Sob a tutela divina de Alá, Teerão, a incomensurável capital da República Islâmica do Irão, continua profundamente devota do Corão. Segundo as suas leis, os homens podem ter até quatro mulheres, mas, na prática, apenas os ricos abastados praticam a poligamia. É necessário ter-se uma grande casa para todas elas. Quatro andares, um para cada mulher, pois a convivência entre elas, loucas pelo seu marido, é impossível. Apenas se unem quando o homem adoece, e não saem de junto dele até estar restabelecido. Mais do que uma religião, é uma forma de entender a vida, a natureza e as suas forças, onde o homem é o lobo de si mesmo. Em nenhum outro local do globo se pressente melhor esta parábola da vida.
Mesmo na Ásia profunda, o futebol é mais do que um simples desporto. No dia do jogo com a Austrália, decisivo para o apuramento para o Mundial-98, o Estádio Azadi transbordava de ansiedade. Nessa tarde, a jornalista italiana da Ansa em Teerão, Nadia Pizzuti, foi a primeira mulher, na história das terras de Maomé, a entrar no Azadi para assistir a um jogo de futebol, espectáculo violento e incontrolável, nas palavras do vice-presidente da federação iraniana, Khabari, que continua a entender a proibição das mulheres assistirem aos jogos. Sob o “chador”, o largo rectângulo negro que lhes cobre o corpo da cabeça aos pés, as mulheres iranianas começam a olhar o Mundo com sentimentos indecifráveis à luz do Corão. No dia do grande jogo, rodearam o estádio, em passos lentos, sofrendo pelo seu país, poucos dias depois do regresso dos heróis futebolísticos da Austrália, e encheram o estádio para os saudar. E cada vez mais é comum, ao andar, vislumbrar-se, entre o chador, os traços da civilização ocidental, expressos em blue jeans e ténis de marca. No fundo, um mundo de homens que, como cantou James Brown, não seria nada sem uma mulher ou uma rapariga.

Ali Daei é o jogador mais famoso do futebol iraniano. Não tem quatro mulheres, mas desperta as paixões de milhões, as amantes do seu estilo, imparavelmente sedutor quando, com o olhar sombrio que molda a forma do bigode – imagem de marca do homem iraniano –, conduz a bola até às redes adversárias. Um estilo que cativou o futebol alemão, para onde foi jogar em 1997
A última vez que o Irão estivera num Mundial fora em 1978, na Argentina, no tempo em que o país ainda era governado pelo “chá” Reza Palevi. Um ano depois, em 1979, deu-se a revolução islâmica, e o regresso, após um exílio de 15 anos, do “Ayatollah” Khomeni. Por entre todo aquele fervor religioso, expresso depois na guerra com o Iraque, de 1980 a 1988, o futebol perdeu o fulgor que permitira ao Irão ser três vezes campeão continental (68, 72 e 76) e representante da Ásia em três Olimpíadas (64, 72 e 76, onde chegou aos ¼ final). Nesse tempo, no final de 1979, Ali Daei era ainda um jovem adolescente, vivendo em Ardabil, a norte de Teerão, mas, para ele, o futebol já era uma paixão, admirador do talento de Ali Parvin e Rowshan. Na Alemanha, obedecendo à sua religião que proíbe severamente as bebidas alcoólicas, recusou o convite, feito pela fábrica de cervejas “sponsor” do Bayern, para posar com um copo de cerveja na mão. Uma atitude que é uma forma de estar na vida, aprovada com um discreto abanar da cabeça pelo “Ayatollah” Zialedin Sahili, em nome de Alá o responsável e conselheiro cultural do futebol na federação iraniana.
Durante o França-98 a imprensa resolveu transformar um futebolisticamente desinteressante EUA-Irão num acontecimento de relevância mundial Os iranianos ajudaram a encenar a tensão e poucos dias antes do jogo ameaçaram abandonar a prova depois de a televisão francesa ter transmitido na véspera um filme americano onde a sua cultura era tratada de forma depreciativa. No final o Irão venceu 2-1 e o seu treinador, que vive há 14 anos nos EUA onde é proprietário dum supermercado, saltou eufórico com o triunfo sobre o grande satã. Só que para os mais atentos, nada de muito original sucedera naquela noite em Lyon. Ao longo dos tempos, o futebol tem colocado frente a frente os povos e as culturas mais diferentes. Os regimes socialistas contra os do capitalismo ocidental, as ditaduras da América latina contra as democracias europeias. Dentro das quatro linhas as ideologias politicas desaparecem por entre os movimentos de uma simples bola de futebol. A linguagem do futebol é universal.
Embora já não seja estranho ver um “Ayatollah” a falar com um telemóvel, atrás de todo o mistério e rigidez que emoldura a vida islâmica, permanece intacta uma forma de viver a vida que para nós, ocidentais, continua a causar, senão temor reverencial, pelo menos uma profunda sensação misteriosa. E não há nada mais atraente do que um clima de mistério. O futebol de Ali Daei nasceu e cresceu por entre esta atmosfera.