Situada nas margens do Nilo, a cidade do Cairo, capital do Egipto, berço de uma mais inteligentes civilizações da história da humanidade, é um mundo dentro de outro mundo, enigmaticamente fechado nos vértices das colossais pirâmides.
No correr do último século, outro gigante se ergueu, com a força e a paixão do futebol, gerador de grandes clubes, de dimensão única no continente africano. Entre eles, majestosamente erguido por entre pirâmides, mesquitas ancestrais, palácios e mausoléus de mil-e-uma-histórias, emerge o Al-Ahly, uma projecção da alma do velho Egipto, fundado em 1906, por 6 estudantes egípcios ferozes opositores do colonialismo inglês.
Orgulhosa bandeira da independência egípcia, o Ah-Ahly, mais conhecido por Nacional - a tradução árabe do seu nome - é muito mais do que um simples clube de futebol. Desde os primeiros tempos, sofreu a oposição do império britânico, que o ameaçou com suspensões e extinção, sobretudo desde o momento em que soube que o seu primeiro presidente era Sad Zaghloul, o nacionalista líder político do Wafd, a voz do povo. Este confronto serviria, no entanto, para tornar o clube ainda mais amado por todo o país que lutava contra o colonialismo inglês. Através dos tempos, este sentimento não parou de crescer. O Ah-Ahly Sporting Club tornou-se um clube mágico, a equipa de todos os sonhos, que teve no presidente Hosni Moubarak o seu mais famoso adepto.
O domínio do Al-Ahly no futebol dos faraós é quase sufocante e começou desde que, em 1948, nasceu, oficialmente, a Liga Egípcia. Para erguer esse império, muito contribuíram, nos anos 50 e 60, os seus primeiros grandes heróis futebolísticos, como Hegozi, Al Tetcha, Abdel Jalel, Saleh Salim –que mais tarde seria presidente do clube- Haihl e Al-Fanagueli. Nos anos 80, explodiu um homem que mais tarde brilharia no futebol português, Abdel-Ghany, o grande capitão. Hoje, as grandes figuras são Ibrahim Saeed, Abdel Hafeiz, El-Sayed, Ali Maher e, entre outros, o guarda redes Hadary.
Depois de conquistar nove títulos nacionais consecutivos, entre 1949 e 1959, o Nacional descobriu, no inicio dos anos 60, um outro clube capaz de combater o seu domínio. Era um clube fundado em 1911, que nascido no popular bairro de Meet Okba, começou por chamar-se El-Mokhtalat, até 1941, ano em que passou a Farouk Club, adquirindo por fim, em 1952, o nome que o tornou célebre: Zamalek, a chamada escola do futebol bonito, por, desde sempre, as suas equipas terem a fama de, mesmo perdendo, praticar um futebol atraente, de fino recorte técnico.
O seu primeiro titulo só surgiria, porém, em 1960. Durante as duas décadas seguintes, torturadas por 5 anos de guerra, entre 1967 e 1971, figuras como Ali Mohsen, Taha Basri, Ahmed Mostafa, Farok Jaffar e Ahmed Refast, continuaram a justificar a elegante e virtuosa tradição do Zamalek, agora acompanhada de vitórias.
O NASCER DO DERBY SAGRADO

Foi no inicio dos anos 60, com o emergir do Zamalek, que os grandes derbys do Cairo, começaram a incendiar toda a capital dos faraós. Frente a frente, duas escolas do futebol egípcio e duas facções sociais. De uma lado um clube nacionalista, do outro um clube que desde a sua criação, onde o primeiro presidente foi o belga Sir Merbach, sempre se abriu para o estrangeiro.
A rivalidade atinge tal dimensão, que é quase impossível encontrar um árbitro egípcio para apitar esses titânicos confrontos. Por isso é usual, serem convidados árbitros estrangeiros para os grandes derbys do Cairo, o que já aconteceu, por exemplo, com o inglês George Courtney, os italianos Pairetto e Agnolin, e os franceses Vautrot e Biguet. Esta época, foi convidado o português Vitor Pereira e o careca italiano Pier Luigi Colina, mas ambos os pedidos foram rejeitados pelas respectivas federações europeias.
Os dois gigantes defrontam-se desde há 90 anos. O primeiro confronto foi em 48/49 e terminou empatado, 2-2. Ao longo dos anos, encontraram-se por vezes para o campeonato e o domínio pertence claramente ao Nacional que conta com 29 vitórias, contra 19 do Zamalek, para além de 37 empates.
Paradoxalmente, o Zamalek tem atingido maior projecção internacional. Nos anos 90, passaram pelo clube do bairro das pequenas casas, estrelas egípcias como Al Sayed, Yaken, Ramzy, Masour, Al-Ghandor, Iman, Nabil, Youssef e o nigeriano Emanuel Amunike. No presente, os novas estrelas são Farouk, o goleador Hossam Hassan e Bashir, a base do último grande titulo continental, onde também estiveram El Sayed, eleito jogador egípcio do ano, Hazem Eman e, na opinião do técnico alemão Otto Pfister, o grande líder da equipa, El Ghandour, o homem que inspira o jogo bonito de todos os companheiros. Devido a eles, a escola do futebol bonito começa a cativar as gerações mais jovens, aquelas que ainda sentem ter direito a sonhar com o futuro diferente, onde as brutais desigualdades sociais que rasgam o incomensurável Cairo deixem de fazer sentido.
HOSSAN HASSAN:
GOLEADOR NA SOMBRA DA ESFINGE
É, para todos, o melhor ponta de lança da história do futebol egípcio, um autêntico mito goleador que vestiu a camisola dos dois gigantes. Ele é o supremo símbolo da sagrada rivalidade Al-Ahly-Zamalek.
Rápido, com faro de baliza, tem um estilo que faz lembrar o do antigo internacional francês Papin. 156 vezes internacional vezes pelo Egipto, marcando 78 golos, record mundial absoluto, é o jogador africano que mais títulos conquistou: 2 Taças de África, 86 e 98, melhor marcador do CAN 98 como 7 golos; 9 vezes campeão egípcio, 1 Taça dos Campeões Africanos, em 87 e 3 Taça das Taças Africanas.
Começou a carreira em 1985, no Al-Ahly, com 17 anos, onde foi 12 vezes campeão egípcio, até que, em 1990, ingressou no PAOK Salónica, da Grécia, mas inadaptado ao agressivo futebol grego, mudou-se em 1991 para Neuchatel Xamax, da Suíça, onde recuperou estabilidade, mas dois anos e meio depois já regressava ao Egipto, ingressando no Zamalek, para desespero do Nacional, seu antigo clube. Em toda a sua carreira na Liga egípcia, apontou 106 golos.
Esteve presente no Mundial-90, marcando o golo decisivo que valeu o histórico apuramento. Aos 34 anos já não possui a velocidade de anos atrás, mas, para os amantes do Zamalek ele ainda é a grande estrela em que todos confiam para derrotar o ancestral rival Al-Ahly.
OS DOIS GIGANTES DO CAIRO
AL-AHLY (NACIONAL)
Campeão egípcio: 1949, 1950, 1951, 1953, 1954, 1956, 1957, 1958, 1959, 1961, 1962, 1975, 1976, 1977, 1979, 1980, 1981, 1982, 1985, 1986, 1987, 1989, 1990, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999 e 2000.
Taça do Egipto: 1924, 1925, 1927, 1928, 1930, 1931, 1937, 1940, 1942, 1943, 1945, 1946, 1947, 1949, 1950, 1951, 1953, 1956, 1961, 1966, 1978, 1981, 1983, 1984, 1985, 1989, 1991, 1992, 1993, 1994 e 1996
Taça dos Campeões africanos: 1982 e 1987
Taça das Taças africana: 1984, 1985, 1986 e 1993
Taça dos Campeões árabes: 1996
Taça das Taças Árabes: 1995
Taça Afro-Asiática: 1989
ZAMALEK
Campeão egípcio: 1960, 1964, 1965, 1978, 1984, 1988, 1992 e 1993
Taça do Egipto: 1922, 1932, 1935, 1938, 1941, 1943, 1944, 1952, 1955, 1957, 1958, 1959, 1960, 1962, 1975, 1977, 1979, 1988 e 1999
Taça dos Campeões africanos: 1984, 1986, 1993 e 1996
Taça das Taças africana: 2000
SuperTaça de áfrica: 1993, 1996 e 2000
Taça Afro-Asiática: 1987 e 1997