapoiado, no centro de um meio campo que, apesar de ter excelentes jogadores, perdeu a ordem e a dinâmica táctica certa. Para colmatar a falta de ligação defesa-meio campo, emerge o talentoso Snjjeider, um volante com grande profundidade de jogo e vocação atacante.
Nos flancos, os extremos são muito ofensivos (Mitea-Rosales), mas, sem bola, não fecham a faixa na acção defensiva. Por isso, muitas vezes, Koeman, opta por alinhar á esquerda o marroquino Boukhari, mais disciplina nas compensações defesa-ataque, ou aposta em Maxwel, originariamente lateral-esquerdo, mas com talento para fazer todo o corredor. Na direita, para guardar as costas de Rosales, surge o ganês Obodai.
Na defesa, é importante definir, um 4 base em termos posicionais. A polivalência dos jogadores é positiva para ter várias formas de mexer na equipa ao longo da época ou até decorrer do jogo, mas, em termos de criar mecanização de sectores ou automatismos entre-linhas, é necessário solidificar posições de referência. Heitinga alterna entre lateral-direito e central, Escudé é central ou lateral-esquerdo, Grygera lateral de origem, fixou-se a central e De Jong alterna entre lateral direito ou médio ala. Como possuem superior cultura táctica, cumprem em qualquer posução, mas cada um deles tem um posto onde as suas características melhor se encaixam. É, portanto, nessa posição que devem, preferencialmente, jogar, sob penas desta confusão posicional impedir a respectiva maturação competitiva, algo chave, sobretudo numa equipa com jogadores tão jovens.
3. O entorno, como diria Cruyff, que envolve o clube, onde os empresários não param de rodear as jovens estrelas. Com a abertura de fronteiras e o mercado de inverno, acabou o sonho, sobretudo para equipas, como o Ajax, incapazes de competir financeiramente com os monstros espanhóis, italianos ou ingleses, o sonho de construir uma equipa a médio-longo prazo. Num ápice, mal começa a evidenciar-se, o onze é desmembrado nos seus pontos cruciais e mais valiosos. Nessa altura, muitas vezes, tem de se voltar ao principio, buscando novas referências. É o que sucede, em certos aspectos, hoje com Koeman.
Babbel – De Ridder
Fixem estes nomes

MESMO EM CRISE, AS ESTRELAS CONTINUAM A NASCER...
Apesar do período menos fulgurante que vive o futebol do actual Ajax, a sua escola continua, imperturbável, a produzir sedutores talentos. Neste momento, já integrados na equipa principal, destacam-se dois nomes: o médio interior direito De Ridder, 20 anos, e, sobretudo, um avançado centro para não perder de vista no futuro, Ryan Babbel, 18 anos.
De Ridder é um médio direito muito elegante. Pode jogar no centro ou sobre as alas. Faz bem as diagonais de penetração, com excelente controle de bola e atleticamente forte, aguenta bem os lances divididos sem perder a sua posse. Tacticamente é perfeito.
Babbel, alto e esguio, (1,84m. e 74kg.) é um avançado centro muito inteligente nas movimentações. Em todos os seus movimentos, Vê-se que tem escola. Na forma como recebne a bola e protege, como gira sobre ela, para rematar ou passar. Sem precipitações, pensando o jogo, tabelando com os colegas ou assumindo o um para um com os adversários. Não é muito rápido, mas coloca-se sempre no lugar certo para receber a bola e remata com facilidade. Está aqui um nº9 para brilhar no futuro.