A sinuosa estrada que se estende como uma serpente adormecida pela imensidão dos Pirineus acima, leva qualquer visitante a pensar em tudo menos em futebol. Encrostado num vale, entalada entre França e Espanha e abraçado pela neve que faz do ski o seu deporto maior, o território onde repousa, aparentemente perdido, o principado de Andorra, que tem como língua oficial o catalão, não excede os 495 km2, habitado por cerca de 60 mil pessoas, sendo que apenas 20 mil possuem nacionalidade andorrana, pois a maioria são espanhóis ou franceses. A Federação Andorrana de Futebol, foi fundada em 1941, mas até aos anos 90, o principado viveu sem selecção nacional e a sua actividade internacional resumia-se a alguns torneios infantis e juvenis no sudoeste de França. No inicio dos anos 80, a única equipa oficial do território era ainda apenas o FC Andorra, que por ser a federação andorrana membro da federação catalã, por seu turno dependente da federação espanhola, iniciara a sua actividade, em 1942, nas divisões regionais da Catalunha, subindo á IIIº Divisão em 78/79, onde ficou até o ano seguinte, momento em que subiu pela primeira vez á IIª Divisão B.
No presente, onde o mundo geográfico, iluminado por uma corrente de furor nacionalista, ora de Estados, ora de simples comunidades, eco dos seculares anseios dos seus povos, muda todos os dias, quase que a Ciência Política cede à tentação de à sua clássica definição de Estado - Povo, Território e Poder político- juntar um quarto elemento essencial: uma selecção nacional de futebol.
Movido por essa atmosfera que varreu a dita Europa das regiões no inicio dos anos 90, também o micro-Estado de Andorra gerou os seus movimentos nacionalistas, que, em 1993, o tornaram independente, dotado de uma constituição e governado por dois antigos príncipes. Ao mesmo tempo, um jovem de 33 anos, Francisco Vila, para muitos revolucionário presidente da Federação de Andorra que dotara de autonomia própria em 1994, ambicionava acrescentar á nova bandeira, uma selecção de futebol. Amigo pessoal de Angel Villar, presidente da Federação espanhola de futebol, que apoiou desde o inicio essa ambição, Villa logrou, por fim, filiar Andorra na UEFA e na FIFA, durante o verão de 1996, apesar da oposição da maioria dos seus governantes, receosos das goleadas que diziam essa selecção ir sofrer, como sucede com outros principados, casos do Lichenstein e San Marino, que tiveram ambição semelhante.
A OBRA DE FRANCESC VILLA

Quando em Junho de 1998, Francesc Vila aceitou o convite para um jogo particular, contra o Brasil, em preparação para o Mundial, todo o principado disse que ele estava louco, antecipando uma enorme goleada. Como seria possível formar uma selecção competitiva com um campo de recrutamento filtrado por apenas 1700 jogadores inscritos na Federação, entre os quais, 900 são jovens e quase 70% tem nacionalidade espanhola ou francesa, visto que a andorrana é muito difícil de obter, só sendo possível após 25 anos de residência no principado. Desta forma, restavam apenas cerca de 150 jogadores convocáveis! A base da selecção seria, assim, formada, com o bloco do FC Andorra, alinhando nesse tempo 14 internacionais andorranos, e que após a criação da equipa nacional passou a sentir cada vez maiores dificuldades pois a Federação espanhola recusava-se quase sempre a adiar os seus jogos da IIª Divisão B espanhola. Após permanecer vários anos num desgastante sobe-e-desce, acabou por voltar a cair na divisão regional da Catalunha, após terminar em último da Serie C da IIIª Divisão, em 98/99, com apenas 7 pontos e 102 golos sofridos!Mas, no relvado com a camisola da selecção, os homens do sonho de Francesc Vila, onde estavam também dois médios do União da Madeira, Toni Lima e Justo Ruiz, e um avançado do Camacha, Juli Sanchez, hoje todos de regresso a Andorra, souberam trocar a bola e perderam apenas por 3-0 frente ao Brasil. Uma exibição cativante e uma derrota honrosa que seriam o impulso definitivo para a solidificação de Andorra no cenário do futebol mundial. Ao mesmo tempo, a escola de futebol do FC Andorra era adoptada pela Federação, que, desta forma adoptava nas suas estruturas a tradição de cantera que, ao longo das décadas, esteve na base da relação privilegiada que manteve com os principais clubes da Catalunha, geograficamente próximos.
Neste primeiro momento, o seleccionador nacional eleito foi o brasileiro Manuel Miluir, que tinha então no seu passado várias épocas no futebol jovem do Sporting. Uma experiência que cativara Vila, para quem o futuro do futebol em Andorra só faria sentido se baseado na formação. Os anos seguintes, confirmaram os progressos do seu projecto, mas tudo pareceu desmoronar-se no fatídico 7 de Dezembro de 2000, quando, vitima de um brutal acidente de viação, o grande impulsionador do futebol em Andorra morreu no momento em que a sua vida apenas acabara de começar.
Sem ele, o futebol andorrano sente-se órfão de uma referência capaz de motivar as autoridades de Andorra la Vella para apoiar um projecto futebolístico que há poucos anos parecia utópico. Depois de lançar as bases, Vila tinha agora o sonho de construir um Estádio Municipal para pelo menos 5 mil espectadores –o único recinto existente no principado é o Estadi National d`Aixovall, com capacidade para apenas 1000 pessoas- capaz de receber os seus adversários nos jogos em casa, evitando as constantes deslocações a Barcelona para o efeito. Quando esse Estádio for inaugurado ele só poderá ter um nome: Francesc Vila. Cabe aos seus sucessores a dura missão de prosseguir a sua obra.
ESTRELAS DE ANDORRA LA VELLA

Vendedores de Cigarros, Policias, bombeiros e carteiros. Estas são muitas das profissões da maioria dos internacionais da selecção de Andorra. Sem estrelas e com uma história curta, é quase necessário partir de lanterna em punho para encontrar, no passado ou no presente, um jogador andorrano que atinge-se uma projecção que, mesmo por breves momentos, salta-se as fronteiras do principado, regente de uma cultura de formação que anos antes dera ao fútbol espanhol um jogador como o médio Célades, antiga figura do Barcelona, ou o lateral esquerdo Bernaus, surgido na cantera do Barça que na última época jogou emprestado no Toledo, mas que ao contrário do actual médio do Real Madrid, optou por vestir a camisola do principado da neve.
Escrito a letras de ouro, na sua história está, no entanto, o nome de Julian Lucendo, autor do primeiro golo da selecção de Andorra num jogo oficial, na conversão de um penalty, na derrota por 3-1 frente á Arménia. Lucendo, hoje jogador do FC Andorra, é um médio tecnicista cujo momento mágico lhe sucedera há 13 anos, quando disputou o primeiro jogo da Liga espanhola da época 88/89 com a camisola do Barcelona, treinado por Cruyff. No presente, ele é, com 32 anos, o carismático capitão da selecção andorrana, que, na sua curta história, teve o grande momento quando recebeu a França, em Montjuic, no apuramento para o Euro-2000, e perdeu apenas por 1-0, com um golo de LeBouef a 4 minutos do final, após ter perdido por 2-0 em Saint Denis. Dois históricos resultados que tiveram como grande responsável o guarda redes Koldo, que anos atrás chegara a treinar no At. Madrid.
RESULTADOS DA SELECÇÃO
Dirigida no presente por Daniel Rodrigo, um homem que face á fragilidade da sua equipa não tem receio em dizer que vai jogar sempre fechadinho na defesa, a selecção de Andorra ambiciona manter vivo o espírito do seu criador, Francesc Vila, o mais jovem presidente de Federação na história da UEFA. O próximo jogo, contra Portugal, será o primeiro sem a sua terrena protecção tutelar. No passado, apesar de imperarem as derrotas, mora, no entanto, um legado de honra, onde as exibições estiveram quase sempre á altura do desejo daqueles que acreditaram ser possível ter Andorra um a selecção nacional de futebol internacionalmente competitiva, praticando um estilo de jogo que, por ter origem geográfica no mundo latino, privilegia a técnica e o toque curto, embora sempre hipotecado ao pouco valor futebolístico dos seus jogadores.
Este é o quadro de resultados:
Particulares
1996
Andorra-Estónia 1-6
1997
Letónia-Andorra 4-1
Estónia-Andorra 4-1
1998
Brasil- Andorra 3-0
Estónia-Andorra 2-1
Azerbeijão-Andorra 0-0
Letónia-Andorra 2-0
Lituania-Andorra 4-0
1999
Ilhas Faroé-Andorra 0-0
Portugal-Andorra 4-0
2000
Malta-Andorra 1-1
Albania-Andorra 3-0
Azerbeijan-Andorra 0-0
Andorra-Belarússia 2-0
Apuramento Euro-2000
Arménia-Andorra 3-1
Andorra-Ucránia 0-2
França-Andorra 2-0
Andorra-França 0-1
Andorra-Islândia 0-2
Rússia-Andorra 6-1
Ucrania-Andorra 4-0
Islandia-Andorra 3-0
Andoora-Rússia 1-2
Andorra-Arménia 0-3
Apuramento Mundial 2002
Estónia-Andorra 1-0
Andorra-Chipre 2-3
Andorra-Estónia 1-2
Chipre-Andorra 5-0
CLUBES NA UEFA
GOLEADAS ATERRADORAS
Após a filiação na UEFA em 1996, Andorra – 146ª no Ranking da FIFA, á frente de San Marino e Lichtenstein- passou a ter o direito de inscrever uma equipa, o campeão nacional, na Taça UEFA. A Federação só nasceu em 1994, mas a Liga Andorrana já se disputa desde 1984, embora o FC Andorra jogue nas competições da federação espanhola, reunindo doze clubes amadores do principado, quase todos filiais ou fundados por adeptos de grande clubes de fora do principado. É assim que Andorra, que teve como primeiro representante europeu o campeão CE Principat, emanação de uma secção local de adeptos do Real Madrid, que em 97/98 defrontou o Dundee United, da Escócia, perdendo por 8-0 e 9-0!, repetindo a eliminação em 98/99, frente ao Ferencvaros, 0-6 e 1-8.
Esta época, a tradição das goleadas monstruosas manteve-se com o Constel-lació, esmagado pelo Rayo Vallecano, 0-10! e 0-6. Uma sucessão de goleadas que causa embaraço á sua selecção que, em lenta progressão, tem deixado uma imagem agradável nos relvados europeus, apesar de, nos quatro anos de vida que leva, apenas ter ganho um jogo, frente á Bielorússia, por 2-0.