ANGOLA: O sonho dos palancas negras

15 de Junho de 2005
ANALISANDO TÁCTICAS E EMOÇÕES EM TORNO DA SELECÇÃO DE ANGOLA.
A três jogos do fim, Angola continua imparável no sonho de chegar ao Mundial 2006. Seria fantástico. Assistir a um jogo dos palancas, em Luanda, no Estádio Cidadela, que parece ter parado no tempo, continua a despertar um sentimento nostálgico aos olhos portugueses mal Gilberto, André ou Flávio tocam na bola. Muitos dos genes que, ao longo dos tempos, construíram o estilo do nosso futebol, nasceram lá.
No contexto da África negra, o futebol angolano tem, no entanto, identidade própria: técnica, jogo apoiado, em toques curtos, de pé para pé, mesmo com a bola aos saltos no terreno duro e irregular, para, depois, mudar de velocidade nos últimos 30 metros. No banco, um homem que depois de orientar os Sub-16, Sub-18, Sub-20 e Sub-23, chegou á selecção principal há um ano: Luís Oliveira Gonçalves. Ele sabe tudo sobre o futebol angolano. Quase todos estes jogadores passaram pelas suas mãos nos escalões jovens. Agora, sabe como tirar o maior rendimento deles. No ultimo jogo, frente á Argélia, montou um maleável 4x4x2 com extremos e grande dinâmica posicional que derrotou o 5x3x2 argelino.
Partindo de uma defesa atenta, forte no jogo aéreo, embora com poucos rins no eixo, onde mora a dupla de centrais Cali (Santa Clara) e Jamba (AS Aviação), os laterais Loco (Benfica Luanda), á direita, e Asha (AS Aviação), á esquerda, essencialmente de apoio, sabem, bons tecnicamente, conduzir a bola no início da fase atacante. No centro do meio campo, dois volantes de contenção: André (Gaziantespor), na recuperação, e o veterano Figueiredo (Lusitânia Açores), na elaboração, em bolas curtais ou longas. A grande dinâmica ofensiva é incutida, no entanto, pelos flancos, com o cativante extremo esquerdo Gilberto (Al Ahly), diabólico na faixa canhota, enquanto Mendonça (Varzim) descaí sobre a direita, embora muitas vezes flicta no terreno para pegar no jogo. No ataque, a dupla Akwá (Qatar SC), em cunha entre os centrais adversários, e Flávio (Petro Atlético), mais recuado nas suas costas e que, muitas vezes, se encosta ao flanco direito, passando, nesse momentos, Mendonça para o centro. Nessa altura, como um dos avançados joga mais recuado, quase parece um 4x2x3x1 em vez de um 4x4x2. Em todos os movimentos, a equipa revela imaginação e alegria. Neste habitat, custa ver como um jogador como Mantorras parece estar condenado a só jogar quinze minutos por jogo. Quando entrou, porém, ainda teve tempo de sentar dois argelinos com uma finta e uma simulação como só ele sabe fazer. Nas bancadas o publico delirou e o futebol angolano como que renasce. Se este sonho resistir á deslocação á Nigéria, o mundo irá descobrir finalmente onde o futebol português foi beber muita da inspiração dos gestos técnicos que executa sem pensar. Na intensidade com que os portugueses sentem a selecção angolana está, no fundo, a essência que faz uma selecção: uma identidade de emoções e cultura. Como costumam dizer os argentinos quando falam da paixão pelos seus clubes: quem não sente, não entende. São os ventos de África, trazidos do passado com a atitude vibrante só possível de ver e sentir no continente negro.

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